quinta-feira, 31 de março de 2016

Zumbis midiáticos

Por José António Fundo
Os jornalistas da chamada grande imprensa estão ofendidos com as manifestações de hoje pelo Brasil. Reduziram um amplo movimento em defesa da democracia a um ato sindical e estudantil. Assumiram o projeto dos patrões como se fora projeto pessoal de cada um. Tornaram-se mais reais do que o rei. Mais dominadores que os dominantes. Mais golpistas do que os protagonistas do golpe. Tornaram-se caricaturas de si mesmos. Seres robóticos, sem rosto, sem alma, sem coragem, sem coração. Jornalistas assépticos. Meros zumbis midiáticos.

Justiça à venda

Miguel Reale Jr. foi o jurista contratado pelo Instituto FHC ano passado para justificar, sob forma de parecer, o impeachment contra Dilma Rousseff. Todos os golpes têm seus juristas de plantão. Reale Jr. é o plantonista da vez. Que legitimidade tem um prestador de serviços jurídicos para ser o porta-voz "técnico" da grande imprensa, a respeito de um assunto sobre o qual ele já se manifestou anteriormente, mediante a elaboração de um "produto" de sua lavra, vendido por um preço elevadíssimo no mercado de pareceres? É o mesmo conflito de interesses de Luiz Carlos Mendonça de Barros, banqueiro de investimento, quando atua como analista econômico para jornais, televisão e rádio. A análise de Mendonça de Barros obviamente impacta o setor em que possui negócios. O mercado financeiro. Por quanto tempo mais esse pessoal da grande imprensa vai tratar a população como massa de manobra? Os insultos à nossa inteligência coletiva são diários. É preciso denunciar na mesma moeda. Diariamente.

quarta-feira, 30 de março de 2016

Jogos de linguagem para crianças, o passatempo preferido dos jornalistas dos jornalões

"Os golpes nunca se dizem golpes, os golpistas nunca se fazem chamar de golpistas. Há sempre vários tipos de nomes, pelos quais os golpistas tentam disfarçar seu golpe." (Emir Sader)

Negar o golpe é parte da estratégia dos golpistas. Um golpe, por definição, é um tipo de artimanha. Uma espécie de astúcia. Uma apropriação ilegítima do Estado pelo uso da força (militar ou judicial). Enfim, uma mentira. Se fosse sincero, não seria golpe. E se não fosse golpe, seria sincero. Com Temer, Cunha, os perdedores inconformados do PSDB e os mesmos veículos da grande mídia historicamente vinculados ao golpe de 1964, à época chamado de "revolução", pessoas e grupos que vivem de explorar a miséria alheia e lucrar com a própria hipocrisia, todos subitamente reunidos com o objetivo declarado de derrubar a presidente eleita, para que imediatamente possam implantar suas agendas espúrias já explicitadas em documento oficial (e não legitimadas nas urnas), o que mais precisa ser exposto para que o golpe seja desmascarado? E tratado como golpe, sem eufemismos? 

A grande imprensa enterrou a Lava-Jato de uma vez. Agora todas as forças estão voltadas para a defesa da suposta legalidade deste processo de impeachment em andamento. Merval Pereira assina sua coluna de hoje com o título 'Não vai ter golpe'. Utiliza o grito dos que defendem a democracia para vender a ideia de que impeachment não é golpe. É dispositivo legal previsto na Constituição Federal. Jogo de palavras infantilizado. É óbvio que o impeachment, se é um dispositivo constitucional, só pode ser legal. O que se questiona não é a legalidade do impeachment, como que dar a entender Merval em seu texto, provavelmente escrito sob encomenda para as entidades patrocinadoras do golpe, e certamente endereçado a legião de leitores adestrados e batedores de panelas. A questão é se o impeachment, neste caso concreto, é ou não aplicável. Como não há crime de responsabilidade atribuível à presidente Dilma Rousseff, não há que se falar em impeachment. É o mesmo que invocá-lo no vácuo. Portanto, se não há crime de responsabilidade, a abertura de um processo de impeachment é ilegal. E como esse expediente está sendo usado descaradamente para que certos membros de partidos políticos da oposição, incapazes de vencer eleições presidenciais nas urnas há mais de uma década, usurpem o cargo de Presidente da República, trata-se, evidentemente, de um golpe de Estado.

O mecanismo de linguagem de Merval, e da grande imprensa de um modo geral, acerca da suposta legitimidade do impeachment é um artifício de retórica tão rudimentar que é o mesmo que se alguém lhe perguntasse: "Merval Pereira, o senhor sempre foi golpista? Responda-me, sim ou não?" Se ele respondesse sim, confessaria ser golpista desde sempre. Logo, para Merval, ser golpista seria o caso. Se ele respondesse não, negaria o fato de sempre ter sido golpista, mas ficaria implícito que é golpista agora. Independentemente da resposta, a conclusão seria a de que Merval é golpista. Eis aí um artifício de linguagem do mesmo quilate daqueles utilizados diariamente pelos jornalistas dos jornalões. Em outras palavras, um mero jogo de palavras infantil para fisgar incautos. Uma grande bobagem. Um enorme desperdício de tempo. Mais um insulto à nossa inteligência coletiva.

terça-feira, 29 de março de 2016

Acima a ditadura. Abaixo a democracia. No meio a carne dura.

Ulysses Ferraz em cena,
Teatro Oficina (1993)
A OAS pagou 5 milhões a Temer? Nenhum jornalão vai publicar esse tema. Enquanto isso, Cunha é o rei do impeachment. Serra vende a Petrobras. Botelho, Lobão e Moro se desculpam esfarrapadamente. Em Copacabana tem gente batendo panela. O Paraguai ganhando do Brasil no futebol? Será que empata? Tanto faz. Ando esquecendo até do futebol. A narrativa não faz sentido. Colagem pós-moderna. Ou pós-traumática. Vamos comemorar a limpeza dos ministérios. Os peemedebistas não estão no poder? Será que vem PP? Metodologia, eu quero uma pra viver. Um brinde aos jornalistas da grande imprensa. Com água do filtro. Sem gelo. A melhor pedida numa noite quente. Escassez em Época de golpe. Austeridade. ISTOÉ, logo tudo será nada. Sem demora. Viva os merendeiros. O pessoal de Furnas. A redeglobalização da economia. As agências de risco, o santuário da Míriam Leitão. O FMI. As taxas de juros nas alturas. O Domingão. O Big Brother. As Trump Towers. O Tea Party brasileiro. O Merval quase americano. A lista da Suíça. O listão da Odebrecht e do HSBC. As gravações conspiratórias. A sonegação. Cunha solto, Lula preso. A CBF. O pessoal da Zelotes e os amigos do PSDB. Alô, alô Luciano. Aquele abraço. Meu caro indignado. O pato da Fiesp manda lembrança para os seus. Sem ódio no coração, ninguém aguenta esse rojão. Mais um suicidado? Acima a ditadura. Abaixo a democracia. No meio a nossa carne dura. Vou voltar pra a escola de circo. Não a de Paris. A do morro da Mangueira. Cortaram todas as redes de proteção. Só me resta saltar como um suicida. Na vida. Boa noite. Boa sorte.

Pessimismo na análise e otimismo na ação

"É necessário criar homens sóbrios, pacientes, que não se desesperem diante dos piores horrores e não se exaltem em face de qualquer tolice. Pessimismo da inteligência, otimismo da vontade." (Antonio Gramsci, em citação a Romain Rolland)

Só é possível enfrentar seriamente um problema conhecendo minimamente sua magnitude e escala. A possibilidade de golpe é real. Não se trata exatamente de pessimismo ou derrotismo. A base aliada do governo está cada vez mais escassa. Os ratos estão deixando o navio. O STF lavou as mãos e, ao que tudo indica, se apequenará. Recursos financeiros vultosos fluem em apoio aos golpistas. 'Think tanks' proliferam. Lobistas internacionais se articulam. O capital faz greve de investimentos. A economia sangra. Por deliberação do capital. Por decisões (des)humanas. Pela voracidade rentista. Sindicatos patronais patrocinam o golpe com propagandas diárias com mais de 10 páginas nos grandes jornais. Faturamento garantido para os jornalões. A grande imprensa enterrou a Lava-Jato. Dominou os discursos. Destroçou os fatos. A parte da opinião pública que não é invisível (classe média e alta) está imersa em transe. Intransigente. Irracional. A hipocrisia se converte em ódio. É inacreditável que depois de 21 anos de ditadura militar corremos agora o risco de ver Michel Temer presidente da República, Eduardo Cunha presidente da Câmara e Renan Calheiros presidente do Senado. Um triunvirato de canalhas peemedebistas, apoiado por tucanos mais canalhas ainda, que conspiram abertamente nos bastidores da República. Nem Shakespeare seria capaz de escrever tamanho drama histórico ou tragédia política. Parece um terrível pesadelo. Mas tudo isso é real. A única chance de reverter esse quadro está nas ruas. O ato do 31 de março talvez seja condição necessária mas não suficiente para defender a democracia. Temos que nos mobilizar todos os dias até o momento da votação do impeachment. E depois, caso o impeachment seja aprovado. Precisamos ocupar o espaço público em todas as frentes. Em todos os canais, todas as mídias, todos os segmentos. Sem descanso. Sem trégua. A maior manifestação de todos os tempos não será suficiente para espantar o golpe. Todas as mobilizações em defesa da democracia serão ocultadas pelos meios de comunicação de massa. Serão invisibilizadas. É preciso ir além e entrar na fase da mobilização permanente. O golpe já está em curso. A nossa responsabilidade coletiva é detê-lo. É hora de sermos pessimistas (ou realistas se preferirem) na análise e otimistas na ação. A hora é agora.

Jornalista ou inquisidor?

Merval Pereira perdeu a compostura e assassinou a ética jornalística. Em seu artigo de hoje no Globo, Merval escreve como se Lula houvesse comprovadamente cometido crimes. Julga antes mesmo de haver uma denúncia do MP contra o investigado. Condena antes de haver acolhimento da denúncia pelo magistrado competente. Atropela o devido processo legal. Impunemente. Joga no lixo a CF e reforma o Código de Processo Penal ao seu bel prazer. Transforma investigação em condenação. Profere sentenças mesmo sem ser juiz. E acusa a presidente Dilma Rousseff pelo crime de obstrução de justiça, como se o cargo de ministro de Estado gozasse de algum tipo de imunidade penal. Merval legislador. Merval promotor. Merval juiz. Merval inquisidor. Ora, se alguns juízes julgam-se deuses, como Merval julgará a si próprio, ao se posicionar acima deles? Os leitores adestrados assimilam o mantra. Replicam o conteúdo nas redes sociais. A leviandade vira verdade. A manipulação é explícita. Não há problemas quando um articulista se posiciona em relação aos acontecimentos políticos de um país. O problema é quando os argumentos são construídos a partir de premissas falsas. Se não é possível mais ser objetivo e imparcial nos jornais da grande imprensa, ao menos que se respeite minimamente os fatos. E o ordenamento jurídico do país.

segunda-feira, 28 de março de 2016

Quando o fato interessa ao discurso. E vice-versa.

Mosaico da Academia de Platão
A lógica da grande imprensa e dos seus leitores adestrados: se o fato não interessa é discurso; se o fato interessa é fato; se o discurso não interessa é discurso; se o discurso interessa é fato. E assim caminha a manipulação.

Depois que saiu o listão da Odebrecht, na grande imprensa só se fala em outra coisa. Lava-Jato nunca mais. A estratégia agora é adular Temer, blindar tucanos com ausência de notícias, disparar frivolidades, escrever editoriais sisudos elogiando a famigerada 'Ponte para o futuro' e inundar a cabeça do leitor incauto com análises "técnicas" sobre as supostas irregularidades fiscais e orçamentárias do governo federal, como se algum (des)articulista desses jornalões tivesse um mínimo de conhecimento em contabilidade pública.

Até Nelson Motta arrisca um palpite. Alegre ou triste.

Algumas consequências da 'Ponte para o futuro' do PMDB/PSDB

Lixão de Aruruama/RJ - Foto Isabela Kassow
Se o programa econômico do PMDB de Cunha e Temer, apoiado pelo PSDB de Serra, Aécio, FHC, Alckmin, Armínio & Cia., denominado 'Uma ponte para o futuro' for implantado, em caso de impeachment da presidente Dilma, seguirão, muito provavelmente, as seguintes consequências práticas:

- Os ricos ficarão ainda mais ricos. E mais distanciados do restante da sociedade, tanto em proximidade física quanto em valores dos seus respectivos patrimônios líquidos.

- A classe média, cuja maioria de seus integrantes vive de auto-engano, ainda que não seja beneficiada em nada com o que vem por aí, a partir do momento em que as notícias veiculadas pela grande imprensa pintarem um admirável mundo livre, enfiando goela abaixo da opinião pública (supostamente escolarizada) o discurso da prosperidade, da eficiência, da eficácia, da honestidade, da moralidade, da meritocracia, do "agora sim" e da "criação infinita de valor", ela terá, com sua fraqueza e desatenção, a percepção de que tudo está divino e maravilhoso. Assim como tolerou a hiperinflação e a estagnação da década de 1980, sem se revoltar, sem bater panelas e sem se incomodar com a corrupção e a imoralidade pública reinantes à época, a classe média ficará domesticada e obediente, reproduzindo os discursos dos dominantes, sem se dar conta de quão mais precarizada se tornará. Desde que a distância entre a classe média e as classes mais desfavorecidas aumente, tudo pode ser tolerado pelos setores médios da população. E o auto-engano vale a pena.

- Para a classe trabalhadora, e os mais desfavorecidos, o impacto será sentido na carne e nos ossos. O desmantelamento das redes de proteção social, a precarização do mercado de trabalho e a falta de políticas de redistribuição de renda, além do abandono dos investimentos em saúde, assistência social e educação públicas, para sustentar o ajuste fiscal ostensivo que virá e, assim, garantir a rentabilidade dos investimentos financeiros, tudo isso implicará o aumento da miséria, da pobreza extrema, e da ruína de muitas famílias, que serão mais uma vez varridas para debaixo do tapete da exclusão.


Ao fim e ao cabo, a 'Ponte para o futuro' reconduzirá o país ao seu eterno passado.

domingo, 27 de março de 2016

Os novos sofistas e suas narrativas ridículas. Em resposta a Merval Pereira.

Retórica - Óleo sobre tela, Laurent de La Hire (1650)
Senhor Merval Pereira, usar editoriais do 'Washington Post', do 'The New York Times' e da revista 'The Economist' como argumento de autoridade para justificar a renúncia da presidente Dilma Rousseff, no mesmíssimo texto em que o senhor nega que haja interesses internacionais envolvidos no processo de impeachment ora em curso, sobretudo aqueles relativos à entrega do pré-sal a grandes empresas petrolíferas estrangeiras é, no mínimo, abrir o flanco para ser flagrado, mais uma vez, na arte de sofismar, sem, contudo, deter os refinados dotes dos sofistas da Antiguidade Clássica. O apoio das corporações midiáticas citadas pelo senhor apenas reforça a tese de que há interesses econômicos internacionais envolvidos. Ou o senhor crê que apenas 'O Globo' depende das grandes corporações para a sua sobrevivência? No entanto, sou obrigado a parabenizá-lo pelo título de seu texto: "Narrativa ridícula". Não há palavras mais adequadas para batizar uma narrativa, de fato, ridícula. A correspondência entre o título e o conteúdo do seu texto é espantosa. Ao final do seu artigo, também sou obrigado a lhe dar razão. Sou forçado a concordar quando o senhor afirma que alguns dos argumentos daqueles que são contrários ao 'impeachment' seriam antiquados, pois apontam para um ataque às nossas riquezas naturais por parte do capital internacional. De fato, essa história é antiga. Nos dias de hoje, com os documentos recentemente revelados pela Casa Branca, e magnificamente expostos no documentário "O dia que durou 21 anos", todos sabemos que os Estados Unidos deram suporte financeiro, militar e logístico ao golpe de Estado de 1964. De fato, não é de hoje que a democracia brasileira e seus recursos naturais, assim como seus recursos humanos, seu amplo mercado consumidor, enfim, todos os seus potenciais econômicos, humanos e ecológicos são alvos de ataques por parte dos países ricos do Hemisfério Norte. Não se trata de conspiração, certamente, mas de interesses difusos reais. A cobiça pelas nossas riquezas é deveras antiga.

sábado, 26 de março de 2016

Quando a comunidade empresarial entra em greve


Foto John Paul Kleiner

"Para evitar a greve do capital, em que empresas reduzem seus investimentos e operações, os governos têm que manter a confiança do setor privado, o que implica muitas vezes dar atenção especial à comunidade empresarial." (Michael Howlett, Política pública)

Em um mundo fortemente influenciado pelas grandes corporações, governos devem sinalizar frequentemente que suas políticas públicas são compatíveis e convergentes com os interesses do capital. Governos, independentemente de suas orientações políticas, necessitam que as empresas mantenham suas atividades de modo lucrativo para que novos investimentos sejam criados. Assim, garantem que empregos sejam gerados e impostos sejam recolhidos. Em uma economia de mercado, há uma clara interdependência entre o Estado e a chamada iniciativa privada. Como afirma Michael Howlett, "governos necessitam de uma economia próspera que lhes assegurem uma base adequada de receitas tributárias, para gastar em programas que possibilitem a execução de suas políticas públicas".

Dada essa interdependência entre governo e empresas, uma crise pode facilmente ser causada pela atitude grevista do grande capital, que diante da menor desconfiança ou de algum tipo de insatisfação com os governos, recusam-se a investir e desaceleram suas atividades empreendedoras. Grosso modo, utilizam seus poderes de barganha como se fossem autênticos grevistas. Ao agirem assim, empresas pressionam governos a tomarem medidas que as favoreçam, em detrimento de outras classes e setores da sociedade. Governos não alinhados ao receituário neoliberal costumam sofrer ataques do setor privado e, não raro, são forçados a sacrificar algumas de suas metas sociais, em benefício de um mínimo de governabilidade.

Quando as condições exógenas estão mais favoráveis, os setores produtivos da economia toleram mais facilmente as políticas públicas de caráter inclusivo e redistributivo. No entanto, quando os fatores externos tornam-se desfavoráveis, esses mesmos setores, antes tolerantes, passam a ser inimigos do Estado. Mediante grupos politicamente organizados, aí incluídos setores da sociedade civil, grande parte da classe política e dos meios de comunicação, a comunidade empresarial atua de forma agressiva para que sejam adotadas políticas de seu interesse, tais como redução de impostos, desregulamentações financeiras, privatizações, concessões, flexibilizações de leis trabalhistas e sociais etc. Incia-se assim uma batalha política e midiática.

Trata-se de uma "queda de braço". Um luta cíclica. Hoje, no Brasil, vivemos uma dessas lutas. O setor privado da economia, com reforço dos grupos de oposição e da grande mídia, vem jogando pesado desde que o resultado das últimas eleições lhes foram desfavoráveis. A comunidade empresarial e seus representantes não toleram por muito tempo governos cujas políticas públicas são voltadas para redução de desigualdades sociais e para uma melhor distribuição da renda e da riqueza. Especialmente quando o cenário externo não é favorável. O papel do governo federal, nessas condições, é resistir com o mínimo de perdas sociais até que a comunidade empresarial retorne aos padrões normais de investimento. Em algum momento isso tem de acontecer porque no longo prazo o capital também perde com suas próprias greves. Afinal, como dizia Brecht, "a confiança pode exaurir-se caso seja muito exigida".

quinta-feira, 24 de março de 2016

O Brasil é uma democracia

Movimento Diretas Já (1983)
É urgente explicar para a população de um modo geral, inclusive aos segmentos mais escolarizados, o que significa o termo comunismo. Um conceito quando é usado de forma imprecisa e incorreta, generalizadamente, torna-se vazio de conteúdo. Só contribui para a propagação de ruídos e mal entendidos. E fomenta a violência. Até o cardeal dom Odilo Pedro Scherer foi agredido por uma senhora que o acusou de "comunista". Essa onda de ódio, turbinada pela ignorância fundamentalista de certos grupos, sob a conivência dos principais meios de comunicação, vai acabar resultando em tragédia. Será preciso que haja mortes? Assassinatos? O Brasil não é um país comunista. Tampouco socialista. É um Estado democrático de direito. Temos eleições diretas regulares. O setor privado corresponde a mais de 90% da atividade econômica no país. O "tamanho" do Estado é relativamente pequeno em proporção às maiores economias do mundo e às economias de países em desenvolvimento. A carga tributária em relação ao PIB está na média do Brics e dos países da OCDE. O grau de regulação dos mercados no Brasil é compatível com todas as democracia desenvolvidas do mundo, para que o capital não se concentre excessivamente, e não haja formação de monopólios e oligopólios, de modo a prejudicar o público consumidor. Não há restrições para investimentos estrangeiros e a remessa de lucros para o exterior, além de permitida, não é sequer tributada. E o direito de propriedade privada é garantido pela Constituição Federal. Um governo que implementa um mínimo de políticas públicas voltadas para inclusão social, redução da pobreza e melhor distribuição de renda e riqueza não é comunista ou socialista. Todos os países capitalistas desenvolvidos, as chamadas economias do Norte, possuem, em algum grau, maior ou menor, algum tipo de rede de proteção social. No Brasil, sequer atingimos o patamar de Estado de bem-estar social, como na maioria dos países ricos da Europa, apesar dos esforços dos últimos 12 anos dos governos Lula e Dilma. A construção de uma sociedade mais justa e igualitária, sob princípios democráticos, em um Estado de direito consolidado, ainda é um objetivo quase utópico no Brasil. E cada vez que nos aproximamos deste ideal, as forças conservadoras entram em ação para desconstruir as conquistas democráticas e sociais do país. Essas mesmas forças conservadoras que, quando lhes convêm, não respeitam os direitos humanos mais básicos, alimentam o ódio e a ignorância das massas, inclusive da classe média hipnotizada ideologicamente, e fazem crer, assim como em 1964, que vivemos numa ditadura comunista do tipo stalinista. Até quando vamos permitir e tolerar que manipulem nossas cérebros e insultem a inteligência coletiva da nação?

Escolhas políticas sob o véu de John Rawls

John Rawls (1921-2002)
Caso ignorasse o lugar ocupado por você em uma dada sociedade hipotética, como gostaria que ela fosse? John Rawls, filósofo norte-americano, autor de um livro intitulado Teoria da Justiça (1971), propôs um interessante experimento filosófico, que consistia, simplificadamente, em responder à seguinte pergunta: em qual tipo de sociedade seres racionais escolheriam viver se não soubessem qual posição ocupariam na pirâmide social? O experimento consiste na hipótese de seres supostamente racionais, escondidos por trás daquilo que Rawls chamou de véu de ignorância, serem conclamados a selecionar as formas de instituições sociais justas para todos, independentemente da posição de cada um na sociedade. E com base nessas condições hipotéticas, buscar um novo tipo de contrato social. De acordo com Rawls, só a partir de um acordo fundamentado nesse tipo de hipótese é que seria possível construir uma sociedade racional e justa. Em outras palavras, você só teria legitimidade para julgar a utilidade, a conveniência, a racionalidade e a justiça de um dado programa de governo ou de uma determinada lei, como por exemplo o bolsa-família, ou o sistema de cotas em universidades públicas, ou a flexibilização da legislação trabalhista, a tributação das grandes fortunas, a adoção da pena de morte, a redução da maioridade penal, ou qualquer outro tipo de programa, lei ou política pública, se você, antes de qualquer decisão, adotasse a hipótese de não saber em que condições você estaria nessa mesma sociedade. E você? Se vestisse o véu de ignorância de Rawls, em que tipo de sociedade escolheria viver? Com quais instituições políticas? Que tipo de governo apoiaria? Quais redes de proteção social julgaria essenciais? Sob o guarda-chuva de quais políticas públicas você se sentiria seguro? Eis uma questão fundamental levantada pela Filosofia Política contemporânea, e que pode nos ajudar a escolher, entre diversos programas de governo e propostas de políticas públicas, em qual tipo de sociedade gostaríamos de viver, independentemente da posição que ocupássemos na estrutura de classes do país. Um grande desafio.

quarta-feira, 23 de março de 2016

A revolta das elites

A imprensa corporativa, a oposição, as grandes corporações e a classe média (e alta) não estão interessadas em combater a corrupção. Muito menos se importam com os rumos políticos e econômicos do país. O projeto é simplesmente destruir um governo cujas diretrizes foram, minimamente, voltadas para a redução da pobreza extrema e das desigualdades sociais. O objetivo é mudar tudo para que o Brasil volte a ser como sempre foi: um país com um governo das elites, governado pelas elites, para as elites. O resto é história.

A bolsa cai, o dólar sobe e as panelas se calam

A bolsa fechou em queda. E o dólar subiu. Mais uma demonstração de que quando o golpe sofre um golpe os especuladores fogem. Tenho acompanhado diariamente o comportamento do mercado financeiro, do mercado de capitais e do câmbio. Segue sempre o mesmo padrão. Os indicadores e cotações caem em razão direta às derrotas dos golpistas. E vice-versa. Os jornalistas da grande imprensa ficam pessoalmente ofendidos. O mal estar fica visível. A oposição silencia. As panelas se calam. Alguém ainda tem alguma dúvida em relação a quem interessa o golpe de Estado, via impeachment ilegal, contra a presidente Dilma?

Mais um insulto à inteligência e ao senso de justiça

A lista da Odebrecht, cujos nomes de Aécio Neves e Eduardo Cunha, dentre muitos outros da oposição, nela estão presentes, correrá em sigilo por determinação de Sérgio Moro. Parece que o destino da investigação, sobretudo em relação a determinados nomes desta lista, será o mesmo da listagem do HSBC-SwissLeaks: evaporar. Por muito menos, diversos quadros do PT foram julgados e condenados antecipadamente pela opinião pública, historicamente influenciada e manipulada pela jornalismo seletivo e irresponsável da grande mídia. Enquanto isso, alguém sabe alguma coisa sobre a Zelotes? E a Sangue Negro, que investiga corrupção na Petrobras em tempos de FHC? Onde estão o zelo pelo interesse público, a implacável busca pela verdade dos fatos, a objetividade e a imparcialidade do jornalismo brasileiro, na sua versão "mainstream"? Ao que tudo indica, a tal da "imprensa livre" parece não ter nenhuma liberdade para noticiar certos tipos de escândalos.

Claro como a luz do sol do meio-dia

Uma das características da inteligência humana envolve a capacidade de perceber e fazer distinções nas intenções e motivações das outras pessoas. Quando uma lista contém nome de gente de todos os partidos, inclusive dos principais líderes da oposição, e nenhuma citação dos nomes de Lula e Dilma, essa lista imediatamente deixa de ser de interesse público, não ocupa as manchetes dos jornais e revistas da grande imprensa e, estranhamente, passa a ser protegida por sigilo de justiça em razão de determinação do juiz Moro. O que mais precisa acontecer para que a opinião pública, obcecada e manipulada pelos meios de comunicação de massa, tenha um surto de lucidez e honre minimamente a sua capacidade de inteligência?

segunda-feira, 21 de março de 2016

Cabeça de Botelho

Triste ver o que aconteceu em Belo Horizonte durante o espetáculo musical encenado por Claudio Botelho. Triste o ato desse sujeito, que desrespeitou seu público e desonrou a classe artística. Triste vê-lo, ainda por cima, se colocar como vítima ao se comparar com os atores que encenaram Roda Viva, em 1968, quando foram atacados por membros do CCC, no Teatro Oficina. Triste ouvi-lo invocar a liberdade de expressão e a democracia para destilar ódio, intolerância e racismo. É no calor da emoção que o ser humano revela sua verdadeira face. É muito fácil simular a virtude nas águas calmas da razão. Mas o mais triste é constatar que não se trata de um fato isolado. Uma parte significativa da população brasileira, em especial da classe média, ostenta, com todo orgulho, uma "cabeça" de Claudio Botelho.

domingo, 20 de março de 2016

O mínimo e indispensável para a sobrevivência da democracia

Os cidadãos de um Estado democrático de direito não podem tolerar assimetrias e seletividades nas ações da polícia federal, do ministério público e do poder judiciário. Tampouco podem tolerar ilegalidades cometidas em nome de nenhum tipo de operação policial ou judicial, pois toda investigação e todo rito processual, para serem válidos, também precisam obedecer aos trâmites legais. Sem esse mínimo de equidade e segurança jurídica, nenhuma democracia pode resistir.

Aos militantes do angelismo de esquerda: um grito de alerta

Para os que gritam "Qué se vayan todos" ou “Fora todos eles”, esquecendo-se de que, na prática, quando "todos" se vão, quem sempre fica são os Bolsonaros, os Cunhas e Aécios. Para a parcela purista da população que se diz "de esquerda", mas que se recusa a tomar posição nesse momento de ameaça à democracia brasileira, alegando que os governos Dilma e Lula seriam versões suavizadas do neoliberalismo internacional. Para os que afirmam com ceticismo cínico que tanto faz PT, PMDB ou PSDB pois "dá tudo na mesma". Para vocês, militantes do angelismo de esquerda, um importante aviso de alerta:

Se assim fosse, a bolsa não subiria e o dólar cairia toda vez que o governo Dilma e o PT são ameaçados.

Se assim fosse, PSDB e PMDB não estariam conspirando diariamente para tomar o poder e implementar o programa "Ponte para o futuro", uma aberração neoliberal que fará o país retroceder 30 anos.

Se assim fosse, a Fiesp (que hoje mais representa o rentismo do que a indústria nacional) não estaria em campanha aberta pelo golpe de Estado, juntamente com a Febraban e outras entidades representativas do empresariado brasileiro.

Se assim fosse, a rede Globo, junto com a revista Veja e similares, assim como toda a grande imprensa, não estariam manipulando informações diariamente para desmoralizar o ex-presidente Lula e derrubar o governo Dilma Rousseff.

Se assim fosse, banqueiros de investimentos e especuladores nacionais e internacionais não estariam procedendo a sucessivos ataques especulativos, agressivamente, desde que Aécio Neves perdeu as eleições em 2014.

Se assim fosse, as manifestações em favor do impeachment não seriam compostas apenas por setores que, segundo o Datafolha, possuem escolaridade e renda muito superiores ao restante da população.

Se assim fosse, o grande capital financeiro, as grandes corporações, as sete irmãs do petróleo e todas as entidades e "think tanks" que os representam não estariam pressionando congressistas ostensivamente para aprovar as pautas conservadoras (que a bancada do PT combate praticamente sozinha) e dar celeridade ao impeachment.

Se assim fosse, membros do judiciário e da polícia federal ligados ao PSDB e a setores do empresariado não estariam rasgando a Constituição Federal para prender Lula agora e processar Dilma após a conclusão do golpe de Estado.

Se assim fosse, nesses anos de governo Lula e Dilma, já estariam em vigência a lei da terceirização, a redução da maioridade penal, o fim do regime de partilha da Petrobras, a mitigação do trabalho análogo à escravo. A previdência já teria sido reformada e o salário mínimo congelado.

Se assim fosse, não haveria bolsa-família, nem cotas universitárias. As redes de proteção social estariam desmanteladas e as ONGs financiadas por bancos internacionais já teriam substituído as entidades do Sistema Único de Assistência Social. As universidades e hospitais públicos estariam nas mãos da iniciativa privada, a Petrobras privatizada, o Banco Central seria independente e os juros estariam ainda mais elevados.

Se assim fosse, os governos Lula e Dilma não teriam sido eleitos por quatro pleitos consecutivos em razão dos votos obtidos da parcela da população que não vota por ideologia mas por uma questão de inteligência prática, pelo simples fato de terem melhorado suas vidas. Basta olhar os mapas de votação por região geográfica.

Portanto, meu apelo mais sincero e urgente: esquerdas do Brasil, uni-vos!

sábado, 19 de março de 2016

Quando vale tudo para dizer nada

Ludwig Wittgenstein (1889-1951)
"Sobre aquilo que não se pode falar, deve-se calar." (Wittgenstein)

Quando nenhum conceito é mais utilizado com precisão, o preconceito fica sempre com a razão. Todo progressista vira comunista. Democrata vira esquerdopata. Luta contra a desigualdade vira atentado à liberdade. Defesa de inclusão social vira populismo radical

Quando fatos são desprezados, os ratos são inocentados. Tudo o que é noticiado não precisa mais ser comprovado. Delação vira condenação. O investigado que não é blindado, primeiro é encarcerado, depois é que é julgado, porque o ônus da prova, essa agora é nova, é dever do acusado.
Quando a irracionalidade domina, a discussão termina. O ódio contamina. O fascismo se anima. E a intolerância predomina.

A democracia mais uma vez ameaçada

A OAB declarou que vai apoiar o impeachment de Dilma Rousseff, um instrumento sem fundamentação jurídica, comandado por Eduardo Cunha, o maior canalha da República. E depois de uma manifestação popular expressiva em defesa da democracia, Gilmar Mendes suspende a posse de Lula e o entrega de bandeja a Sérgio Moro, numa noite de sexta-feira, após às 21h. Enquanto isso o PSDB continua blindado, conspirando explicitamente com o PMDB, para implantar, à revelia do voto popular, a agenda neoliberal conservadora da distopia chamada "Uma ponte para o futuro". O golpe está incrustado em todas as instituições brasileiras. Os monstros morais e os vampiros políticos detém o poder de fato. O que está acontecendo? Onde estão os juristas progressistas do país? A classe artística, os intelectuais, os economistas? Acabou o Estado de direito? Não há mais saída? É isso? Os movimentos de resistência não podem parar. A democracia está em risco.

quinta-feira, 17 de março de 2016

A FARSA se repetindo como HISTÓRIA


Invertendo Marx: a farsa se repetindo como história. Não nos esqueçamos de que a grande imprensa, em uníssono, chamou de revolução democrática o golpe militar de 1964. Agora, essa mesma imprensa, em 2016, chama esse novo golpe de procedimento jurídico-legal em favor da democracia.

Hora de resistir a todos os golpes

Foto Isabela Kassow
Embora o clima de opinião esteja opressivo contra todos aqueles que lutam pela democracia e o ambiente em todos os meios de comunicação de massa esteja favorável ao golpe de Estado ora em curso, não podemos deixar o ceticismo cínico nos contaminar. O Brasil é uma democracia consolidada. Isso custou sangue, suor e lágrimas de toda uma geração. Mas as lições da história são quase sempre esquecidas. A intimidação sempre fez parte das estratégias golpistas. A grande imprensa sempre protagonizou todos os golpes. E a corrupção sempre foi a bala de prata para comprar a opinião pública. Mesmo quando a estatura moral daqueles que a invocam se localiza abaixo do nível do mar. Batedores de panela sequer sabem por quem as panelas batem. Dominados discursam em prol dos dominantes. Hora de levantar a cabeça, resistir a todos os golpes e não ter vergonha de lutar pelo que vale a pena: o respeito ao Estado de direito e a permanência de um governo legitimamente eleito pelo voto democrático.

Toda ação seletiva contra a corrupção é um tipo de corrupção

Escultura de Ximo Lizana
Quando se trata de corrupção, e de qualquer outro tipo de crime, não existe um final, embora seu combate deva ser ininterrupto. Não faz sentido falar em fim do latrocínio, fim da sonegação fiscal, fim do estelionato, fim da extorsão, ou fim de qualquer outro crime. Assim, quem imagina que a corrupção no Brasil vai acabar, porque alguns casos de corrupção estão sendo investigados e eventualmente punidos, está desconectado da realidade do mundo. Portanto, em meio a tantas demandas sociais urgentes, aqueles que fazem da corrupção sua única agenda de protesto deveriam abdicar de suas vidas privadas para se dedicar em tempo integral, e de forma vitalícia, às suas indignações coletivas. O fato é que a corrupção, no Brasil e no mundo, sempre fez parte da condição humana, desde que se estabeleceram relações de poder. Quanto mais complexa uma sociedade, quanto mais esferas intermediárias houver entre a origem e a aplicação de recursos públicos e privados, quanto mais sofisticados e menos regulamentados forem os mercados, quanto mais hierarquizadas e burocratizadas as estruturas organizacionais, maior a incidência de casos de corrupção. Trata-se, portanto, de uma ação continuada, ininterrupta, que deve integrar várias instituições e agentes públicos e privados, incluindo, além das ações coercitivas, a implantação de avançados sistemas de informações, controles internos e auditoria, no sentido de prevenir, punir e desencorajar atos de corrupção, em todas as esferas de governo e nas suas interações com o setor privado. Entretanto, nenhuma ação anticorrupção terá valor, por mais avançada que seja no tocante aos meios técnicos utilizados, se a atuação não ocorrer de forma imparcial, apartidária e dentro dos limites legais. Toda ação contra a corrupção que seja parcial, seletiva, partidária e contaminada por interesses políticos, também é um tipo de corrupção. Com o agravante da máscara da hipocrisia. E mesmo quando as ações forem corretas, universais e bem sucedidas, jamais haverá um ponto final, a ser alcançado por um líder messiânico, que dará origem a um novo tempo, um admirável mundo novo, purificado e livre de contaminações demasiadamente humanas. Salvo se humanos forem substituídos por robôs. Programados também por robôs. O que seria a vitória final dos meios sobre os fins. E o fim da humanidade.

A grande imprensa se tornou uma fábrica de monstros morais

Kristallnacht
Foto: Arquivo Yad Vashem
"Há contradição na tolerância. Até que ponto se deve tolerar aquilo pode destruir a tolerância? Quando a democracia está em perigo, a tolerância pode se tornar suicida." (Edgar Morin)

A situação está gravíssima. Hoje na livraria Travessa de Ipanema, durante o lançamento do livro de um amigo, uma senhora se dirigiu ao nosso grupo com a pergunta: tem algum "petista" aí? Em seguida emendou que a solução para a economia do país seria o assassinato de Lula. Quando pedi para que a senhora se afastasse porque não estávamos interessados em assuntos que incitassem o ódio gratuito e a violência indiscriminada, muito menos nenhuma espécie de assassinato a quem quer que seja, a senhora respondeu que os brasileiros são muito medrosos. Que éramos um país de covardes. E saiu falando sozinha. Para completar, na fila do caixa, enquanto pagava o livro que havia acabado de adquirir, no guichê ao lado, uma outra senhora fazia discurso inflamado contra o bolsa-família, afirmando que a praia de Ipanema estava infestada de pobres que viviam do bolsa-família e que, em vez de trabalhar, passavam o dia vadiando na praia. Eis o retrato, aqui e agora, dessa fábrica de monstros morais que a grande imprensa e certos formadores de opinião estão transformando o Brasil. As ideias não são inocentes. Sobretudo quando divulgadas em meios de comunicação de massa. A continuar assim, muito em breve, seremos um país de autômatos fascistas. Vivendo novas noites de cristais.

segunda-feira, 14 de março de 2016

13 de março de 2016, o dia em que rezei por dias melhores

Foto da Estação Maracanã, por Isabela Kassow
Domingo, 13 de março de 2016. 10h da manhã, Copacabana, metrô Cantagalo. Destino: Central do Brasil e depois Hospital da Piedade, local onde meu pai está internado. Enquanto tentava acessar a plataforma do metrô, no interior da estação, deparei-me com uma multidão, em sentido oposto ao meu, cujo destino era a praia de Copacabana. Vestidos em verde e amarelo, aos berros e gritos raivosos de fora tudo e todos, exceto Moro e as instituições coercitivas do país, a multidão era um obstáculo a ser transposto com o mínimo de calma e racionalidade. Ao ler a faixa "In Moro we trust", decidi atravessar a massa homogênea e asséptica em oração silenciosa. Orei por dias melhores, pela minha mulher, por meus filhos, pela minha família, amigos, conhecidos, pelos brasileiros, pelo Brasil. Por um mundo melhor. De olhos cravados no chão, completei a travessia. No contra-fluxo, trens vazios. Na Central, tudo normal. No trajeto até Piedade, uma calma quase transcendental. Somente o som das pessoas vivendo o cotidiano de suas vidas. Gritos, muito mais suaves, só dos ambulantes que circulavam entre os vagões. Música para os ouvidos. Existem muitos brasis no Brasil. Meu pai passou bem o dia. Na volta, Copacabana estava deserta. A noite superou a aspereza do dia. E o amanhã fez nascer um outro dia. Segunda-feira, 14 de março de 2016. 

domingo, 13 de março de 2016

Uma ode ao ódio

Manifestações anti-Dilma no Brasil em 2015

Manifestantes CBF, paneleiros, indignados difusos, revoltados confusos, um misto de micareta, torcida organizada, rolezinho de rico em shopping center, marcha da família com Deus, jornada da juventude, militaristas, cosmopolitas, celebridades vazias, nacionalistas adoradores de Miami, todos entreguistas, meio heavy metal, meio MPB, com pinceladas de rock brasileiro e funk nacional, tudo misturado, tatuagens, selfies, drinks, cornetas, buzinas, gritinhos: uma verdadeira ode ao ódio. Na Zona Sul, o morro não desceu. Exceto para trabalhar, como de costume. No subúrbio do Rio de Janeiro, da Central do Brasil até Piedade, a mesma cidade. Hoje, só a "casa-grande" festejou.

sexta-feira, 11 de março de 2016

Quando o Ministério Público brasileiro encontra a filosofia alemã

Mesmo com o todavia / Com todo dia / Com todo ia / Todo não ia / A gente vai levando (Chico Buarque e Caetano Veloso)

A peça de denúncia contra o ex-presidente Lula, além de ser uma aberração jurídica e uma violência contra a democracia, é um atentado à língua portuguesa, à lógica da argumentação e à história da Filosofia. Um vexame para o Ministério Público brasileiro e para a classe jurídica do país. A ignorância em relação a alguma coisa comporta sempre duas ignorâncias: a própria ignorância e a ignorância da ignorância. Talvez a pior ignorância seja ostentar um conhecimento que não se possui. Depois dizem que ignorante é o torneiro mecânico. E eu que pensava que o livro "Princípios da filosofia do Direito", de Hegel (ou seria Engels?), era leitura trivial para a formação dos operadores do direito. Verdade que Marx escreveu em 1843 a "Crítica da filosofia do Direito de Hegel". Sem o Engels. Seria essa a causa da confusão? Pobres promotores! Muita leitura difícil, muito nome complicado, muita filosofia alemã. Afinal, ninguém está livre de errar. Mas a citação aleatória e fora de contexto de Nietzsche, grafado sem o "s", não tem desculpa. Como assim? Imperdoável. Agora já sabemos quando Nietzsche chorou. No dia em que o seu "Super-homem" foi virado do avesso e citado como argumento "racionalista" acerca da igualdade entre os homens, que por sua vez seria o fundamento moral (e a premissa maior) do pedido de prisão preventiva de Lula, traduzido no princípio constitucional da isonomia. Mesmo com todo Google, com toda a Wikipédia, com toda o apoio da classe média e da grande "media" (ou mídia para os menos cosmopolitas), essa gente vai errando. E vai levando o país para o buraco. Tem razão quem disse que o tipo de texto contido na peça de denúncia do MP contra Lula mais parece um artigo de Rodrigo Constantino. Será que, depois de ter sido demitido pela Veja, Constantino anda fazendo bico de "ghost-writer" para o MP? Ou a praga do estilo tosco está se propagando em múltiplas frentes?

quinta-feira, 10 de março de 2016

Os restos de tudo o que brevemente quase chegamos a ser

Ulysses Ferraz, no entorno do Teatro Oficina
Bixiga. São Paulo. Foto Jeniffer Glass
"O capitalismo é a celebração de um culto sem trégua e sem piedade. Para ele não há dia que não seja festivo no terrível sentido de toda pompa sacral, do empenho extremo do adorador." (Walter Benjamin)

Em breve os juros subirão ainda mais. Em breve, as leis trabalhistas serão flexibilizadas, a previdência reformada e o pré-sal transferido às Sete Irmãs. Em breve, a maioridade penal será reduzida, o financiamento privado de campanha oficializado, o trabalho análogo à escravo mitigado e o salário mínimo congelado. Em breve, as redes de proteção social serão desmanteladas e mais prisões serão construídas. Em breve, as ONGs financiadas por bancos internacionais substituirão as entidades do Sistema Único de Assistência Social. Em breve, universidades e hospitais públicos serão privatizados. Em breve, o superávit primário reinará soberano e o Banco Central será independente. Em breve, a Constituição Federal será rasgada. Em breve, só sobrarão os restos de tudo o que quase chegamos a ser. Em breve, seremos os escombros de uma construção sempre interrompida. Em breve, as grandes corporações sorrirão ainda mais. E a ditadura do mercado financeiro, em festa, prevalecerá. Outra vez, um golpe de Estado está derrotando o Brasil. Aniquilando a nossa sempre breve democracia.

domingo, 6 de março de 2016

O autoritarismo da pregação pós-política

Democracia em Atenas, Philipp Foltz  (1805–1877)
"A especificidade da democracia moderna repousa no reconhecimento e na legitimação do conflito e na recusa de suprimi-lo por meio da imposição de uma ordem autoritária." (Chantal Mouffe)

A pregação pós-política é um invenção pós-moderna para minar a democracia. O pós-político, no sentido de que as melhores alternativas estão fora das instituições políticas democráticas, é o cenário ideal para a direita reinar soberana. O mundo do voto anulado, da negação da política, da demonização dos políticos, da polarização moralista, da ecologia desconectada da inclusão social, da recusa da luta de classes, da suposta superação dos conceitos de "direita" e "esquerda" e, finalmente, da crença em uma outra arena, livre de conflitos, cosmopolita, consensual, e superior às instituições democráticas. Infelizmente esse mundo não existe. Ao menos por hora. Sobretudo no Brasil. Enquanto isso, uma parte da esquerda abre mão da "política". E a direita, fortalecida pela ausência de um contraponto politicamente relevante e democrático, se apropria do "político" em prol de seus interesses políticos elitistas e conservadores. É hora de a esquerda manter os olhos bem abertos. É preciso mais do que nunca se apropriar da esfera do político e da política. Antes que algum aventureiro oportunista o faça, como já o fez incontáveis vezes ao longo da história.

Aviso aos navegantes

Agradeço aos comentários críticos às minhas publicações. O confronto de ideias é sempre bem-vindo. Mas se é para dizer tudo que os articulistas do Globo, da Veja e similares já dizem todos os dias, há meses, que digam pelo menos de algum jeito mais original, com alguma marca pessoal. O formato que geralmente utilizam ou é transcrição dos veículos dominantes ou é composto de adjetivos que nada acrescentam ao debate, do tipo "esquerdopata", "idiota", "petralha", "fanático" etc. Isso também já está gasto. Se querem comentar, façam qualquer coisa que não seja no estilo redação de vestibular, em prosa moralista, como fazem Merval Pereira e Míriam Leitão diariamente em suas colunas. Isso eu já tenho acesso. Já conheço forma e conteúdo. Sei que há muita exaltação e emoção em suas vozes, entendo perfeitamente esse sentimento. Mas fiquem tranquilos. Não percam tanto tempo em reproduzir os conteúdos dos textos da grande mídia com tanta paixão. Estes conteúdos já estão em reprodução inercial. Já há gente demais falando a mesma coisa e do mesmo jeito nos principais jornais, em todas as televisões, nas rádios, nas ruas, nas redes sociais, botequins etc. O clima de opinião lhes é favorável. Vocês representam "a" opinião pública, esta que é divulgada nas pesquisas mais recentes. Suas vozes têm espaço na mídia, nas cartas ao leitor dos grandes jornais, onde quer que haja visibilidade, suas opiniões são muito bem recebidas. Vocês expressam o mais novo consenso do pensamento político brasileiro. São os bastiões das manifestações de massa, das indignações coletivas. Vocês são as vozes das ruas, a convergência das ideias em verde e amarelo. Representam a ideologia hegemônica. Há tudo menos solidão em vossas ideias. Não me julguem mal. Não se trata aqui de censura de conteúdo, apenas um pedido no campo da Estética e da Lógica. Em vossas linhas do tempo ou blogs publiquem o que bem entenderem, no formato que julgarem mais adequado. Mas a título de comentários críticos às publicações da minha linha do tempo e do meu blog, faço apenas este singelo pedido. Comentem em outro formato ou digam ao menos alguma coisa que não seja mera réplica do que já sai no Globo, na Veja e similares. E de preferência, se possível, comentem e critiquem o texto efetivamente publicado. Ataquem meus argumentos, rebatam minhas ideias, apontem falhas, contradições, mas não escrevam qualquer coisa que lhes venha à cabeça, sem nenhuma conexão com o texto objeto de crítica. Fica uma conversa de surdos. Sejam meus adversários intelectuais, não meus inimigos. Se não for possível atender ao meu singelo pedido, prossigam como de costume, sabendo apenas que não vou lê-los, por amor à brevidade, à beleza, ao precioso tempo e por desamor à redundância. Obrigado.

sexta-feira, 4 de março de 2016

O que a PF na casa de Lula mostra. Em resposta a Míriam Leitão.

Foto Marcelo Gonçalves/Sigmapress
Não, senhora Miriam Leitão, a Polícia Federal na casa de Lula não "mostra que país não tem intocável". Para que sua afirmação não fosse mais um insulto à inteligência coletiva da nação, teria de satisfazer às seguintes condições, cumulativamente: 

- Lula ser um intocável, o que não faz sentido, uma vez que Lula vem sendo investigado há tempos, muito antes de a condução coercitiva ter sido efetuada, o que consequentemente o exclui da condição de intocável; e
- Ainda que Lula fosse um intocável, o que, conforme demonstrado acima, não é o caso, Lula teria de ser o último dos intocáveis, o que também obviamente não seria o caso.


Seu artigo, senhora Míriam Leitão, é mais um exemplo de sofística a serviço de um partido que representa a hegemonia neoliberal, o capital financeiro e as grandes corporações, veiculada em uma mídia igualmente corporativa. Sua lógica é ideológica. Funciona apenas para os incautos. Se assim fosse, quantos verdadeiramente intocáveis não estariam presos ou sendo processados neste exato momento? O que seria uma contradição, pois então já não seriam mais intocáveis. O seu texto, senhora Leitão, nos conduz ao absurdo. Basta ver a quantidade de intocáveis à solta: Maluf, Cunha, Calheiros, Sarney, Daniel Dantas, os caciques do PSDB, os envolvidos na compra da emenda da reeleição, os grandes sonegadores da Zelotes, os mafiosos do cartel do metrô e dos trens metropolitanos de São Paulo, os integrantes dos escândalos de Furnas e do SwissLeaks-HSBC. A lista não é exaustiva, mas exemplificativa. Os exemplos são intermináveis. E atemporais. O fato é que ainda há uma infinidade de intocáveis no Brasil. O que a "PF na casa de Lula" mostra é apenas que Lula nunca esteve blindado. Que jamais foi um "intocável". Assim como nenhum outro membro de seu partido. Enquanto isso, senhora Míriam Leitão, os intocáveis de sempre continuam soltos e sequer são importunados, seja pela grande imprensa, seja pelo TCU, seja pelo TSE, seja pela Polícia Federal, seja pelo Ministério Público, seja pelo Judiciário. Muito menos pela senhora. É isso que a "PF na casa de Lula", além de demonstrar, escancara.