domingo, 30 de julho de 2017

O não-humano na experiência estética de Nietzsche

Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 — 1900) 
“A única vida possível: na arte.
De outro modo, desviamo-nos da vida. "(Friedrich 
Nietzsche)

Em O nascimento da tragédia, Nietzsche discorre sobre a concepção de arte na tragédia grega clássica, localizando-a entre as artes pictóricas e a música. Para Nietzsche, a tragédia grega seria o resultado da junção de impulsos essenciais, representados por duas divindades gregas: Apolo, identificado como deus das artes pictóricas e Dionísio, como o deus da música. Trata-se de dois polos opostos. Enquanto Apolo é representado por Nietzsche como o Deus da individuação, da racionalidade, que estabelece as fronteiras e limites do ser, Dionísio é o deus do vinho, ou seja, da intoxicação, da música e da dança, atos em que se perde a individuação, a identidade. Apolo é ser, Dionísio é devir. Mas em Nietzsche, “a relação entre ser e devir não é pensada como algo conceitual ou teórico, ou como algo que meramente é, mas sim como criação artística”. 

A pulsão dionisíaca, portanto, se caracteriza por um misto de horror e êxtase devido à perda da humanidade do indivíduo, ao mesmo tempo em que este se reconcilia com a totalidade. Neste percurso pulsional, “o próprio homem se torna obra de arte, ritmo, expressão simbólica da essência da natureza: pois o dionisíaco tem a peculiaridade de criar linguagens simbólicas (música, canto, dança), e não imagens idealizadas”. A tragédia grega, de acordo com a tese defendida por Nietzsche em O nascimento da tragédia, seria o produto da reconciliação de ambas as pulsões da natureza, simbolizadas por Apolo e Dionísio. Mas na “Tentativa de autocrítica” (uma espécie de posfácio para o O nascimento da tragédia), Nietzsche confere primazia a Dionísio em detrimento de Apolo, e afirma que o dionisíaco é o lugar da superação de todos os dualismos e de todas as separações. É a conciliação entre a criação e a destruição, entre o sofrimento e o prazer. Em obras subsequentes, Dionísio se tornará o elemento central de sua filosofia.

Com a noção de dionisíaco, Nietzsche dá a entender que nossa compreensão da vida não é baseada em verdades factuais, mas é uma derivação da verdade artística, uma vez que todos os fatos, num certo sentido, são eles próprios resultados da criação artística. Até mesmo a ciência é arte, embora tenha se esquecido de que é nada mais que arte. Então, a vida “mais verdadeira” é aquela que é dada na falsificação artística. A Grécia clássica, berço da cultura ocidental, surge a partir da conversão das divindades religiosas em força da arte. Segundo Nietzsche, os gregos viam a própria vida como arte. E a tragédia é o gênero artístico que tem a capacidade de exibir de modo mais evidente o poder transfigurador da arte. 

Se os impulsos estéticos em Nietzsche são inumanos e criadores da existência como obra de arte, como esse elemento inumano se manifesta na obra nietzschiana? Uma possível chave para responder essa questão talvez esteja em Deleuze e Guattari, por meio do que eles vão chamar de personagem conceitual. Os personagens conceituais “operam os movimentos que descrevem o plano de imanência do autor, e intervêm na própria criação de seus conceitos”. Em Nietzsche, o personagem conceitual que funciona como o sujeito de uma filosofia seria o “Dionísio crucificado” ou o “Anticristo”. Mas não é o Dionísio dos mitos que está em Nietzsche, assim como não é o Sócrates da História que está em Platão, afirma Deleuze. E Dionísio se torna “filósofo, ao mesmo tempo em que Nietzsche se torna ele próprio Dionísio”. 

Importante ressaltar que a metafísica da arte de Nietzsche não se refere ao juízo estético de quem aprecia a arte em termos kantianos e sim ao sujeito enquanto artista, liberto de sua vontade individual. Não existe uma função social para arte. Ela não nos educa nem nos torna seres melhores. A arte, portanto, possui um valor em si, não no sentido de uma fruição estética, mas na medida em que somos, nós mesmos, “imagens e projeções artísticas”. Um dos legados de Nietzsche em relação à arte é a sua crença de que é possível realizar uma justificação do mundo como fenômeno estético.  Em Crepúsculo dos ídolos, Nietzsche assevera que “a arte nada mais pode ser do que a afirmação do mundo”. 

Para Walter Benjamin , contudo, a teoria estética de Nietzsche apresentada em O nascimento da tragédia tem sua validade comprometida em razão da influência da metafísica schopenhaueriana e wagneriana. Para Benjamin, ainda que tenha intuído a necessidade de uma filosofia da história, faltou a Nietzsche um sentido propriamente histórico no tratamento da tragédia. O mito trágico, assim como o jogo de forças entre Apolo e Dionísio, para Nietzsche, de acordo com a crítica de Benjamin, é uma construção puramente estética. A dissolução da aparência desse jogo das forças apolíneas e dionisíacas é igualmente reduzida ao domínio estético. Segundo Benjamin, Nietzsche “pagou um alto preço pela emancipação da tragédia em relação ao lugar-comum de uma moralidade geralmente aplicada aos eventos trágicos”. A renúncia apontada por Benjamin se dá sobretudo na seguinte passagem:

“Pois, acima de tudo, para nossa degradação e exaltação, uma coisa nos deve ficar clara, a de que toda a comédia da arte não é absolutamente representada por nossa causa, para nossa melhoria e educação, tampouco que somos os efetivos criadores desse mundo da arte: mas devemos sim, por nós mesmos, aceitar que nós já somos, para o verdadeiro criador desse mundo, imagens e projeções artísticas, e que a nossa suprema dignidade temo-la no nosso significado de obras de arte — pois só como fenômeno estético pode a existência e o mundo justificar-se eternamente — (...).”
 
Aqui se abre o “abismo do esteticismo”, afirma Benjamin, na medida em que se perdem todos os conceitos e se destrói todos os pilares da tragédia grega: deuses e heróis, pertinácia e sofrimento. Ao colocar a arte no centro da existência, tornando o homem um mero pretexto para as criações artísticas, em vez de seu fundamento último, toda a “reflexão sóbria cai pela base”. Na crítica de Benjamin, pouco importa se toda a obra de arte se inspira na vontade de vida ou em sua destruição, uma vez que ela se desvaloriza a si mesma ao desvalorizar o mundo. O niilismo nietzschiano, assim, colocou a perder a sólida “factualidade histórica da tragédia grega”. E ao contrário do que sustenta Nietzsche em sua interpretação da tragédia, para Benjamin, os coros e o público não constituem uma unidade. 

Benjamin prossegue afirmando que a teoria estética de Nietzsche afastou-se da noção central da tragédia grega por não ter se dedicado a doutrina da culpa e da expiação. Assim, não penetrou nos conceitos da filosofia da história e da religião, que para Benjamin são decisivos para clarificar a essência da tragédia. Ao omitir tais conceitos, Nietzsche passou ao largo de questões fundamentais como, por exemplo, a de saber se as ações e os comportamentos tal como apresentados em uma obra de arte possuem um significado moral enquanto reproduções da realidade. E, ainda, se o conteúdo de uma obra de arte pode ser apreendido por noções de ordem moral. 

Assim, o ideal de pureza estética nietzschiana parece implicar o esvaziamento dos aspectos morais e histórico-filosóficos em sua concepção acerca do trágico. Em linhas gerais o erro de Nietzsche teria sido o de incorrer em esteticismo, uma espécie de devoção da arte pela arte. O esteticismo não leva em conta os fatos históricos, tampouco as implicações morais de uma obra de arte. O risco de uma postura esteticista diante da arte, sob uma perspectiva marxista, provavelmente endossada por Benjamin, seria torná-la um mero instrumento dos interesses das classes dominantes. 

Em razão do contexto histórico em que viveu Benjamin, na aurora do surgimento dos regimes totalitários do século XX, a par de sua estreita relação com Bertolt Brecht, dramaturgo e teatrólogo cuja visão da arte era no sentido de transformá-la em instrumento de combate político, é possível especular acerca dos motivos pelos quais ele se opõe com tanta veemência a qualquer possibilidade de uma arte neutra, desengajada e a-histórica. Desta forma, ainda que seja legítima a tentativa de Nietzsche de expurgar da tragédia seus conteúdos históricos e morais, o resultado final pode ser o de uma arte anódina, perfeitamente assimilável e palatável aos gostos da burguesia dominante. Anacronismos à parte, a julgar pelos caminhos trilhados pela arte no século XXI, cujos valores éticos e estéticos se confundem cada vez mais com os do mercado, reduzindo-a a mero artefato de consumo, a crítica de Benjamin ao suposto esteticismo de Nietzsche pode ter, afinal, alguma justificativa.

Bibliografia:

DELEUZE, G. GUATTARI, F. O que é a filosofia? Tradução de J. Guinsburg. 2ª edição. Rio de Janeiro: Ed. 34, 2009.
HAASE, U. Nietzsche. Tradução Edgar da Rocha. 1ª edição. Porto Alegre: Artmed, 2011.  
NIETZSCHE, F. O crepúsculo dos ídolos. Tradução Paulo César de Souza. 1ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
NIETZSCHE, F. O nascimento da tragédia. Tradução Bento Prado Jr. E Alberto Alonso Muñoz. 1ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
WOTLING, P. Vocabulário de Friedrich Nietzsche. Tradução Claudia Berliner. 1ª edição. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2011.