quinta-feira, 21 de julho de 2016

O país das ficções escravizantes com força de lei

A causa do impeachment é fragilíssima. Não existe nenhuma base legal que a sustente. Todos sabem disso, até mesmo seus autores. As pedaladas não passaram de uma ficção mal feita. Dramaturgia ruim. Roteiro surreal povoado por personagens impensáveis até nas obras mais farsescas. A vilania de Eduardo Cunha, a hipocrisia de Aécio Neves, a covardia de Michel "Fora" Temer, as interpretações afetadas de Janaína Paschoal, e tantas outras aberrações impensáveis, não caberiam em nenhuma narrativa ficcional, em nenhum mundo possível, exceto em nosso Brasil real de hoje. Ninguém teria a imaginação de criar um rol de personagens tão grotesco e reuni-los todos na mesma trama. Até o público mais tolerante exigiria um mínimo de plausibilidade. Esse impeachment não se sustenta nem juridicamente, nem tecnicamente, nem politicamente. É uma farsa sob qualquer aspecto que se queira analisar. Um golpe tosco. Rudimentar. Grosseiro. E, no entanto, caminha incólume para um desfecho vitorioso. O povo se cala. A imprensa frauda pesquisas, manipula dados econômicos, blinda golpistas e ataca seletivamente aqueles que pretende destruir. O maior crítico e ativista contra o golpe brasileiro é um jornalista norte-americano. Paradoxo. O Brasil vive imerso em uma espécie de torpor. Uma indiferença naturalizada. Em tempos de olimpíadas, um golpe derrubou o país. Com um cruzado da direita, fomos assaltados no logo primeiro assalto. Antes de o gongo tocar. O nocaute já estava consumado. Por pontos. Os juízes foram unânimes. As regras? Ora, as regras... E os fatos? Ora, os fatos... As leis? Ora, as leis... As regras, os fatos, as leis, os juízes, nada disso existe por si. Serão sempre as ficções que os poderosos quiserem que sejam. Vivemos numa espécie de Matrix jurídica e econômica manipulada pelos interesses das classes dominantes. Somos corpos que dissipam energia humana para manter em funcionamento a máquina da plutocracia. Seres ficcionais a serviço de uma distopia real. A história do Brasil é a história das ficções escravizantes. Com a força da lei. E com a lei da força.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

A verdadeira doutrinação dominante no Brasil é a neoliberal

"Não há alternativa." (Margaret Thatcher)
O Judiciário pode ter partido. O Ministério Público pode ter partido. A Polícia Federal pode ter partido. A Polícia Militar pode ter partido. A grande imprensa pode ter partido. As indústrias podem ter partido. As instituições financeiras podem ter partido. As grandes corporações podem ter partido. As entidades patronais podem ter partido. As entidades de classe podem ter partido. As ONGs podem ter partido. Até a 'Escola sem partido' pode ter partido! E são sempre os mesmos partidos. Só as escolas não podem ter partido. No entanto, a atribuição de viés partidário às escolas é injusta. Se analisarmos as disciplinas que compõem o conteúdo do ensino médio (Português, Literatura, Matemática, Física, Química, Biologia, História e Geografia), não se pode afirmar que deem muito espaço para incutir visões de mundo a quem quer que seja. O ensino da História tende a ser meramente descritivo. A Geografia, na sua vertente humana, aborda questões gerais sobre meio ambiente, migrações, urbanização, atividades econômicas etc, de um ponto de vista mais instrumental do que efetivamente crítico. As escolas que ensinam Filosofia e Sociologia no ensino médio o fazem sob um ponto de vista mais histórico do que analítico. Em Filosofia é passada uma visão geral do pensamento ocidental, de Platão até mais ou menos Sartre, sem contudo aprofundá-lo. Trata-se de uma abordagem panorâmica, em que as questões filosóficas mais relevantes não são sequer abordadas em sala de aula. Em Sociologia, ainda que haja uma abordagem mais crítica, os conteúdos acabam por convergir com uma visão elitista da sociedade brasileira. Como bem ensina Jessé Souza, em seu livro 'A tolice da inteligência brasileira', nossos pensadores sociais, como Roberto da Matta, Raymundo Faoro e Sérgio Buarque de Holanda, acabam por reforçar uma visão conservadora e economicista da sociedade, em que o Estado é demonizado e a corrupção é a grande vilã, enquanto a eficiência dos mercados é vista como panaceia para a cura de nossos males sociais. Ainda que haja alguma exposição a um certo pensamento crítico associado às esquerdas aos alunos do ensino médio, isso se dá de maneira diluída, caleidoscópica e superficial. Um mero cisco no olho da visão de mundo hoje dominante nas instituições públicas e privadas, incluídas as nossas universidades. Assim, o pensamento hegemônico presente na chamada sociedade civil, extensivo a dominantes e dominados, não é o defendido pelo partido que alegam ser o partido da escola. O PT e demais partidos à esquerda. A ideologia dominante é a neoliberal. Conservadora. Elitista. E direitista. Independentemente de quem governe o país, a hegemonia do Estado, entranhada nas instituições públicas e privadas, é igualmente neoliberal, conservadora e elitista. Uma ideologia sorrateiramente naturalizada e vendida como uma inevitabilidade econômica. Ponto final. Se as escolas fossem de fato partidárias, com viés de esquerda, e influenciassem os alunos e alunas delas egressos, os partidos da preferência da sociedade civil escolarizada, representada sobretudo pela classe média, não seriam aqueles que de fato são: o PSDB e seus similares à direita. Os partidos das elites. Dos aspirantes a elite. E dos dominados pelas elites, mas que defendem as ideologias elitistas como se por elas fossem beneficiados, num claro exemplo de dominação simbólica. O que se pretende com o projeto 'Escola sem partido' é apenas oficializar, via projeto educacional explícito, uma doutrinação já dominante na sociedade civil há várias décadas: a ideologia neoliberal. O neoliberalismo, e todo o seu conjunto de prescrições meritocráticas, individualistas e excludentes, é a verdadeira doutrinação dominante no Brasil. O resto é conversa de Alexandre Frota com Mendonça Filho. 

sexta-feira, 1 de julho de 2016

O círculo mortal do neoliberalismo

"Todas as nossas ideias sobre a vida têm de ser revistas numa época em que nada mais adere à vida." (Antonin Artaud)

As políticas neoliberais provocam crises sistêmicas. Para combatê-las, de acordo com a retórica igualmente neoliberal, tais crises exigem políticas neoliberais ainda mais radicais, cujos efeitos agravam as crises existentes, além de criar novas crises e reciclar as velhas crises, que são todas utilizadas como pretexto para um neoliberalismo cada vez mais ortodoxo e implacável, numa espiral negativa sem fim. Uma cadeia causal autorreferente, acionada numa espécie de piloto automático, sem nenhuma legitimidade democrática. Os remédios econômicos pseudocientíficos, prescritos em doses cada vez mais fortes, são acionados por tecnocratas, a serviço de plutocratas, como se fossem uma inevitabilidade, uma lei da física, sem possibilidade de nenhum outro tipo de escolha exceto a aplicação de um receituário desumano, cujo único efeito é tornar os ricos mais ricos, os pobres mais pobres e a humanidade brutalizada, decadente, cada vez distante de si mesma. A doença que aniquila é ao mesmo tempo o remédio que mata. O neoliberalismo nos faz morrer várias vezes: da doença e do remédio. E depois de mortos, nos mata mais uma vez. E outra vez. Até o triunfo final da técnica e da eficiência, quando não haverá mais pobres para empobrecer, nem ricos para enriquecer, nem mortos para morrer. Um mundo pitagórico de números puros, em que o dinheiro se tornará o mestre do universo e se reproduzirá indefinidamente, exponencialmente, inexoravelmente, sem custos, sem regulações, sem barreiras, sem trabalho, sem lei, circulando inteiramente livre, pulsando pelas veias de sistemas eletrônicos alimentados por energia solar, perfeitamente integrados e autorregulados. O apocalipse será apenas mais um ajuste neoliberal.