quarta-feira, 29 de junho de 2016

Uma ponte para a escola sem futuro

Se o projeto Escola Sem Partido for aprovado, na próxima redação do Enem a proposta será algo do tipo: "Citando exemplos do senso comum, destaque a eficácia da tortura como instrumento de defesa e garantia da Segurança Nacional. Desmistifique a problemática dos direitos humanos elaborando argumentos favoráveis à pena de morte e a redução da maioridade penal. Indique os benefícios da tortura e da violência policial na consolidação dos valores cristãos e no combate a comportamentos sexuais heterodoxos, visando a preservação da pureza da família tradicional brasileira e da formação de homens de bem e de mulheres honestas. Recatadas. E do lar. Finalmente, utilize seu repertório de vida para indicar exemplos em que uma suposta violência sexual foi provocada pela pessoa que afirma ser a vítima do alegado abuso. Não se preocupe com a coesão, a coerência, nem com articulação das ideias. Caso haja dificuldades na composição do texto, os temas acima não precisam ser encadeados sob forma de redação. Utilize frases soltas. Se preferir, elime as regras de pontuação. Erros gramaticais ou semânticos não serão considerados na avaliação. Ignore a lógica e qualquer outra ferramenta subversiva. Se tiver que citar algum tipo de ciência da natureza, evite a física quântica, dado seu teor de desagregação dos valores morais, civis, familiares e religiosos. Referências a Darwin e a teorias contrárias ao criacionismo serão passíveis de retratação pública e implicará anulação da prova. Atenção: referências históricas ou extraídas de qualquer área das ciências sociais e humanas ou, pior ainda, filosóficas serão desconsideradas sumariamente. Provas com citações da dupla Marx e Hegel [sic] serão incineradas em nome da tradição, da família e da propriedade. A redação será anulada e a prova confiscada. Dica: na página ao lado, há um conjunto de citações de Alexandre Frota, Lobão, Jair Bolsonaro, Olavo de Carvalho, Reinaldo de Azevedo, Rodrigo Constantino, Marco Feliciano, Emílio Garrastazu Médici, Jarbas Passarinho e Michel Temer para serem utilizadas como referência. A única mulher que poderá ser utilizada como citação é Janaína Paschoal. Cuidado. Desvios da temática e violações das instruções contidas nesta atividade poderão acarretar sanções criminais, com penas duras aos infratores na forma de decretos 'ad hoc'. Boa prova! Fé em Deus e pé na tabuada. Sim, sim, sim. Se Deus quiser, sua nota será 10. Brasil, um país só para nós. Ordem e Progresso". Oremos.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

A naturalidade do golpe

Paul Cézanne - Natureza morta com leite e frutas
À medida que o tempo passa, o golpe se naturaliza. O vento venta, a chuva chove e o golpe... golpeia. O cotidiano se ajeita. A rotina prevalece. O esquecimento se estabelece. Nem parece que o país está submetido a um golpe de Estado há 48 dias. Vivemos como se fôssemos parte de uma quadro de natureza morta. Peças estáticas, cuidadosamente arranjadas para que se mantenham naturalmente imóveis. Da última vez ficamos quase todos paralisados por 21 anos. E os efeitos da paralisação ainda perduram, 52 anos depois. Por quanto tempo mais viveremos passivamente sob esse novo golpe velho? Uma das maiores tragédias do ser humano é a sua capacidade de se adaptar à opressão.

sábado, 25 de junho de 2016

Tristes trópicos

"O mundo começou sem o homem e terminará sem ele." (Claude Lévi-Strauss)

Em tempos de golpe de Estado, em que o país anda infestado de golpistas por todos os lados, cujo presidente interino e ilegítimo é um conspirador sem escrúpulos que ignora direitos humanos fundamentais e interrompe conquistas históricas das minorias antes esquecidas e excluídas; tempos em que o Estado é assaltado diariamente por uma quadrilha de políticos, magistrados, agentes públicos, empresários e jornalistas venais, famintos por mais dinheiro e poder; tempos em que índios são massacrados, mulheres humilhadas, estudantes agredidos, trabalhadores precarizados, enquanto especuladores presidem o Banco Central, entreguistas cuidam das relações exteriores e torturadores são homenageados em rede nacional; tempos em que a homofobia, a misoginia, o racismo e o machismo são exaltados em praça pública; tempos em que o orçamento público está sob o poder de tecnocratas sisudos e engravatados, representantes implacáveis do capital financeiro e das grandes corporações que, mesmo sem nenhum voto popular, ditam descaradamente os rumos das políticas públicas, sob a égide de uma ponte para um passado neoliberal, e destroem impunemente a educação, a cultura, a ciência, a saúde e todas as redes de proteção social, diante dos aplausos de uma classe média hipócrita, entorpecida e lobotomizada, e da conivência de uma imprensa cínica, entorpecente e lobotomizante; em tempos como agora, em que a nossa democracia tão jovem parece uma utopia envelhecida, nesses tempos de ódio, brutalidade e intolerância, o Brasil perdeu o sol, o som, o céu, a bossa, a ginga, a graça, a onça, a dança, a esperança. E a alegria. Hoje, nessa noite noite fria de inverno sem fim, somos um país triste.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Na ausência da política só resta a ilusão tecnicista

Não existe democracia sem política.Todos os partidos têm seus corruptos. Sem exceção. Mas a corrupção não é exclusividade da política. Há políticos corruptos mas nem todos os corruptos são políticos. E nem todos os políticos são corruptos. Políticos sérios e competentes existem. Pensar que a corrupção é um fenômeno político é, no mínimo, uma ingenuidade. Há corrupção generalizada na administração pública em todos os escalões, nas Forças Armadas, nas Polícias Militares, na Polícia Federal, no Poder Judiciário, no Ministério Público, nas empresas públicas, nas ONGs, nas empresas privadas, sobretudo nos setores de compra e gestão da cadeia de suprimentos. Há também muita sonegação fiscal, que é uma espécie de corrupção. E causa mais prejuízos aos cofres públicos do que a corrupção. No mundo, o Brasil é o segundo colocado em sonegação fiscal e sexagésimo nono em corrupção. As perdas dos cofres públicos com a sonegação são de R$ 500 bilhões anuais, contra R$ 67 bilhões em razão da corrupção propriamente dita. Corrupção e sonegação não são combatidas simplesmente eliminando a esfera política. Isso se combate fortalecendo a democracia e instaurando mecanismos continuados de auditoria, fiscalização e controle. O combate a corrupção, portanto, não significa negar a política, mas aperfeiçoar suas instituições. É preciso renovar a classe política sem, contudo, eliminar a esfera do político. Demonizar a política é ignorar o fato de que ela é um espelho da sociedade e não uma abstração descolada da realidade social. Sociedades são construídas mediante decisões políticas tomadas pelos indivíduos que a compõem. Não existe resposta fora da política. Programas públicos só ganham a universalidade e a escala necessárias por meio de ações políticas. As demandas da micropolítica só se convertem em lei mediante o processo legislativo, que é essencialmente político. Eliminar a política é, no limite, eliminar a democracia. É instaurar o governo da tecnocracia. Que também sabe ser corrupto, ineficaz e ineficiente. E age sem nenhum controle popular. Na ausência da democracia, só nos resta a ilusão tecnicista: o totalitarismo.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

O que mais falta para o país reagir ao golpe?

Cartaz do filme O dia que durou 21 anos,
dirigido por Camilo Tavares
O último golpe durou 21 anos. E seus efeitos perversos repercutem até hoje: uma herança implacável que acentuou a concentração de renda e da riqueza, naturalizou a violência policial, reforçou privilégios dos poderosos e ampliou as desigualdades sociais. O novo golpe tem 45 dias de duração, mas parece uma eternidade. São 45 dias sem democracia. São 45 dias de Estado de exceção. São 45 dias de brutalidade. São 45 dias de ataques a direitos sociais conquistados com luta, sangue, suor e lágrimas. Tudo às claras. As informação circulam sem nenhum segredo. O golpe está nu. Assim como seus conspiradores. Todos sabemos que é golpe. Os golpistas sabem. O mundo inteiro sabe. Até Michel Temer admitiu publicamente a existência de um golpe. Não cabem mais eufemismos. Golpe é golpe. Seus impactos negativos são reais. Imediatos. E já repercutem em todos nós. Políticas públicas de inclusão social e redistribuição de renda já estão sendo destruídas. O capital financeiro e as grandes corporações tomaram de assalto nossas instituições. Toda uma rede de proteção social, amparada e exigida pela Constituição Federal, cuja construção havia apenas começado a dar seus primeiros passos significativos, corre sério risco de ser mais uma vez interrompida. Se o golpe continuar impunemente, incontáveis gerações serão duramente impactadas por ele. De maneira irreversível. Os 21 anos do último golpe foram perdidos para sempre. Aos democratas de hoje, há uma única questão relevante no Brasil: o que mais falta para o país acordar, e reagir contra esse trágico golpe, antes que seja tarde demais? O Brasil já foi desperdiçado demais ao longo de sua história. Não temos mais o direito de perder sequer um dia a mais. Mas temos o dever inadiável de lutar todos os dias.

É lutar ou lutar

Foto: Renato Stockler
Temer, Cunha, Aécio, Serra, Renan, Sarney, Jucá e todos os homens do presidente interino soltos. Paulo Bernardo preso. A sede do PT em São Paulo e a casa da senadora Gleisi Hoffmann em Curitiba estão sendo devassadas pela Polícia Federal neste exato momento, enquanto Eduardo Cunha e Cláudia Cruz permanecem intactos. Assimetria. À medida em que se aproxima a votação do processo de impeachment, mais ataques direcionados aos quadros do PT acontecerão, tal como ocorreram às vésperas das eleições de 2014. O jogo ficará mais pesado a cada dia. Apesar de toda a desmoralização desse governo interino, exposta aos quatro ventos, o golpe está mais vivo do que nunca. Com a força implacável de todas as instâncias judiciais. A velha classe política, que transpira ilegitimidade e corrupção por todos os poros, em concerto com a grande imprensa e o judiciário, está de volta ao poder. E veio com a intenção de ficar. Descaradamente. Não será o STF, nem a PGR, muito menos o Congresso Nacional a barrar o golpe. Eles são o golpe. Institucionalizado. Só as ruas, e somente as ruas, poderão derrubar esse velho poder que se instaurou de forma criminosa, uma vez mais, nas entranhas do país. Se quisermos reverter o golpe e restaurar a democracia no Brasil, não há alternativa: é ocupar todas as ruas. Todos os espaços públicos. Dia e noite. Noite e dia. É lutar ou lutar.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Jair Bolsonaro: a personificação da cultura de estupro no Brasil

"Ela não merece porque ela é muito ruim, porque ela é muito feia. Não faz meu gênero. Jamais a estupraria", afirmou Jair Bolsonaro acerca da deputada federal Maria do Rosário. A frase fala por si. Mas há quem a interprete como uma declaração em repúdio ao estupro. As páginas nas redes sociais de grupos como Revoltados Online, Movimento Brasil Livre e Vem pra Rua Brasil estão publicando libelos a favor de Bolsonaro e invocando a técnica da interpretação de texto da língua portuguesa como forma de argumento em defesa do parlamentar. Ora, basta ler a frase com um mínimo de atenção para concluir que só há uma interpretação possível: se Maria do Rosário fosse "boa" e "bonita", na opinião de Bolsonaro, e fizesse o "gênero" dele, então ela mereceria ser estuprada. O estupro, portanto, estaria justificado caso ele considerasse a mulher em questão atraente. Ao contrário do que afirmou Rachel Sheherazade, em um vídeo em defesa a Jair Bolsonaro, é evidente que o termo "jamais" não foi utilizado porque Bolsonaro não a estupraria jamais, por uma questão de princípios éticos e morais, mas serviu apenas para dar ênfase aos atributos físicos de Maria do Rosário que, de acordo com a frase do parlamentar, jamais estariam à altura de ser estuprada por ele. A frase mostra claramente que a negação do estupro não se refere à figura do estupro em si, mas aos supostos atributos negativos de Maria do Rosário. Da frase de Bolsonaro, conclui-se, portanto que, na opinião do deputado, há dois tipos de mulheres: as "merecedoras" e as "não merecedoras" de estupro. As primeiras, seriam as que ele, Bolsonaro, considerasse bonitas e atraentes. As segundas, as não merecedoras, seriam as "feias", ou seja, aquelas sem os atributos físicos que "justificassem" um estupro. E, finalmente, o tom da frase e o emprego da palavra "merece" dá a entender que Bolsonaro julga que ser estuprada por ele é algo como um mérito para uma mulher, um benefício, algo a ser merecido. Uma questão meritocrática. Como se tratasse de um favor que ele estaria fazendo às mulheres. Não há dúvidas de que a frase de Bolsonaro é uma apologia explícita e criminosa ao estupro. Um exemplo repulsivo da cultura de estupro no Brasil, mas que tantos ainda insistem em negá-la. Uma democracia não pode tolerar parlamentares que fazem apologia à tortura, à ditadura, à homofobia e ao estupro.

terça-feira, 21 de junho de 2016

Arnaldo Jabor: uma aberração midiática

Arnaldo Jabor
Não, Arnaldo Jabor, ao contrário do que o senhor afirma, há sim fichas limpas no Brasil. Uma delas se chama Dilma Rousseff. O senhor não enxerga isso porque foi lobotomizado pelo grande capital e tudo que restou de seu cérebro foi ressentimento difuso, lógica confusa e um ódio obsessivo de classe. Um homem que com o passar do tempo reduziu-se a mero porta-voz do cinismo economicista e neoliberal. Um autêntico (de)formador de opinião. E se ainda "somos miseráveis, cercados de miseráveis por todos os lados", como diz seu texto em O Globo, é porque miseráveis morais, iguais ao senhor, existem aos milhares, e vivem de perpetuar nossas misérias.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Uma imprensa livre para manipular

O papel da grande imprensa brasileira não é informar. É instaurar medo e pânico na população. Especificamente em duas áreas: economia e segurança pública. Para tirar proveito desse medo, vende duas soluções: o mínimo de intervenção econômica e o máximo de repressão policial. O cidadão médio, sempre preocupado com suas posses, suas propriedades e sua integridade física, supostamente ameaçadas a todo instante, compra obedientemente o pacote. Seu sonho de consumo: menos impostos e mais cadeias. De preferência, penitenciárias privatizadas. A imprensa mantém seus lucros. Deforma opiniões. Os cidadãos alimentam seus medos. Enganam suas esperanças. E o sistema é retroalimentado. Quanto à posição política, a grande imprensa gravita entre oposição e situação, conforme o programa de governo em exercício. É capaz de tolerar qualquer atrocidade política e antidemocrática, é conivente com corrupção, violações de direitos humanos, aberrações jurídicas, ditaduras e golpes de Estado, desde que os governos usurpadores adotem políticas pró-negócios, seja benevolente com as grandes fortunas, seja parceiro do capital financeiro e das grandes corporações, mas deixe o restante da população, trabalhadores, mulheres, LGBT, negros, pobres, indígenas, idosos, sem-teto, menores carentes, portadores de deficiência etc., todos abandonados à própria sorte. E vice-versa. É assim que funciona a imprensa "livre" no Brasil. Livre para manipular.

sábado, 18 de junho de 2016

Não há imprensa livre no Brasil

Glenn Greenwald, Monique Figueira e David Miranda
OcupaMinc RJ/ Foto Isabela Kassow
O destaque do jornal O Globo de hoje é o corte de 11 milhões de reais do governo Temer em publicidade a blogs políticos. A cifra é irrelevante em termos de orçamento da União e contabilidade pública. A decisão não tem nada a ver com corte de gastos, mas se trata apenas de retaliação por serem blogs com um viés ideológico contrário aos interesses corporativos que este governo interino representa. Trata-se do mesmo critério utilizado para fechar a TV Brasil. Medo da pluralidade de opiniões. Estratégia de controle da informação e disseminação do pensamento único, via fortalecimento da imprensa corporativa. Enquanto ninharias administrativas são louvadas nas manchetes dos jornais, Temer continua afogado em escândalos. Assim como Renan, Jucá, Sarney, Cunha, Serra e Aécio. E praticamente todo o ministério de Temer. O ministro da Educação Mendonça Filho, por exemplo, acusado de receber propina, está a um passo de cair. E o destaque do jornal é a atuação "corajosa" de Temer no corte de gastos irrisórios. Corajoso seria cortar verba de publicidade junto às grandes corporações da mídia, que são cartéis institucionalizados. Ousado mesmo seria regulamentar um setor que cresceu de forma concentrada e ilegal, sob o guarda-chuva de conchavos e privilégios firmados à época da ditadura militar. Temer, além de ser um Robin Hood às avessas, que retira dos pobres para distribuir aos ricos, é também um Davi invertido. Em vez de derrubar os gigantescos conglomerados para tornar o mercado mais competitivo e eficiente, utiliza o poderio do Estado para esmagar os pequenos e aumentar a concentração do capital. Austeridade para desfavorecidos e prodigalidade aos plutocratas. Capitalismo selvagem para pequenos negócios. Precarização para a classe trabalhadora. Favorecimentos e subsídios para grandes corporações. Juros máximos e tributação mínima para o capital financeiro. E as organizações Globo, em conluio com o restante da grande mídia, fazem o papel de dar legitimidade a um governo espúrio, mediante uma narrativa embaraçosamente mentirosa. E interessada. As grandes corporações da mídia são parte da infraestrutura (economia) e da superestrutura (ideologia). Talvez seja o setor em que ambas as características, infraestrutura e superestrutura, estejam mais claramente presentes. Portanto, além de ser um negócio como outro qualquer, que depende de vendas e lucro, é também parte interessada no que publica. Mas possuem o álibi da objetividade e da neutralidade jornalística, o que mascara, como em nenhum outro setor, o fato de serem agentes autorizados para falar dos próprios interesses. Imagine se a indústria do tabaco fosse o agente autorizado para formar opinião sobre os efeitos do vício de fumar? É o que acontece de forma ainda mais acentuada no Brasil, cuja mídia corporativa é controlada por apenas cinco famílias. Um exemplo clássico de oligopólio. E de manipulação. Em resumo, não temos imprensa livre no Brasil.

terça-feira, 14 de junho de 2016

O sono profundo do STF

Ministro do STF Gilmar Mendes 
As investigações contra Eduardo Cunha estavam engavetadas no STF desde 2006. Se o Ministério Público da Suíça não tivesse descoberto irregularidades nas movimentações financeiras de Cunha e enviado ao Brasil processo criminal por suspeita de corrupção e lavagem de dinheiro, esse canalha estaria andando por aí tranquilamente até agora. O mais grave é que neste exato momento, em que rasgar a Constituição Federal se tornou esporte nacional, o STF submerge em sono profundo. O suposto guardião da CF deixa passar o boi. E a boiada. Então, justiça seja feita: a verdade decepcionante é que o STF é uma grande mentira.

domingo, 12 de junho de 2016

Seremos todos colaboracionistas?

Vichy - Encontro de Petain com Hitler em 1940
Não é possível que o governo ilegítimo e golpista de Michel Temer já tenha completado um mês. E passado incólume. Há muita mobilização nas ruas, mas todas dispersas e esparsas. Muitas delas mais se assemelham a uma festividade, uma confraternização inofensiva, do que um movimento avassalador de resistência e (re)existência diante de um golpe de Estado. Não é possível que isso é o máximo que podemos fazer para defender o país de um golpe que deixou o mundo inteiro perplexo, exceto nós brasileiros. Por muito menos, lutamos muito mais. Um jogo de futebol, uma desavença no trânsito, um troco errado, um serviço mal feito, um produto defeituoso. Esbravejamos diante das ninharias do cotidiano, mas somos inertes para defender a democracia do nosso país. O governo Temer, que no limite é o governo de Eduardo Cunha, juntamente com seu ministério entreguista e sociocida de ladrões; a quadrilha de políticos que lidera o golpe no Congresso Nacional; os respeitáveis seguidores de Pilatos do STF; essa imprensa cínica e hipócrita que eleva Temer à qualidade de "guerreiro" e "unificador" do país; os empresários rentistas mais preocupados com suas aplicações financeiras e com o câmbio favorável para suas viagens de turismo predatório; a classe média alienada e estúpida que se deixa usar e abusar apenas para se sentir parte de uma classe "distinta" de seres supostamente superiores e merecedores dos privilégios históricos que, de tão arraigados, já estão naturalizados; todos os elementos desse conjunto intraduzível em uma única expressão permanecerão esbofeteando diariamente a nossa cara, pisando e cuspindo nela, gritando aos quatro ventos toda a ilegitimidade que transborda de suas entranhas, mediante uso de violência material e simbólica, com escárnio e tranquilidade cotidianas, inumanas, que só a total ausência do direito, da ética, da empatia e da solidariedade humana pode assegurar, enquanto assistimos a tudo isso quase que passivamente? O fato é que o golpe, além de já ter sido dado, está passando. E, se continuarmos letárgicos e festivos, passará. Escrevo diariamente e sinto-me impotente. Inofensivo. Triste. Deprimido. Envergonhado. Um dia a mais deste governo Temer e vou começar a achar que somos todos coniventes com esse ataque explícito à nossa democracia. Um dia a mais e já estaremos todos anestesiados e ocupados com nossa épica vida pessoal. Um dia a mais e estarei convencido de que somos colaboracionistas do golpe.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

A história não blinda ninguém

Michel Temer e Eduardo Cunha
Não se trata aqui de defender Delcídio do Amaral. Mas o que chama atenção é o fato de Delcídio ter sido preso sumária e imediatamente por fatos muito menos contundentes do que os que implicaram Renan, Sarney, Jucá e, sobretudo, Cunha. Sem mencionar Aécio Neves, cujo esquema todo mundo conhece. Membros do PT são sempre mais culpados, ainda que seus crimes sejam menos graves. Ou mesmo quando não há crime que os incrimine, são tratados como criminosos, a priori. Basta a suposição de culpa para que haja encarceramento iminente. Por outro lado, o restante do universo político é inocente até que se prove, mil vezes, o contrário. E ainda assim, não há garantias de punição, mesmo quando todos os indícios se confirmam a posteriori. Tal diferença de tratamento se verifica tanto nas instituições públicas, como o STF e o MPF, quanto nas instituições privadas, como o cartel das empresas que compõem a imprensa corporativa. Os exemplos são incontáveis. Gilmar se indignou com os vazamentos. Interessante que os vazamentos anteriores nunca o incomodaram. Agora se tornaram ofensa pessoal. Os jornais e revistas, por sua vez, fulminaram Delcídio em suas capas por várias semanas consecutivas. E agora, a despeito de todas as revelações que implicam a quadrilha de Cunha e Temer, as capas da grande imprensa são sempre dedicadas aos supostos "escândalos" envolvendo a presidente Dilma Rousseff. Até as despesas com o cabeleiro contratado no período em que Dilma estava sofrendo os efeitos colaterais do tratamento de um câncer se tornaram a mais nova obsessão do 'rato de redação' Merval Pereira. A narrativa é tão surreal que, mesmo depois de as gravações indicarem claramente que 'Temer é Cunha', ou seja, que ambos estão implicados no mesmo projeto criminoso e golpista, os jornais chegaram ao cúmulo de louvar a "imparcialidade" de Temer diante das acusações do ex-presidente da Câmara. Segundo os jornalões  e revistinhas, Temer agiu "corajosamente" ao afirmar que não intervirá no processo de cassação de Cunha. Ora, não seria a 'não intervenção' uma obrigação de qualquer presidente, interino ou não? Qual seria o valor da afirmação de Temer? Nenhum. Até porque sabemos que é apenas uma declaração vazia e protocolar, sem nenhum conteúdo valorativo, em um momento em que todos os golpistas estão nus. Trata-se de mais um insulto a nossa inteligência coletiva. Nesse triste momento em que vive o país, em que a democracia e o povo brasileiro estão sob ataque letal, a seletividade e a blindagem institucionais têm sido a regra. De Moro a Merval. De Janot a Noblat. De Gilmar a Bonner. Há um conjunto de ações difusas, mas convergentes, lideradas por criminosos e oportunistas que se amparam mutuamente por dispositivos de blindagem e proteção recíprocas, cujo único objetivo é destruir todas as bases de um governo eleito democraticamente e dar passagem aos interesses do capital financeiro e das grandes corporações. Mas como já se afirmou por aí, a história não blinda ninguém. Os golpistas da República serão cuidadosamente selecionados, lembrados e expostos pela história. Narrados em prosa e verso. O golpe de Estado de 2016, com seus protagonistas e coadjuvantes, jamais será esquecido.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Democracia brasileira: uma conquista com sangue, suor e lágrimas

Foto Wilson Avelar

Interessante ver tantas pessoas no Brasil que se beneficiam do fato de viverem em uma democracia, mas que não fazem nada para defendê-la, como se ela fosse um dado da natureza, igual a chuva que chove, ou uma certeza matemática, como 2+2 são 4, e não uma construção social, uma conquista política, erigida com muito esforço, sangue, suor e lágrimas.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

É hora de os golpistas devolverem o Brasil ao Brasil

Foto Mídia Ninja
Já está mais do que na hora de os golpistas serem sinceros consigo mesmos ao menos uma vez na vida. É difícil ser golpista e sincero ao mesmo tempo. Quase uma contradição em termos. Mas não há mais como disfarçar. O véu da hipocrisia caiu. O complô foi desmascarado. É hora de assumir que o golpe simplesmente não deu certo. E bater em retirada. Nem a grande imprensa está conseguindo salvar a farsa. Os golpistas estão todos nus. E a visão da nudez do golpe é aterrorizante. O vampiro interino não possui carisma e competência sequer para liderar um piquenique de aspirantes a escoteiros no Parque da Cidade numa tarde de domingo ensolarado. Todos os homens brancos do presidente estão implicados em algum tipo de crime. O quadro técnico parece extraído de alguma seita devota ao sadismo social e ao suicídio econômico. Alheios. Um grupo alienado e perverso dotado de poderes para destruir um país. As medidas truculentas e tecnocráticas anunciadas são absurdas, todas desgraçadamente infelizes. Se não interrompidas a tempo, conduzirão o país a um retrocesso inigualável na história política do Brasil. Os movimentos populares mobilizados contra o governo ilegítimo de Michel Temer não param de crescer. Não há base política, social e jurídica para que essa ação explicitamente mafiosa e criminosa continue. A gangue do golpe se autodestruiu. É hora assumir erros. Confessar crimes. Enterrar biografias. E assumir a verdade nua e crua: golpistas serão sempre golpistas. E nada mais. Ao Senado, para que seja restituída um mínimo de dignidade ao Congresso Nacional, só resta reconduzir a presidenta eleita Dilma Rousseff ao cargo que sempre lhe pertenceu: a Presidência da República. E devolver o Brasil ao Brasil.

sábado, 4 de junho de 2016

A empulhação neoliberal

Ronald Reagan e Margaret Thatcher
O neoliberalismo só acumula fracassos. Beneficia apenas um pequeno percentual de privilegiados. O chamado 1% do topo da pirâmide econômica. Jornalistas e economistas ortodoxos ainda mantêm seus discursos neoliberais apenas para beneficiar os setores que os patrocinam e lhes conferem reputação no bem remunerado mercado das ideologias econômicas. Sobretudo o capital financeiro, que patrocina universidade e 'think tanks', financia pesquisas acadêmicas e compra literalmente jornalistas (de)formadores de opinião. Nada corrobora as teses defendidas por esses funcionários de luxo da ortodoxia neoliberal. Nem a coerência interna de suas teorias, nem as provas empíricas. Trata-se de má-fé. Desonestidade intelectual. Empulhação. Austeridade é uma perversidade. Só traz malefícios. Impõe sacrifícios desnecessários à população, sobretudo às classes mais desfavorecidas. Inibe a atividade econômica. Contribui para recessões e crises sistêmicas. Acentua a concentração da renda e da riqueza. Torna os pobres mais pobres. Os ricos mais ricos. O mundo cada vez mais miserável. E todos sabemos. Até o FMI.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

A grande imprensa e a revolução copernicana do conhecimento

Nicolau Copérnico (Jan Matejkos)
Conhecimento, na definição clássica, significa crença verdadeira justificada. Contra-exemplos de Gettier à parte, para que algo seja considerado conhecimento deve satisfazer as três condições simultaneamente. É preciso acreditar em algo que seja verdadeiro, e ter boas razões para crê-lo. Se acreditasse que ganharia na Mega Sena, apostasse e, de fato, ganhasse, não poderia afirmar que possuía conhecimento acerca do resultado. Neste exemplo, trata-se apenas de uma crença injustificada que se mostrou verdadeira por conta do acaso. Da sorte. No jornalismo brasileiro, salvo raras exceções que confirmam a regra, os novos sofistas da grande mídia, utilizando o termo 'sofista' em seu sentido pejorativo, subverteram o significado de conhecimento. Para além de Kant, promoveram um outro tipo de revolução copernicana na Teoria do Conhecimento. O que alegam saber, e vendem como se conhecimento fosse, são falsidades injustificadas inacreditáveis. Não acreditam no que falam, tão óbvias as falsidades que relatam. Tampouco justificam aquilo que publicam ou falam, pois não há justificativas factuais para suas teses. Mas seria injusto afirmar que não possuem nenhum conhecimento. Como bons hipócritas, sabem que divulgam falsidades. Por saberem que são falsidades, também não acreditam nelas. E, finalmente, sabem que não possuem justificativas ou boas razões que sustentem suas versões manipuladas dos fatos. De fato, uma "verdadeira" revolução epistemológica.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

A hipocrisia dos golpistas ou o golpe dos hipócritas

A força da hipocrisia reside no discurso moralizante associado à dissimulação. Nem todos que discursam pela moral são hipócritas. Mas todos os hipócritas discursam pela moral. Hipócritas sabem que são hipócritas. E sabem que são imorais. E sabem que são dissimulados. O golpe em curso é o golpe da hipocrisia. E a hipocrisia dos golpistas se traduz na dissimulação de se negar o golpe. E de afirmar a moral, enquanto se age imoralmente. E negar a imoralidade, enquanto se é imoral. É fato que nem todos os hipócritas são golpistas. Há hipócritas de todas as vertentes. Mas todos os golpistas são hipócritas. Assim como todos os golpistas sabem que são hipócritas. Não há exceções. Todos discursam pela moral. Sabem que são imorais. Agem dissimuladamente. E sabem que são golpistas. 

A queda de Temer não pode esperar

O governo interino do usurpador, vampiro, abutre, conspirador, traidor, entreguista, machista, fascista Michel Temer está sacrificando programas sociais para garantir a transferência de recursos públicos a magistrados, procuradores, congressistas e funcionários públicos do alto escalão, além de direcionar sua política (des)econômica para beneficiar o capital financeiro e as grandes corporações, sobretudo os conglomerados estrangeiros. É uma transferência invertida de renda, em que recursos públicos, antes voltados para a população de baixa renda, fluem para garantir a lucratividade de negócios privados e a alta remuneração da burocracia tecnocrática do país, sem nenhuma contrapartida para o restante da sociedade. A ponte para o futuro está levando o Brasil diretamente para os anos 1980/1990, quando o dogma neoliberal fazia estrago mundo afora, disfarçado de ciência econômica. Um retrocesso inadmissível. É preciso interromper essa interrupção arbitrária, ocorrida sem nenhum respaldo democrático. Interrupção de um país cuja construção é sempre interrompida. O Brasil já sofreu o bastante ao longo de sua história. E o bastante já basta. Basta de retrocesso. Não há mais tempo a perder. As mobilizações não podem parar. Só as ruas serão capazes de derrubar esses homens que ocuparam brutalmente o país, sem nenhuma legitimidade, apenas para atender a seus interesses mais mesquinhos. Para que o Brasil siga em pé, Temer há de cair. 

quarta-feira, 1 de junho de 2016

A didática do golpe para crianças maduras e adultos infantis

Uma tarde de junho. Ano de 2016. Brasil. Um grupo de crianças joga futebol de salão em um condomínio fechado na cidade do Rio de Janeiro. Céu nublado. Sem chuva. 

MIGUELZINHO — É pênalti!
LUIZINHO —  Como assim? Mas eu nem te encostei... Você caiu sozinho!
MIGUELZINHO — Não interessa. Dá a bola aqui. Vou cobrar o pênalti. 
LUIZINHO — Isso não é justo. Nem foi falta! Não vou dar a bola coisa nenhuma!
MIGUELZINHO — A bola é minha. Eu que mando aqui! Se você não der a bola pra eu bater o pênalti, acabou o jogo.
LUIZINHO — Só porque você é o dono da bola não tem direito de fazer isso. Futebol tem regras! 
MIGUELZINHO — Isso mesmo, o pênalti tá na regra do futebol. Então eu tenho direito de marcar pênalti a hora que eu quiser! Votação. Quem acha que foi pênalti levanta a mão! 
TIME DO MIGUELZINHO (coro difuso)  Votamos sim! Sim, pela minha vitória! Pela minha medalha! Pelo meu pai que comprou a camisa do time! Pela minha mãe que vai servir sanduíche pra todo mundo! Pela minha avó que tá ali vendo o jogo! Pelo meu divertimento! Pela minha alegria! 
MIGUELZINHO — Viu? Resolvido. Votado. Democraticamente. É pênalti.
LUIZINHO — Mas essa votação não é justa! O seu time tem jogador a mais... O nosso nunca vai ganhar numa votação. 
MIGUELZINHO — O que interessa é que a votação foi transparente. Todo mundo que concordava com o pênalti levantou a mão! E disse suas razões. É pênalti e ponto final. Dá a bola aqui.
LUIZINHO — Tá bom! Toma essa bola... tudo bem! Nosso goleiro vai defender... 
MIGUELZINHO — Deixa que eu bato time! Pode deixar comigo... 
LUIZINHO — Pra fora!!! Bem feito... eu sabia que você ia perder!!!! 
MIGUELZINHO — Não, não, não. O goleiro mexeu antes. Não valeu. Vou repetir.
GOLEIRO — Mas eu fiquei parado! Assim não tem graça... Que roubalheira! 
MIGUELZINHO — Vocês que tão de camiseta vermelha é que são ladrões! Nossa camisa é amarela! Igual do Brasil. Oficial da CBF! 
GOLEIRO — Ladrão! Eu fiquei parado! Você isolou a bola por cima do travessão...
MIGUELZINHO — Não me xinga de ladrão não... cuidado... meu pai é delegado! E aqui o juiz sou eu. Vou bater de novo. Dá minha bola aqui!
LUIZINHO — Minha mãe é professora de direito e me ensinou que nenhum juiz pode "julgar em causa própria". Não tinha entendido na hora, mas agora ficou claro. É o que você tá fazendo aqui. 
MIGUELZINHO — Sua mãe é mulher! E mulher não sabe nada. Não viu que o novo presidente só chamou ministro homem. Sabe o que é ministro? É quem sabe das coisas! Dá essa bola aqui.
LUIZINHO — Defendeu o goleiro!!!!!!!! Perdeu! Perdeu! Perdeu!
MIGUELZINHO — Perdi nada... o goleiro tava atrás da linha do gol! Eu vi! Não é, time? Ele defendeu depois da linha... E se a bola passar da linha já era! É GOOOOOOOOOOOOOOOL!!!