segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Estratégias de liberdade processual em tempos kafkianos

Cena do filme O processo, de Orson Welles,
baseado da obra de Franz Kafka
Se algum dia você sofrer uma acusação, justa ou injusta, por parte do MPF e, consequentemente, sua liberdade depender da apreciação técnica do Poder Judiciário, torça (ou se preferir, para estar em sintonia com nossos magistrados de Deus, reze) para que tenham provas abundantes contra você. Em maior número possível. Mesmo que forjadas. O importante é que haja provas torrenciais de sua suposta culpabilidade, pois elas serão a prova cabal de sua inocência. E a maior garantia da sua impunidade. Caso contrário, ou seja, na ausência de provas que o incriminem, você será preso imediatamente. Por convicção. E por inexistência de provas. Em outras palavras, a falta de provas será a prova de sua culpabilidade. E a justificativa de sua prisão. Ainda que você esteja em um centro cirúrgico acompanhando algum familiar. Ou esteja você mesmo em uma mesa de cirurgia pronto para ser operado. Portanto, não seja imprudente. Em tempos de brasilidade kafkiana, cujo crime mais grave que alguém pode cometer é ser inocente, e cuja garantia de liberdade mais confiável é ser comprovadamente culpado, não conte com o MPF ou com o Judiciário. Ande sempre com uma prova qualquer contra você. Se não houver nada contra você, invente. Pelo menos uma prova. Se não possui bens imóveis, forje uma escritura não declarada. E faça mal feito para que o crime de falsificação também fique evidente. A própria prova mal feita será uma prova de crime de falsificação. Pronto. Resolvido. Já conta como elemento de exclusão de culpabilidade. Mas cuidado. Se você possuir um talento nato para falsificação, de modo que o crime seja perfeito, esqueça. Invente outra coisa. Algo mais grosseiro. Mas você deve estar pensando que isso não é muito lógico, e que as últimas dicas são contraditórias. Bizarras. Exatamente. Essa é a ideia. Esqueça a lógica. Abandone a razão. Use a imaginação. Crie uma ficção. Quanto mais farsesca melhor. É convicção de inocência garantida. Agora, se você se enquadrar em pelo menos uma das quatro opções a seguir: pobre, preto, professor ou petista; então, nada o salvará.