segunda-feira, 3 de abril de 2017

O nascimento de uma tragédia política

"Nossa esperança no futuro da sociedade se ampara na crença de que o mundo social permite pelo menos uma ordem política decente, de modo que seja possível um regime democrático razoavelmente justo, embora não perfeito." (John Rawls, Conferências sobre a história da filosofia política)

Quando há fragmentação excessiva de partidos políticos, eles se transformam em meros grupos de pressão para o atendimento de seus interesses econômicos. Dessa forma, abrem mão de projetos de governo e se fecham para a possibilidade de negociações e acordos com outros grupos sociais que não façam parte de suas agendas. A política se transforma em lobby. Na falta de partidos políticos genuínos, políticos abrem mão da política e agem somente para agradar seus grupos de interesse. Políticos se tornam lobistas. As casas legislativas, um mercado de balcão. A democracia se enfraquece. A hostilidade entre classes sociais e grupos econômicos aumenta. O ceticismo cínico entre os cidadãos se instaura. O respeito às instituições se esvazia. Os ideais de justiça e do bem comum se apagam. A vida política se converte numa luta de todos contra todos. Tudo o que importa passa a ser ''quem leva o que e como''. Nesse estado de coisas, o campo para a emergência de oportunistas que flertam com o fascismo e/ou com teologias de mercado do tipo neoliberal mais violento torna-se fértil. E viável politicamente. A grande imprensa, sempre servil aos poderes vis, os homologa moralmente, enquanto intelectuais de plantão os legitimam ideologicamente, e as camadas médias da população, adestradas pelo discurso da inevitabilidade econômica e do medo da violência, oferecem-lhe seus votos. Assim nascem os dórias, hucks e bolsonaros. Assim nasce uma tragédia política.