terça-feira, 18 de outubro de 2016

Em busca da atuação perdida

James Dean, Nova Iorque - 1954
Se as pessoas balançassem a cabeça, revirassem os olhos, gesticulassem e gritassem tanto quanto as personagens das novelas da televisão brasileira, as interações humanas reais se tornariam insuportáveis. Viveríamos em estado de vertigem coletiva. Uma pena. Há excelentes atores e atrizes no mercado. No entanto, para satisfazer a um padrão mercadológico imposto ao longo do tempo por direções equivocadas, que confundem energia com afetação, e que não conseguem conciliar intensidade e sutileza, como se ambas fossem mutuamente excludentes, nossos atores e atrizes são obrigados a descaracterizar suas atuações para se manterem no mercado. Assim, abandonam as nuances, interditam os silêncios e temem o imprevisível, que dão vida e beleza à arte do ator. O conservadorismo triunfa. No limite, atuam tensos, desconcentrados e preocupados. A tensão é visível, sobretudo quando assistimos apenas às imagens. Sem o som. A experiência é bizarra. Os rostos se tornam máscaras. E de tão tensos, perdem a capacidade de escuta. Ouvem apenas a si mesmos. Deixam de ocupar o espaço com seus corpos e suas ações, para se preocuparem apenas com os resultados padronizados. A concentração coloca o ator no centro da ação. A tensão, por outro lado, desloca o ator. Da ação para a preocupação. É como se assistissem a si mesmo em tempo real, e se julgassem severamente a partir dos padrões determinados pelo mercado televisivo. No fim das contas, o exagero gestual e os maneirismos acabam funcionando como um mecanismo de defesa. A artificialidade se naturaliza. Diretores aprovam. O público se acostuma. O gosto é nivelado. A previsibilidade domina. Um produto é lançado. Um padrão é forjado. Uma estética é assimilada. E a arte do ator abandonada.