domingo, 12 de março de 2017

Em busca da humanidade perdida

"No mundo da técnica planetária ser é nada." (Marcia Sá Cavalcante Schuback)

Em sua Introdução à metafísica, publicada pela primeira vez em 1935, o filósofo Martin Heidegger levanta questões desconcertantes acerca do mundo da técnica que até hoje nos inquietam, e talvez com um sentimento de perplexidade ainda maior. Vamos a elas:

“Quando o mais longínquo canto do globo tiver sido conquistado tecnologicamente e explorado economicamente; quando qualquer acontecimento, em qualquer lugar e a qualquer hora, se tornar acessível instantaneamente; (...) quando o tempo for nada além de 
velocidade, instantaneidade e simultaneidade, e o tempo histórico houver desaparecido do Dasein (Ser-aí) de todos os povos; quando um boxeador valer como um grande homem de um povo; quando as cifras milionárias significarem triunfo; então, ora então, lá ainda surgirá como um fantasma a incômoda questão: para quê? — para onde? — e agora?”*

Eis que o fantasma surgiu. E nos faltam respostas para suas incômodas indagações. No ensaio A questão da técnica, de 1953, de acordo com Taylor Carman, Heidegger argumenta “que estamos às voltas com uma compreensão ‘tecnológica’ do ser, definida em termos de um ordenamento eficiente, ou ‘Enquadramento (Ge-stell), e que tendemos a tratar os entes em geral, incluindo nós mesmos, como material de apoio, ou ‘reserva passiva’ (BUNNIN e TSUI-JAMES, 2003, p. 924). Um dos exemplos favoritos de manipulação tecnológica dos entes para Heidegger era, à época, a construção de hidrelétricas. 

Ainda segundo Carman, “outras manifestações de nossa compreensão tecnológica do ser são o transporte em alta velocidade e a tecnologia da informação, sobretudo a televisão, os quais abolem distâncias e corroem nossa percepção das coisas como próximas ou distantes, nobres ou vulgares, importantes ou triviais” (BUNNIN e TSUI-JAMES, 2003, p. 924). No entanto, ao que parece pela leitura dos textos de Heidegger, não se trata de abolir a tecnologia, mas de representá-la de um modo diferente. Para Heidegger, “a tecnologia é uma maneira de revelação. 

Enquanto representarmos a tecnologia como um instrumento, permaneceremos presos à vontade de dominá-la”. Decorridos mais de 50 anos desde a publicação do ensaio sobre a técnica, podemos afirmar, nos termos de Heidegger, que o esquecimento do ser, agora hiperconectado pela tecnologia das redes digitais, é praticamente total. 

O ser humano tanto quis se libertar da natureza, tanto quis controlá-la, tanto quis dominá-la, que criou uma realidade ainda mais brutal e selvagem. A busca por se libertar da natureza por meio da técnica levou o ser humano a uma escravidão ainda mais implacável. O ser humano tornou-se escravo de sua liberdade de controlar. Escravo da vontade de controle. Escravo da técnica. Ao "humanizar" o mundo, desumanizou-se. Ao escravizar a natureza, escravizou-se.

Ao controlar e racionalizar a vida, descontrolou-se. Tornou-se irracional. É hora de buscarmos novos sentidos que não sejam meramente reflexos de uma vida forjada pela técnica, pelos meios, pelos mecanismos, pelos instrumentos, pelos métodos, pelos procedimentos. Precisamos resgatar nossa humanidade perdida entre todas as técnicas. E voltarmos a ser alguma coisa que valha por si.


Bibliografia consultada:

BUNNIN, Nicholas. TSUI-JAMES, E. P. (organizadores). Compêndio de Filosofia. Edições Loyola, 2003.

HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo, parte I, coleção Pensamento Humano, tradução de Márcia de Sá Cavalcante, Vozes. Petrópolis, 1997, 6ª edição.
___________. Introduction to Metaphysics . Yale University Press. New Haven & London. 2000.

*Tradução livre

sábado, 4 de março de 2017

O ABC do neoliberalismo

Neoliberalismo é quando os ricos transferem livremente suas riquezas para onde se pagam menos impostos, aplicam seus recursos onde os juros são mais elevados e deslocam seus empreendimentos para onde haja o mínimo de direitos trabalhistas e sociais. E vivem em qualquer lugar do mundo que assim o desejarem, cercados de muros, bens luxuosos e aparatos de segurança privada. São os habitantes das muralhas maravilhosas.
Enquanto isso, o resto da população trabalha para subsistir, sobreviver e consumir as sobras do mundo afluente. Endividam-se para ter o mínimo de conforto material e vivem onde é possível viver, cercados de insegurança pública. Quando pacíficos, os excluídos são abandonados. Quando violentos, são encarcerados. Um Estado mínimo garantido por presídios de segurança máxima. Austeridades sociais em meio a prodigalidades armamentistas.
Os neoliberais e seus aliados conspiram incansavelmente pelo desmantelamento das redes de proteção social, amparados por suas tropas de elite espalhadas pelas casas legislativas. Suas indústrias bélicas são amplamente representadas em seus interesses nos parlamentos e legalmente blindadas pelos poderes judiciários. Os bancos de investimentos são suas fortalezas mais sólidas. Jamais se acanham em se utilizar largamente das instituições democráticas em benefício próprio.
E para disseminar suas ideologias, os poderosos do capital e seus representantes corporativos cercam-se de acadêmicos vencedores do prêmio Nobel, de políticos pretensamente defensores da social-democracia e de porta-vozes midiáticos dos principais meios de comunicação. Mediante o mágico efeito da dominação simbólica, o neoliberalismo faz com que dominantes e dominados lutem por um mesmo ideal. É a globalização da ideologia. Uma distopia real. Aqui e agora. Essa é a verdadeira "revolução" do final século XX, cujos efeitos ainda reverberam incólumes em pleno século XXI.

sexta-feira, 3 de março de 2017

A curiosa lógica do neoliberalismo

"Por que precisamos fazer os ricos mais ricos para que eles trabalhem mais, porém devemos tornar os pobres mais pobres para esse mesmo fim?" (Ha-Joon Chang, professor de economia na Universidade de Cambridge)

Implementadas politicamente por Ronald Reagan e Margaret Thatcher, as ideias neoliberais propagaram uma lógica curiosa. E mais curiosamente ainda, a lógica ganhou adeptos não só entre as classes dominantes, mas também entre os menos favorecidos. A grande imprensa e uma boa parte da academia adotaram seus preceitos e os transformaram em dogma. E não apenas em países desenvolvidos, mas também nos países em desenvolvimento e até nos países pobres. Seus efeitos perversos, tanto simbólicos quanto reais, ainda ecoam mundo afora. 

No Brasil, essa curiosa lógica elegeu Fernando Collor. Em seguida, concedeu dois mandatos a Fernando Henrique Cardoso. Os resultados dessa lógica foram pífios no mundo inteiro. Em três décadas, o neoliberalismo, nos países que o adotaram, proporcionou um crescimento médio de 1,8% ao ano, considerado o período entre 1980 e 2010. Em décadas precedentes, na chamada Era de Ouro do capitalismo, entre 1950 e 1973, a Europa ocidental cresceu a uma média anual de 4,1%, os EUA cresceram 2,5% e o Japão incríveis 8,1%.

Mesmo quando o crescimento desacelerou, após os choques do petróleo, o crescimento médio das nações desenvolvidas, entre 1973 e 1980, anos que antecederam o advento das políticas neoliberais, atingiu 2% ao ano. Superior aos 1,8% dos anos neoliberais (1980-2010), cujas políticas econômicas foram introduzidas sob pretexto de aumentar o crescimento e reduzir o desemprego. Fracasso em ambos indicadores. Na era Thatcher, o número de desempregados na Inglaterra passou de 1 milhão, para 3,3 milhões de pessoas, e uma enorme recessão assolou o país entre os anos de 1979 e 1983. 

Mas afinal, qual seria a "lógica" por trás dessa curiosa lógica neoliberal? É simples de entender. Difícil de acreditar. O núcleo duro das teses neoliberais está centrado em duas ações governamentais, simétricas e diametralmente opostas: corte de impostos para os ricos e, em contrapartida, redução de direitos sociais para os pobres. A curiosa lógica que sustenta essa tese e, por conseguinte, justifica as políticas públicas nelas inspiradas é transparente. Não deixa dúvidas. Se abro mão de arrecadação, tenho que cortar despesas públicas. Os efeitos práticos? Aumento significativo da concentração da renda e da riqueza, demonstrado por inúmeras pesquisas, como as lideradas por Thomas Piketty.

Aos ricos, corte de impostos para incentivá-los a trabalhar. Aos pobres, corte de benefícios para também incentivá-los a trabalhar. É isso mesmo. Você, que chegou até aqui, leu corretamente. As justificativas são exatamente as mesmas: incentivar o trabalho. Só que para ricos, o incentivo vem sob forma de aumento de benefícios. Para os pobres, o incentivo vem sob forma de redução de benefícios. Como afirma Ha-Joon Chang, "curiosa ou não, essa lógica tornou-se o alicerce fundamental das políticas neoliberais nas últimas três décadas". Quando a convicção é forte, o cinismo se converte em fato. O fato se converte em lei. E a lei se converte em políticas públicas, que protegem os interesses daqueles que as instituíram. Tudo muito lógico.