quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Maniqueísmo para os maniqueístas

As organizações Globo são, em seus editoriais, notadamente maniqueístas. Elegem sempre um suposto ''mal'' que se opõe a um suposto ''bem''. No jornalismo. Nas tramas das novelas. Nos programas de auditório. Para a Globo, Trump seria o "mal" e Hillary o "bem". Visão simplista. Binária. Maniqueísta. Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia. Interesses ocultos. E sobretudo muito jogo de cena. Mas o fato de a Globo ter elegido Trump como o representante do "mal" não o torna algo desejável por mera oposição a ela, como um subproduto das críticas que se possa fazer à linha editorial dessa empresa. Isso seria apenas mais um tipo de maniqueísmo, ainda que por uma via reativa. É descer tão raso quanto àqueles que se quer criticar. Se nos comprometermos com essa prática de sempre negar o que nossos adversários apoiam, independentemente dos conteúdos envolvidos, correremos o risco de nos colocar em situações embaraçosas com muita frequência. Imagine-se na década de 1940. E, por hipótese, o jornal ao qual você fosse um opositor ferrenho se pronunciasse contrário ao nazismo em um determinado editorial. Você se transmutaria em nazista só para contestá-lo? O mundo é muito mais complexo do que alinhamentos e desalinhamentos automáticos. Para o bem ou para o mal, a Globo é a Globo. Trump é Trump. Hillary é Hillary. Até porque, os EUA são a maior potência capitalista do planeta. Logo, sempre elegerão algum presidente pró-negócios. Amigável ao capital financeiro e aos senhores da guerra. Se Hillary é o status quo, Trump, por sua vez, não é contrário ao status quo, embora tenha sido isso que ele quisesse vender para fins eleitorais. Nas atuais circunstâncias históricas, o fato é que só podemos pensar nas eleições norte-americanas em termos de resultados que representem um mal menor. Jamais como algo que seja um bem em si mesmo.  Ao menos por hora. Portanto, deixemos o vício maniqueísta para aqueles que fazem do maniqueísmo sua moeda corrente. Podemos ser um pouco mais sofisticados do que isso. Moral e intelectualmente. Deixemos o maniqueísmo para os maniqueístas.