quarta-feira, 10 de agosto de 2016

O ouro olímpico e a mão visível da inclusão social

Rafaela Silva - Medalha de ouro no judô
Olimpíadas Rio 2016
Rafaela Silva é uma força da natureza. Mas não foram as forças "naturais" do mercado que a levaram ao ouro olímpico. A vitória de Rafaela é fruto da combinação de seu talento natural (condição necessária mas não suficiente para brilhar em competições de alto rendimento), com a estrutura e o suporte garantidos por programas sociais atrelados ao esporte nacional. Não foram as grandes empresas, nem as ONGs financiadas por bancos e multinacionais que criaram as condições para que Rafaela conquistasse o ouro para o judô brasileiro. Tampouco os clubes esportivos frequentados pelas nossas meritocráticas elites. O talento de Rafaela foi elevado à condição de atleta medalhista em razão da existência de programas de inclusão social, como o Bolsa Pódio, justamente o tipo de política pública que o atual governo interino e ilegítimo que extinguir. Em países como o Brasil, onde há um enorme déficit de oportunidades para camadas mais carentes da população, o esporte pode funcionar como um meio legítimo e eficaz para promover mobilidade socioeconômica. O aprofundamento e a ampliação de programas como o Bolsa Pódio poderiam trazer benefícios significativos no combate à exclusão social. E levar o país ao status de potência esportiva mundial. O ouro de Rafaela é um belo exemplo de como a mão visível de políticas públicas includentes em combinação com o talento natural e o esforço pessoal podem dar resultados extraordinários. Infelizmente, esse não parece mais ser o caso. Com Michel Temer na presidência, caso seja confirmado o golpe de Estado, inverte-se o sinal. Revertem-se as prioridades. A tendência será o desaparecimento de todos os programas sociais, em diversas áreas, para muito além do esporte. Ao que tudo indica, a ponte para a exclusão e o abandono está quase concluída. Sob o silêncio conivente e a indiferença de milhões de cidadãos brasileiros. Simbolicamente, o ouro de Rafaela talvez seja o último sopro de esperança num país eternamente interrompido. País que parece ser sempre o país que poderia ter sido muito mais do que tudo aquilo que jamais chegou a ser.