sábado, 28 de maio de 2016

Dilma cresce, Temer desaparece

Enquanto Dilma sobe, Temer não tem mais para onde cair. De acordo com o Ibope, a aprovação da presidenta Dilma Rousseff passou de 18% para 33%. Os dados, portanto, mostram que a popularidade de Dilma subiu 83% nas últimas semanas. Se a tendência continuar, em breve a credibilidade de Dilma junto à opinião pública estará ainda mais fortalecida. Desnecessário dizer que os jornalões praticamente não noticiaram o fato. Salvo pelo fato de que, quando o fizeram, cometeram um erro de cálculo acerca de um conteúdo básico, que se aprende no ensino fundamental: confundir aumento percentual com variação de pontos percentuais. Logo, quando dizem que a avaliação da presidente Dilma cresceu 15%, cometem erro primário. Houve variação de 15 pontos percentuais. Mas o aumento percentual da aprovação foi de 83%. Praticamente dobrou. Por sua vez, o interino Michel Temer, se fosse candidato a eleições, teria a preferência de apenas 1% dos votos. Faz sentido. Trata-se, justamente, dessa elite golpista que ocupa o 1% mais rico da pirâmide. Cada governo tem o eleitorado que merece.

O significado da expressão "soft coup" ou "golpe suave"

Quando analistas estrangeiros como Noam Chomsky, e até mesmo o Papa Francisco, utilizam a expressão "soft coup" para descrever o golpe de Estado em curso no Brasil, não se quer dizer com isso que se trata de golpe "suave" ou "brando", no sentido de uma possível gradação. Afinal, não existe um país que esteja sendo ligeiramente golpeado. Golpe é golpe. Ou ocorre ou não ocorre. E é sempre violento. A expressão, tal como usada no jargão da ciência política, não possui valor de intensidade, mas de modo. Significa apenas que é um golpe conflagrado sem a ocorrência de confronto armado ou de uma ocupação militar. Logo, na visão dos observadores externos, não se trata de um golpe de menor gravidade. Mas de um golpe cuja execução se deu por meios jurídicos e institucionais. Em outras palavras, trata-se de um golpe executado mediante a conivência de uma estrutura jurídico-legal corrompida, parcial e destituída de sua função primordial, qual seja, a de garantir a segurança e a continuidade do Estado democrático de direito.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Temer, Bush & Deus

Federico Fellini (1955)
Será Michel Temer o novo George W. Bush?
Vejamos. Bush, quando assumiu a presidência, afirmou: "Eu acredito que Deus quis que eu fosse presidente". Depois, quando invadiu o Iraque, justificou: "Deus me disse para invadir o Iraque".
Temer, por sua vez, não deixou barato. Invocou Deus e fez do golpe uma missão quase religiosa: "Se eu ficar presidente durante um período, eu quero cumprir uma missão. Se me permitem, acho que Deus colocou na minha frente, para que eu cumpra essa missão, ou agora num breve período, ou em dois anos e meio, para que eu ajude a tirar o país da crise".

A julgar pelas atrocidades dos primeiros dias de mandato, podemos esperar que a tecnocracia-teocrática de exceção de Temer tenha semelhanças com a de Bush. Ambos elegeram o deus-mercado como solução. Cercaram-se de homens fortes do mercado financeiro. Demonizaram as políticas sociais. Apostaram na truculência.
E, em certa medida, uniram dominantes e dominados em torno de um amplo ideal: tornar os ricos mais ricos, os pobres mais pobres e os corruptos blindados mais blindados. Tudo às custas do povo. Em defesa da democracia. E em nome de Deus. Pobre Deus. Pobre democracia. Pobre de nós. Cruz-credo. Como sempre diz meu querido amigo Sérgio Mattos: oremos!

O STF pasmado e o golpe nu

O Rei Pasmado e a Rainha Nua (1991)
Nos idos dos anos 1990 assisti a um filme espanhol chamado O rei pasmado e a rainha nua. Não me lembro muito dos detalhes do filme. Nem sei se achei bom ou ruim. Se não me falha a memória tinha uma estética parecida com o Carlota Joaquina, da Carla Camurati. Tudo muito exagerado. Farsesco. Algumas passagens engraçadas. Pensando bem acho que nem gostei tanto do filme. Mas o nome ficou na minha cabeça. E hoje, ao ler os jornais, as notícias me fizeram lembrar do título do filme. Alterando os sujeitos, chega-se a seguinte expressão: o STF pasmado e o golpe nu. É o que estamos a testemunhar. Vestidos, talvez alguns nus, mas todos pasmos com a pasmaceira do STF. Ou quase todos. Sempre há os cínicos céticos. E os céticos cínicos. Acho que vou rever o filme.

O que mais o golpe precisa ser para ser golpe?

Se o golpe é tão explicito a ponto de os envolvidos falarem abertamente sobre ele, como ficou demonstrado nas gravações recém divulgadas, e ainda assim há tantos que insistem não existir golpe nenhum, fico imaginando, em minhas reflexões, o que mais precisaria ser para ser golpe? Essa pergunta ingênua obviamente não tem resposta. Golpistas, diretos e indiretos, articuladores e executores, e apoiadores do golpe em geral, seja em razão de ignorância, má-fé ou de interesses escusos, jamais assumem que um golpe é golpe. Incrível como a história se repete. Dessa vez como tragédia farsesca. Em 1964, os jornalões também não admitiram o golpe militar. Para se ter uma clara ideia, em 2 de abril de 1964 o editorial de O Globo chegou a comemorar o golpe: "Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares que os protegeram de seus inimigos". De acordo com o Palmério Dória e Mylton Severiano, que pesquisaram as manchetes na época do golpe, "a instauração da ditadura militar era recebida assim: 'Democratas dominam toda a nação' (O Estado de S. Paulo); 'Multidões em júbilo na praça da Liberdade' (O Estado de Minas); 'Lacerda anuncia volta do país à democracia' (Correio da Manhã)". A história depois corrige as distorções do calor da hora. Mas o tempo, que tudo destrói, dilui as responsabilidades. Até o ponto de dissolvê-las completamente. Vidas são perdidas, destruídas, aniquiladas. No futuro, chegam as nota de desculpas insinceras. Sempre atrasadas. Mas quem se importa. O tempo é outro. O que passou, passou. Basta um simples ato de hipocrisia protocolar para tudo seguir seu curso normal, como se nada tivesse acontecido. As organizações Globo, por exemplo, levaram 50 anos para admitir que x é igual a x. Ou seja, que o golpe de 1964 foi um golpe. Entre paneleiros, essa gente séria que se leva a sério, há os que viverão até o final de suas vidas convictos de que não houve golpe. Tudo foi culpa do PT, dos "comunistas", dos "bolivarianos", dos "esquerdopatas". E do Lula. O auto-engano é um sistema de vida.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Meditações metafísicas em tempos de golpe de Estado

René Descartes (1596-1650)
“Suporei, pois, que há não um verdadeiro Deus, que é a soberana fonte da verdade, mas certo gênio maligno, não menos ardiloso e enganador do que poderoso, que empregou toda a sua indústria em enganar-me." (René Descartes)

Será que algum um gênio maligno está me pregando peças sobre o que está acontecendo com o Brasil nesses últimos dias? Ou será tudo isso um grande pesadelo do qual não consigo acordar? Ou será talvez que estou em meio a algum acesso de loucura, que me levou ao delírio, e estou testemunhando as maiores barbaridades da história do país devido a algum tipo de alucinação? E essas pessoas, Temer, Cunha, Renan, Serra, Gilmar, Meirelles, Jucá, Alexandre Frota, a horda de ministros investigados, e demais entes associados a esse tenebroso governo interino? Essa gente existe mesmo? São seres humanos? Se existem, então formam um único e bizarro objeto composto, uma espécie de entidade golpista coletiva? E as medidas anunciadas nos últimos dias pelo governo Temer são de verdade? As gravações desmascarando um golpe de Estado, sem que nenhuma instância do judiciário tome alguma providência, são reais? Está tudo às claras, o golpe está nu, e tudo continua seguindo seu curso normal, com a conivência das instituições públicas e privadas, e dos setores médios da população? A grande imprensa continua apoiando um golpe de Estado, e colaborando com ele, impunemente? E quase ninguém reage? É isso mesmo, ou estou à beira de um colapso mental? Se alguém mais estiver se sentindo assim, dessa maneira angustiante, oscilando entre o terror, o temor e o tremor, por favor me avise. Estou no limite de acreditar que há algo de muito errado com as minhas impressões, com minhas ideias ou com a minha razão. Ou com todas elas juntas. Sei que caso alguém se solidarize comigo, ainda assim não terei garantias de que não se trata de uma peripécia de algum gênio maligno, ou de um pesadelo sem fim, ou de uma alucinação insuportável. Não tenho a ilusão de desvendar o mistério. Jamais saberei. Mas se souber que alguém, além de mim, também está vivenciando esses tempos com um estado estado de espírito semelhante ao meu, isso já será reconfortante. No mínimo, meus devaneios serão menos solitários.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

E agora STF?

Se as gravações da conversa entre Romero Jucá e um investigado na Lava Jato estavam desde março nas mãos do ministro Teori Zavascki, por que o STF nada se fez perante um processo de impeachment notadamente de fachada, cujo único propósito era o de servir a um golpe de Estado? Sem mencionar o afastamento de Cunha, cuja lentidão injustificada, também do STF, beneficiou o andamento de uma das maiores farsas da política brasileira, qual seja a votação do impeachment na Câmara. Ao fim e ao cabo, não é a presidenta Dilma Rousseff quem deve explicações ao STF. Ao contrário, é o STF quem deve explicações a ela. E ao povo brasileiro. 

Hora de dar um golpe definitivo no golpe

A grande imprensa quer dar a entender que Romero Jucá é um caso isolado perdido em meio a um novo governo supostamente sério, eficaz e eficiente. Para os jornalões, basta p seu afastamento e tudo estará resolvido. Vida que segue, como se nada de relevante houvesse ocorrido. Pois é. Estamos diante de mais um exemplo explícito de manipulação grosseira e de insulto à nossa inteligência coletiva. Não se trata simplesmente de um ministro que cometeu uma improbidade qualquer. Trata-se da confirmação do planejamento da execução de um golpe de Estado, com o intuito de impedir a continuidade das investigações da Lava-Jato e de usurpar o cargo de uma Presidente eleita democraticamente. Todos que trabalharam pelo impeachment na linha de frente, e seus respectivos partidos, estão implicados no golpe. Inclusive o presidente interino Michel Temer. Nunca houve sustentação possível para esse governo ilegítimo e golpista. Mas agora, mais do que nunca, a trama do golpe ficou evidente. Nada como um golpista para explicar como funciona um golpe. Romero Jucá prestou um serviço pedagógico à nação. Não há mais sustentação ética, jurídica, nem política para sequer um dia de permanência deste governo interino no poder. Temer conspirou contra o governo. Usurpou o Estado. Abusou do Direito. E traiu a democracia. O único desfecho possível é a renúncia sumária de Michel Temer e a recondução imediata de Dilma Rousseff ao cargo que lhe pertence, de fato e de direito: a Presidência da República.

sábado, 21 de maio de 2016

Pelo fim da tecnocracia teocrática de exceção

Morro do Turano - Foto Isabela Kassow
Temer em tão pouco tempo praticamente destruiu o Brasil. E pelo visto só vai descansar quando o houver destruído completamente. Falta pouco. O país rapidamente se transformou em uma tecnocracia teocrática de exceção. Ou em teocracia tecnocrática de exceção. A ordem dos fatores não altera o resultado: o assassinato da democracia e o surgimento de um Estado sem direitos. Um Estado de exceção. O Deus mercado e o Deus da intolerância se uniram em favor da interrupção do país. Um país cuja construção é sempre interrompida pelas forças conservadores de sempre. Em pouco tempo a violência tecnocrática já mostrou toda a sua fúria contra as políticas de inclusão social e distribuição de renda. E o pior ainda está por vir. Ficaremos assistindo a tudo passivamente e letárgicos? O Brasil está sendo suicidado por um quase morto. E por toda essa gente que odeia a vida. Deixemos a morbidez para o vampiro e seus mortos vivos de plantão. A vida impõe a luta pela vida. Vamos todos pra luta! Todo dia. Toda hora. Na cidade. No campo. Na casa. Na rua. Em qualquer lugar. Sem data para acabar. Enquanto a farsa de Temer não cair. Lutar sem parar. ‪#‎ForaTemer‬ ‪#‎VoltaDilma‬ ‪#‎OcupaBrasil‬ ‪#‎DitaduraNuncaMais‬ ‪#‎DemocraciaJá‬

sexta-feira, 20 de maio de 2016

A história do mundo é a história da opressão

Marx escreveu que a história do mundo é a história da luta de classes. Mas me parece que as lutas têm sido uma exceção histórica. A regra não é a luta, mas a opressão unilateral. Desigual. Brutal. Até o limite do esgotamento das forças oprimidas. Para lutar é preciso de um mínimo vital. O papel dos opressores têm sido o de esvaziar os dominados até o ponto da quase total falta de recursos. Materiais, físicos, mentais e emocionais. E assim a caminha a dominação. Eficaz e eficientemente.

Pedro Parente: o retorno dos mortos vivos

Em governo de vampiro, o retorno de mortos vivos será frequente O obscuro ministro do apagão dos anos FHC, Pedro Parente,  acaba de ser nomeado presidente da Petrobras. Respondendo a duas ações de reparação de danos por improbidade administrativa autorizadas pelo STF, Parente será o mais novo homem do presidente. O governo interino de Temer não deixará pedra sobre pedra. Os sobreviventes, se houver, viverão sobre escombros escuros.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

A cultura só respira em tempos de democracia

Meninas jongueiras do grupo Afro Jongo Renascer
Foto Isabela Kassow / Mapa de Cultura
Os movimentos que pedem a volta do Ministério da Cultura são legítimos e merecem todo o apoio. Mas ainda que o MinC não fosse extinto, esse governo interino, que será golpista até o fim da eternidade, sufocaria todas as políticas culturais relevantes. Certamente adotaria o critério da eficiência mercadológica para nortear suas políticas anticulturais. De todo modo, as iniciativas de ocupação pela cultura devem continuar. A luta pela cultura é um compromisso inadiável de cidadania. Porém, é preciso reivindicar, concomitantemente, e com todas as forças, a volta da democracia. E o fim do Estado de exceção a que todos nós fomos submetidos. Da noite para o dia. Mesmo que o governo Temer ceda às pressões, e considere a reabertura do MinC, ainda assim a cultura estaria seriamente ameaçada. Seria apenas mais um factoide sem nenhum efeito prático, assim como foi o afastamento de Eduardo Cunha. De nada adianta uma volta do MinC em um ambiente institucional antidemocrático, opressivo e avesso à cultura. Um MinC sem democracia seria inócuo. A cultura só respira em tempos de democracia. Somente com a democracia restabelecida é que a cultura será novamente valorizada e fortalecida. E o MinC, verdadeiramente, renascerá. 

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Macartismo versão brasileira

Joseph McCarthy, 1954
Reinaldo Azevedo escreveu recentemente em seu blog: "assim que 'Aquarius' estrear no Brasil, o dever das pessoas de bem é boicotá-lo. Que os esquerdistas garantam a bilheteria". Quando alguém formula uma frase com a expressão "pessoas de bem", supondo a si mesmo, e a algum suposto grupo de benfeitores, superioridade moral, trata-se de uma postura, no mínimo, duvidosa. Qual a legitimidade de alguém que atribui a si mesmo, e a seus similares, uma espécie de superioridade moral em relação às demais pessoas, que seriam supostamente as pessoas do mal? E sob quais critérios? Além do maniqueísmo reducionista, Reinaldo Azevedo prega a intolerância cultural. Num país em que o cinema nacional é historicamente tão desvalorizado, em detrimento de produções estrangeiras, uma afirmação desse teor é desoladora. Em qualquer país do mundo, o incitamento ao boicote de um filme que representa o país em um importante festival internacional de cinema teria causado reação vigorosa por parte da classe artística. Ligadas ou não ao setor audiovisual. Mas a repercussão foi morna. Quase nenhum artista se sentiu atingido. Interessante ver que poucos artistas de peso, com visibilidade e capital cultural relevante no país, têm tido a coragem de enfrentar, direta e duramente, essa gente que vive para destruir, odiar e sabotar todas as manifestações culturais que não se conformam à visão de mundo representada pela ortodoxia dos mercados. Uma visão predadora da cultura, agora encampada oficialmente pelo governo interino de Michel Temer. Claro que há notáveis exceções entre os artistas. Mas as exceções confirmam a regra. Talvez o medo de comprometer suas carreiras e reputações perante o mercado já esteja calando a voz de muitos. O silêncio nessas horas é um porto seguro. Tudo indica que um tipo de macartismo, em sua versão brasileira, omissivo, silencioso e autoinfligido, veio para ficar. Ao menos por algum tempo.

Temer e o fabuloso ministério das finanças corporativas

Economia não se reduz a finanças corporativas. Nomear economistas vinculados ao capital financeiro para liderar a equipe econômica, gente sem experiência em políticas públicas e nenhum compromisso com políticas sociais, que só compreendem a linguagem da maximização do retorno ao acionista, e dos ganhos financeiros de curtíssimo prazo, é o mesmo que extinguir o Ministério da Fazenda, o Ministério do Planejamento e o Banco Central. A par da extinção do MinC, para ser coerente com sua política pró-negócios, em especial dos negócios do setor financeiro da economia, Temer deveria fundir todos os ministérios da área econômica, juntamente com o Banco Central, e transformá-los em uma única entidade: "The International Corporate Finance Bureau". Com o nome em inglês, para deleite de seu ministro das relações favoráveis ao exterior, José Serra. Seria, no mínimo, mais honesto. Mas honestidade definitivamente não é forte deste governo. Então ficaremos imersos em mentira, cercados de "ministérios" de fachada, cujos nomes nada significam, pois não possuem nenhuma referência à realidade dos fatos. É a farsa da "Ponte para o futuro" sacramentada e institucionalizada. Com o "rating" triplo A da grande imprensa.

Exijo meu país de volta

Dilma Rousseff, presidente do Brasil
Fora a quadrilha de Temer e sua panela Para que a cultura não se reduza à novela Que não regressamos ao tempo da caravela Que a política não exclua a periferia e a favela Que a economia não seja causa de tanta mazela Que o país não se transforme em uma grande cela Que o abandono na educação não deixe mais sequela E que a Presidência da República seja devolvida para ela

sexta-feira, 13 de maio de 2016

As sombras da distopia tecnocrática

Eficiência é fazer mais com menos. No governo Temer, eficiência será fazer menos. Com muito menos ainda. Qualquer que seja o excedente resultante de cortes de gastos públicos sob pretexto da eficiência, esse "mais" será imediatamente transferido para os que já possuem mais. Na equação da eficiência, a parcela da população que depende das redes de proteção social do Estado deve ser eliminada. Nessa lógica, só quem gera receita é aproveitável. Os que geram custos devem ser removidos. Idosos aposentados, portadores de doenças e deficiências, moradores de rua, dependentes químicos, famílias carentes, e excluídos em geral, não são considerados eficientes pela retórica tecnocrática. A eliminação por abandono será o modo mais rápido de se alcançar a eficiência. Fazer menos pelos excluídos implicará sobrar mais para os privilegiados. Os eficientes. Os produtivos. Os vencedores. É para esses que a democracia da eficiência deve governar. Essa será a lógica da eficiência do governo Temer. Um iluminismo às avessas em que a suposta "modernização" nos conduzirá às trevas. A grande imprensa terá o papel de influenciar a opinião pública quanto à necessidade das medidas amargas para aqueles que já vivem vidas amargas. O discurso retórico será de que um governo pró-negócios beneficiará a sociedade com um todo. Balela. As pesquisas econométricas mais recentes demonstram, em farta literatura, que incentivos clássicos à atividade produtiva, como cortes de impostos, redução das políticas sociais e flexibilização de encargos e direitos trabalhistas, têm apenas um efeito prático: o aumento da precarização das classes mais desfavorecidas, concomitantemente com o aumento da concentração da renda e da riqueza. Uma democracia da eficiência será, ao fim e ao cabo, uma ponte para a distopia da técnica. A supremacia da violência tecnocrática. A vitória dos meios sobre os fins. E o começo do fim do pouco que ainda nos resta de humanidade.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

As falsas representações da vida cotidiana

As representações do 'eu' na vida cotidiana, de acordo com o sociólogo Erving Goffman, são parte essencial da vida em sociedade. No dia a dia, assumimos diversos papéis sociais que facilitam a convivência e o intercâmbio de informações interpessoais no âmbito das relações humanas. O problema é quando esses papéis são tão falsamente representados, que transformam a vida em sociedade em um mero palco para encenação da hipocrisia e do cinismo. Interessante ver que até ontem a grande imprensa, as entidades de classe e outros segmentos golpistas do setor privado estavam todos engajados na deposição da presidente Dilma, todos municiados pelo discurso vazio da corrupção, da eficiência de gestão e da moralidade administrativa. De uma hora para outra, gente como Míriam Leitão, Hélio Bicudo e o pessoal da OAB se manifestaram preocupados com a baixa qualidade técnica e moral do ministério anunciado por Temer. Querem desempenhar o papel de imparciais conhecedores de assuntos técnicos e de críticos responsáveis a serviço da sociedade civil. A quem querem enganar? Nem a família, nem os amigos e sequer eles próprios acreditam. É só mais um insulto à nossa inteligência coletiva. Teatrão da pior qualidade. Um exemplo clássico de má atuação que, na vida real, se converte em má-fé.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Os homens que queriam ser presidentes

Alckmin, Aécio e Serra
“Já naquela altura, depois de tanto abuso, era impossível distinguir homem do porco.” (A revolução dos bichos, George Orwell)

Esse é o golpe dos homens que queriam ser presidentes. Esse é o golpe dos homens que foram derrotados nas urnas. Esse é o golpe dos homens que não se conformaram em perder as eleições para um ex-metalúrgico. Esse é o golpe dos homens que não aceitaram a derrota para uma mulher. Esse é o golpe dos homens sérios que não levam as regras democráticas a sério. Esse é o golpe dos caciques do PSDB. Serra, Aécio, Alckimin. Esse é o golpe do homem que queria ser rei. FHC. Esse é o golpe dos traidores do PMDB. Esse é o golpe do vice-presidente que também queria ser presidente. Temer. Esse é o golpe dos congressistas da bala. Da bíblia. Do boi. Dos bancos. Da propriedade. Da família. Esse é o golpe dos lobistas infiltrados na política. Esse é o golpe dos fascistas. Esse é o golpe dos homens que pregam a tortura. Dos Bolsonaros. Esse é o golpe dos réus. Cunhas. Renans. Malufs. Esse é o golpe dos tecnocratas. Cristóvãos. Miros. Moreiras. Esse é o golpe dos homens que rasgam a constituição. Moros. Janots. Gilmares. Esse é o golpe dos moralistas sem moral. Esse é o golpe dos homens que comandam as grandes corporações. Dos barões da mídia. Dos soldados do capital financeiro-especulativo. Dos magnatas das armas. Dos monarcas do petróleo. Dos senhores da guerra. Dos soberanos do tráfico. Dos imperadores das finanças. Dos tiranos da indústria cultural. Dos magos da moeda virtual e eletrônica. Esse é golpe do velho jeito de fazer negócio dos velhos congressistas de negócios. O golpe dos eternos coronéis da política. Esse é o golpe do conservadorismo jurídico dos homens togados. Esse é o golpe dos homens da Fiesp, da Febraban e da OAB. O golpe da dominação masculina entranhada nas nossas instituições ainda patriarcais e retrógradas. Esse é o golpe dos homens que não suportam as minorias. Esse é o golpe dos homens homofóbicos. Esse é o golpe dos homens que odeiam o povo. E não suportam a diversidade. O multiculturalismo. A democracia. Esse é o golpe da mentalidade escravocrata e senhorial. Esse é o golpe dos bigodes pintados, das cabeleiras falsas, das gravatas encurtadas pairando sobre a deselegância indiscreta de suas barrigas. Esse é o golpe de homens que ostentam a cafajestice. Esse é o golpe do chauvinismo cínico. Da misoginia. Da plutocracia. Da antidemocracia. Esse é o golpe das mulheres que pensam como os piores homens. Esse é o golpe dos homens que representam o pior do homem.

terça-feira, 10 de maio de 2016

A pedagogia da anulação da anulação do impeachment

Marlon Brando em O poderoso chefão
"Eu vou lhe fazer uma oferta que você não pode recusar." (Don Corleone, em O poderoso chefão)
A anulação relâmpago do impeachment pelo deputado Maranhão serviu para evidenciar, ainda mais, três fatos pedagógicos: de imediato, a reação hiperbólica da grande mídia, impressa e televisiva, que tomou a anulação como ofensa pessoal, e saiu a disparar editoriais com argumentos tão frágeis quanto desesperados. A revolta indisfarçável dos jornalistas extrapolou todos os limites da razoabilidade e confirmou a escandalosa parcialidade do jornalismo corporativo brasileiro. A grande mídia está diretamente implicada no golpe. Seus porta-vozes são golpistas até o osso. Uma obviedade, certamente. Mas que sempre causa desconforto ao assistir. Na sequência, testemunhamos a gigantesca pequenez de Renan Calheiros. Sua (in)ação foi uma desoladora amostra do que virá pela frente durante a votação do impeachment no Senado. Nada menor que um homem público rebaixado a mero lacaio das grandes corporações, sem nenhum compromisso com a democracia, e a serviço de um partido igualmente corporativo, o PSDB, ao qual sequer pertence. E finalmente, o caráter mafioso dos políticos envolvidos com o impeachment, que rapidamente agiram para que Maranhão voltasse atrás e anulasse a anulação do impeachment no mesmo dia em que havia acolhido o pedido do AGU. Ninguém saberá ao certo o que se passou nos bastidores, mas nenhum político, em sã consciência, agiria de tal maneira que, em menos de 24 horas, conseguisse ser execrado, ridicularizado, hostilizado e massacrado por ambas as partes: defensores e opositores do impeachment. Não é difícil especular que Maranhão provavelmente recebeu uma oferta, no melhor estilo Don Corleone, a qual não poderia recusar.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

O golpe está nu

Foto Isabela Kassow
Quais os limites morais da hipocrisia coletiva de uma nação? Há momentos em que as obviedades parecem tão obscurecidas que precisam ser explicitadas. Ainda que permaneçam óbvias. Vamos a elas. O instituto do Impeachment, ainda que previsto na Constituição Federal, sem um fato que lhe dê suporte é apenas um dispositivo legal teoricamente sem força para gerar efeitos jurídicos. Isso todos sabemos. O que está em curso é um processo de impeachment sem base fática. As supostas pedaladas fiscais e os créditos suplementares não são fatos passíveis de enquadramento como crime de responsabilidade. Sem um fato correspondente, não há enquadramento jurídico possível. Isso todos sabemos. Os congressistas sabem. Os magistrados do STF sabem. Os barões da mídia e seus lacaios jornalistas também sabem. Os políticos de oposição sabem. Todos os golpistas sabem. O impeachment é apenas uma ficção jurídica utilizada como instrumento "legal" para legitimar um golpe de Estado que é, por definição, ilegítimo. O discurso pelo impeachment é, portanto, apenas artifício retórico para legitimar o ilegítimo. Sabemos também que nenhum golpe de Estado é denominado "golpe" pelos golpistas. Golpistas não se apresentam como golpistas. Faz parte da lógica de todo golpe a artimanha de se passar por processo revolucionário, quando se utiliza a força; ou por procedimento legal, quando se utiliza justificativas jurídicas. Isso também todo mundo sabe. Que os mentores e executores do golpe não possuem idoneidade moral para propor o impedimento de quem quer que seja também não é novidade. Que os golpistas são, em sua maioria, réus ou estão implicados em processos e investigações penais também é público e notório. E que vários interesses difusos dotados de poder econômico convergiram para que a presidente eleita seja deposta, Lula seja preso e o PT destruído, também ficou evidente desde a derrota de Aécio Neves em 2014. Tudo está às claras. Não há conspirações subterrâneas. Não há nada mais a ser desvelado. Não há mais o que revelar. Está tudo aí. Pisado e repisado. Todos sabemos. O mundo inteiro sabe. Mas no Brasil de hoje ocorre um fenômeno curioso. Os fatos perderam valor. O que vale não são os fatos, mas o poder dos grupos que detêm o poder de fato. E o que surte efeito advém não dos fatos, mas das narrativas dos poderosos de plantão. E de seus capatazes intelectuais. O óbvio se torna obscuro. No Brasil de hoje, um golpe de Estado é legal. Constitucional. Moral. Ético. É qualquer coisa que os golpistas engravatados afirmarem que é. Simples assim. Diante de tamanho obscurantismo dotado de poder, nada mais resta a debater no campo da esfera pública. Nem a desvelar. Ou esclarecer. O golpe está nu. A verdade que todos sabemos não tem valor prático nenhum. Não serve para nada exceto para angustiar. Entristecer. Amargurar. Revoltar. Tornou-se inútil analisar os fatos. Argumentar. Raciocinar. Criticar. Ficamos reduzidos a exercícios escolásticos inócuos. Passamos o tempo a decifrar obviedades. Exercitamos a lógica em vão. Quando a hipocrisia se transforma em valor social dominante, a cegueira e o auto-engano coletivo se convertem em modo de vida. O ceticismo cínico entra em nossos ossos. Seca nossos cérebros. Endurece nossos corações. Esgota nossas forças. Tudo o que sobra é a disposição de lutar para honrar as conquistas democráticas consolidadas com o sacrifício de tantas gerações. Se a razão nada mais vale em um Estado já dominado pela exceção, o que resta é a fé. Fé na ação. Na luta. E com as forças que restam, ocupar o Brasil. Uma luta que, independentemente dos resultados alcançados, vale por si.

sábado, 7 de maio de 2016

Nosso povo tem memória fraca

Walter Benjamin 
Transcrevo a seguir trecho do livro O capitalismo como religião, de Walter Benjamin, cujo conteúdo atual, e precisamente aplicável ao contexto político do Brasil de hoje, dispensa comentários adicionais. O texto fala por si:
"(...) Essas unidades de leituras pretendem fomentar algo que talvez seja a coisa mais importante a ser fomentada entre nós: a memória histórica. 'Nosso povo tem memória fraca', disse Hofmannsthal no prefácio que ele escreveu a Deutsche Erzähler [Narradores Alemães], 'o que ele possui, ele sempre perde de novo'. Isso é mais do que um simples erro. Quem esquece séculos de experiências jamais obterá uma verdadeira autoconsciência histórica baseada na consciência presente das experiências históricas, em seus reflexos, em seu controle ininterrupto. Num mundo que a cada dia fica mais velho, não há como querer bancar a eterna criança que a cada manhã que o Senhor Deus nos proporciona quer começar um novo mundo."

sexta-feira, 6 de maio de 2016

O ser no tempo e o tempo no ser

O tempo é onde?
Aqui. E agora? Agora é sempre. E depois? Depois é lembrar. Lembrar de quê? Acabar. Por quê? Se libertar. Liberdade? Morrer. Quando? No espaço. E a existência? Viver. E a Linguagem? Sobreviver. Pra quê? Esquecer. As palavras. As coisas. O pensamento. O esquecimento. 
De ser. Do ser. Do outro. Do tempo.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Queda de Cunha: a hora da virada democrática

Foto Isabela Kassow
Eduardo Cunha acaba de ser afastado por decisão unânime do STF. O pedido de afastamento havia sido feito em dezembro. Houve, portanto, um problema de "timing". Cunha deveria ter sido afastado antes da votação do impeachment. Tempo suficiente não faltou. Nossos ilustres ministros do STF ficaram discutindo a metafísica do tempo, de Santo Agostinho a Bergson, e perderam uma oportunidade histórica de deixar os golpistas órfãos de seu poderoso chefão. Teria sido um tiro certeiro no golpe. Agora talvez seja tarde demais. Mas como diz o ditado: antes tarde do que nunca. E se não fosse pela intensa manifestação anti-Cunha esse pedido de afastamento talvez permanecesse engavetado por tempo indeterminado. A única maneira de sacudir a poeira do golpe é aumentar a pressão popular. Já vimos que não podemos contar com o espírito democrático de nossos magistrados e congressistas. No Brasil de hoje é preciso lutar pela democracia diariamente. Cotidianamente. Ceticismos à parte, depois de longas jornadas noite adentro, a decisão de Teori pode trazer ventos favoráveis. Precisamos estar preparados para a luta dos próximos dias. Como disse Hamlet: "Há uma providência especial até na queda de um pardal. Se tiver que ser agora, não está para vir; se não estiver para vir, será agora; e se não for agora, mesmo assim virá. Estar pronto é tudo". Que a queda de Cunha seja uma providência especial. Que estejamos prontos. Não percamos mais tempo em decifrar o óbvio. Se é jogada ensaiada, então vamos interceptar a bola. E partir para o contra-ataque. Se é teatro, então que o coro determine a dramaturgia. Com vigor e poesia. Se é jogo de cena, então vamos ocupar a cena. E virarmos esse jogo de uma vez por todas. É chegada a hora da virada democrática. Hora de dar um golpe no golpe. Hora de mostrar força. Hora de ocupar as ruas. Hora de ocupar as redes sociais. Hora de ocupar o Senado. Hora de ocupar tudo. A hora é agora. O tempo é já.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Michel Temer: o homem que transpirava conspiração

Kevin Spacey no papel de Richard III 
Michel Temer é a negação da democracia. É a expressão máxima da antidemocracia. Uma contradição viva dos princípios fundamentais de um Estado democrático de direito. Silvio Caccia Bava, editor do Le Monde Diplomatique Brasil, chamou a atenção para um fato assustadoramente simétrico: Michel Temer, se consumado o golpe, será um presidente, segundo pesquisas recentes, com apenas 1% das intenções de voto. E que governará para o 1% mais rico da pirâmide social, conforme explicitado em sua famigerada "Ponte para o futuro". Uma perversa simetria que contribuirá para acentuar as nossas assimetrias mais perversas. Acrescente-se acusações de contas em paraísos fiscais e de recebimento de propinas; processos de impeachment protocolados na Câmara; a associação criminosa com Eduardo Cunha; a conspiração vergonhosa com caciques do PSDB; a promiscuidade explícita com o grande capital, com os mercados financeiros e com a grande imprensa, que o tratam desde já como se fosse presidente; uma possível entrega do Ministério de Ciências e Tecnologia a um bispo que defende o criacionismo; e, finalmente, a recente condenação do TRE-SP, que o torna inelegível nas próximas eleições. Tudo isso, somado, resulta em um provável presidente da República cuja vilania repugnaria até mesmo Ricardo III, personagem emblemático do drama histórico mais cruel de William Shakespeare. Michel Temer, cuja ilegitimidade política faria inveja aos mais notórios tiranos da história do mundo, independentemente do que virá a seguir, será sempre lembrado como o homem que transpirava e respirava conspiração. Seu nome nos dá a chave de tudo que, se vier, virá. De fato, há muito a temer. Serão tempos de temor. De dor. Incerteza. Insegurança. Desesperança. Tristeza. E desamor. Que esse pequeno ensaio seja só mais uma crônica sobre alguma coisa cujo desfecho sombrio jamais chegou a ser.