quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Colaborar ou resisitir

Brasília, 29 de novembro de 2016
O Brasil está sob ocupação. Não ocupação de estudantes ou de manifestações democráticas. Ocupação neoliberal. Do capital estrangeiro. Do capital financeiro. Da grande mídia. Das milícias fascistas. Do Congresso Nacional. Do poder Judiciário. De um poder Executivo ilegítimo. E de boa parte da intelectualidade acadêmica. Todas as instituições estão ocupadas no macrointeresse do grande capital e no microinteresse de seus agentes. Macro e micropoderes convergem como um grade rolo compressor que tudo destrói, exceto os privilégios dos poderosos. O Brasil está sob ocupação. Para os não ocupantes restam apenas duas alternativas: colaboracionismo ou resistência. A omissão é um tipo de colaboração. O momento é de escolha. Dessa escolha dependerá o futuro do país.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Primeiramente: fora Temer já!

É possível que haja um 'Fora Temer' sem que necessariamente haja um 'Volta Dilma'. No caso de uma eventual queda de Temer, há mais de um cenário possível. Algumas possibilidades. Umas boas, como a volta de Dilma (que depende de uma decisão do STF) ou a convocação de eleições diretas. Outras ruins, como seria o caso de eleições indiretas e uma volta, sem voto popular, do derrotado PSDB à presidência da República. No entanto, nem a hipótese boa ou a ruim serão possíveis sem um 'Fora Temer' prévio. Trata-se de uma condição lógica. Logo, se quisermos ver concretizada a hipótese de um 'Volta Dilma' ou de eleições diretas, é preciso necessariamente que haja um 'Fora Temer', mesmo que isso implique risco de consolidação do golpe tucano. O segredo será a celeridade. Para que haja uma possibilidade de 'Diretas Já', Temer terá de cair antes de 2016 acabar. A queda é pra já. Uma missão quase impossível. Mas vale a tentativa. Viver é perigoso, já dizia Guimarães Rosa. Se quisermos que nossa democracia tenha direito a alguma chance de se restabelecer antes de 2018, será preciso arriscar. Não há mais tempo a perder. Nem outro caminho a seguir. Primeiramente: FORA TEMER JÁ!

terça-feira, 22 de novembro de 2016

O aparelhamento ideológico do Estado

Credito da imagem: Do Ho Suh
É ingênuo pensar que o Estado é aparelhado ideologicamente pelos programas de governo do(a) presidente da República em exercício e de suas equipes técnicas e quadros políticos. Se levarmos Marx a sério, é a economia que controla o Estado e a política. Não o inverso. O Estado é, de fato, aparelhado ideologicamente pelas forças de produção dominantes, que controlam seus principais órgãos de atuação, assim como controlam os veículos privados de comunicação de massa. E, ao ser controlado ideologicamente, o Estado, por meio de suas instituições mais estratégicas, controla segmentos chave da sociedade civil. O sistema é retroalimentado. O círculo se fecha. O Brasil, a despeito de quem o governa, vem sendo controlado material e ideologicamente pelo capital corporativo, sobretudo o financeiro. Há incontáveis décadas. Sobra pouca margem de manobra para os chefes do Executivo. O que um presidente da República pode fazer, quando eleito com a finalidade de enfrentar os poderes dominantes, é oferecer um contraponto político no âmbito de suas competências funcionais, de modo a buscar um reequilíbrio de poder. Dadas as limitações óbvias de um mandato executivo, no fim das contas, a atuação de um presidente da República estará sempre aquém das forças dominantes. Por outro lado, quando um presidente da República logra ser eleito com o intuito de representar as forças dominantes, seu papel é pura e simplesmente reforçá-las política e institucionalmente. É o caso da Argentina de Macri. Do Brasil nos tempos de FHC. E agora de Temer, de modo ilegítimo, sob a forma de um golpe de Estado. Assim, cada vez que um presidente eleito converge politicamente com as forças produtivas hegemônicas, o Estado se torna ainda mais bem aparelhado para perpetuar os interesses das classes dominantes. A questão ainda é mais grave no Legislativo. Como a tendência da população é concentrar todas as expectativas no poder Executivo, a eleição para deputados e senadores é sempre negligenciada. As casas legislativas, portanto, são facilmente controladas pelos setores de maior poder econômico e amplitude ideológica. O que dificulta ainda mais a ação do presidente da República e o impele a acordos improváveis em nome de um mínimo de governabilidade. O Judiciário, por sua vez, como não faz parte das decisões eletivas da sociedade, é um poder elitista por natureza. É um segmento à parte que, acobertado pelo álibi da tecnicidade, funciona como um guardião de privilégios adquiridos. Por isso tantas condenações seletivas. Do juiz "deus" ao juiz "vingador". Tudo isso sempre acobertado pela grande mídia, portadora dos álibis da objetividade e da liberdade de expressão, e cujo papel é unir dominantes e dominados sob o mesmo guarda-chuva ideológico: demonizar o Estado e sacralizar o mercado. Eis alguns desafios fundamentais que a democracia brasileira tem enfrentado e que não podem mais ser ignorados por seus cidadãos. Sobretudo por aqueles que desejam viver em uma sociedade progressista, mais justa e igualitária, cujas políticas de inclusão social e redistribuição de renda não sejam interrompidas ao sabor dos humores e rumores da nossa implacável elite.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Maniqueísmo para os maniqueístas

As organizações Globo são, em seus editoriais, notadamente maniqueístas. Elegem sempre um suposto ''mal'' que se opõe a um suposto ''bem''. No jornalismo. Nas tramas das novelas. Nos programas de auditório. Para a Globo, Trump seria o "mal" e Hillary o "bem". Visão simplista. Binária. Maniqueísta. Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia. Interesses ocultos. E sobretudo muito jogo de cena. Mas o fato de a Globo ter elegido Trump como o representante do "mal" não o torna algo desejável por mera oposição a ela, como um subproduto das críticas que se possa fazer à linha editorial dessa empresa. Isso seria apenas mais um tipo de maniqueísmo, ainda que por uma via reativa. É descer tão raso quanto àqueles que se quer criticar. Se nos comprometermos com essa prática de sempre negar o que nossos adversários apoiam, independentemente dos conteúdos envolvidos, correremos o risco de nos colocar em situações embaraçosas com muita frequência. Imagine-se na década de 1940. E, por hipótese, o jornal ao qual você fosse um opositor ferrenho se pronunciasse contrário ao nazismo em um determinado editorial. Você se transmutaria em nazista só para contestá-lo? O mundo é muito mais complexo do que alinhamentos e desalinhamentos automáticos. Para o bem ou para o mal, a Globo é a Globo. Trump é Trump. Hillary é Hillary. Até porque, os EUA são a maior potência capitalista do planeta. Logo, sempre elegerão algum presidente pró-negócios. Amigável ao capital financeiro e aos senhores da guerra. Se Hillary é o status quo, Trump, por sua vez, não é contrário ao status quo, embora tenha sido isso que ele quisesse vender para fins eleitorais. Nas atuais circunstâncias históricas, o fato é que só podemos pensar nas eleições norte-americanas em termos de resultados que representem um mal menor. Jamais como algo que seja um bem em si mesmo.  Ao menos por hora. Portanto, deixemos o vício maniqueísta para aqueles que fazem do maniqueísmo sua moeda corrente. Podemos ser um pouco mais sofisticados do que isso. Moral e intelectualmente. Deixemos o maniqueísmo para os maniqueístas.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Uma casa-grande chamada Ipanema

Ipanema votou em Crivella
Ipanema é uma província das mais atrasadas do planeta.
Se você pede uma Carta Capital o jornaleiro faz careta. 
O luxo triste das calçadas. A miséria escondida no morro.
A impessoalidade indiscreta de suas esquinas. 
Nas ruas, quanta gente esnobe e boçal. 
Cenário inóspito. Desolador. Desigual.
Na alma uma pobreza sem fim.
Quem dá o tom não é mais Jobim. 
Sua garota, superestimada pela canção tão bela, 
agora é paneleira da CBF. E cabo eleitoral do Crivella.

Uma fadiga inqueta

Terraço do Café à Noite, Vincent van Gogh
Sabe quando o cansaço e a sonolência invadem o corpo e tomamos, de um gole só, aquele único resto de café disponível, frio, fraco, amargo no final, na esperança de seguir em frente com alguma tarefa importante? 

E com amargura, percebemos que o sono continua, mas agora, além de abatidos, estamos agitados pela cafeína. 

Intranquilos demais para dormir, exaustos demais para produzir. Familiar? Pois é. 

A sensação é essa. E não é necessário nada para senti-la. Simplesmente está no ar. Onipresente. 

Uma tristeza cansada.

Um amargo na boca.

Uma fadiga inquieta.