terça-feira, 18 de outubro de 2016

Interpretar ou não interpretar, eis a questão

A questão não é interpretar ou não interpretar um personagem "mau caráter". Não se trata disso. Até porque um ator não deve julgar moralmente os papéis que interpreta. Não deveria haver nenhum conflito ético para um ator interpretar personagens históricos que ficaram conhecidos por suas atrocidades. Grandes atores interpretaram Adolf Hitler. Mas tais filmes não retratavam o Führer como um herói idealizado, e sim como os fatos históricos o revelaram. Tampouco deveria haver conflito em interpretar vilões ficcionais. A questão se torna relevante quando se trata de interpretar um personagem que o ator (quem quer que seja ele) julga ser um canalha na vida real, mas que será retratado na dramaturgia como um modelo de comportamento ético e de ação justa. No caso da série sobre a Lava Jato, a ser produzida pela Netflix com a direção de José Padilha, por ser uma operação controversa, em que analistas políticos e jurídicos do mundo inteiro apontam haver fortes indícios de seletividade, parcialidade e violação de direitos humanos na operação, um ator minimamente consciente da influência que exerce sobre seu público, e de sua responsabilidade social, deveria, a meu ver, se recusar a participar do projeto, não só como protagonista, mas na pele de qualquer outro personagem do roteiro. Sobretudo quando se trata de um evento tão recente, e em pleno curso, cujo julgamento histórico ainda está para ser construído e depurado. Há uma diferença fundamental entre ficções puras e aquelas que pretendem retratar fatos reais. Um ator é livre para interpretar ficções. Mas quando aceita interpretar a mentira, como se verdade fosse, passa a fazer parte dela. Eis um questão ética revelante do nosso tempo.