terça-feira, 30 de agosto de 2016

A história do editorial golpista se repete 52 anos depois

O editorial de O Globo a respeito do depoimento de Dilma Rousseff é a peça final do quebra-cabeça do golpe. A vertente midiática. Mais uma vez, o editorialista demonstrou sua má-fé habitual ao utilizar o dispositivo da inversão das causas e efeitos. Afirma levianamente que Dilma não respondeu às acusações levantadas e que se limitava a utilizar sempre os mesmos argumentos em sua defesa. Ora, trata-se exatamente do inverso. Seus acusadores, não havendo base factual para sustentar suas acusações, repetiam exaustivamente as mesmas questões. Até o limite da tortura moral e psicológica. E ao repetirem as mesmas indagações, todas elas fora do escopo processual, obviamente exigiram respostas com as mesmas linhas argumentativas. O que causou as repetições argumentativas de Dilma Rousseff não foi a sua falta de argumentos, mas a falta de consistência da peça de acusação. As mesmas perguntas repetidas exaustivamente, por amor à coerência e à verdade, implicam as mesmas respostas, igualmente repetidas à exaustão. Uma simples questão de paralelismo.

Sem nenhuma cerimônia, o editorial tenta encobrir com sofismas grosseiros, em flagrante abuso da inteligência coletiva do país, o fato de que a tese de acusação também comete um vício lógico: salta da premissa maior diretamente para a conclusão, sem passar pela premissa menor, qual seja, a comprovação do fato. O instituto do Impeachment, ainda que previsto na Constituição Federal, sem um fato que lhe dê suporte é apenas um dispositivo legal teoricamente sem força para gerar efeitos jurídicos. O que está em curso é um processo de impeachment sem base fática. Sem um fato correspondente, não há enquadramento jurídico possível.

As supostas pedaladas fiscais e os créditos suplementares não são fatos passíveis de enquadramento como crime de responsabilidade. E se fossem, sequer foram comprovados. E ainda que fossem comprovados, o que definitivamente não foi o caso, não se comprovou o dolo, requisito fundamental para o enquadramento de crime de responsabilidade. Todos sabem disso. Os congressistas sabem. Os magistrados do STF sabem. Os barões da mídia e seus lacaios jornalistas também sabem. Os políticos de oposição ao governo democraticamente eleito sabem. Todos os golpistas sabem. O impeachment é apenas uma ficção jurídica utilizada como instrumento "legal" para legitimar um golpe de Estado que é, por definição, ilegítimo. O discurso pelo impeachment é, portanto, apenas artifício retórico para legitimar o ilegítimo. 

O mais triste é ver que a história de um editorial golpista se repete na grande mídia, 52 anos depois. Para se ter uma clara ideia, em 2 de abril de 1964 o editorial de O Globo aplaudiu o golpe militar: "Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares que os protegeram de seus inimigos". De acordo com o Palmério Dória e Mylon Severiano, que pesquisaram as manchetes na época do golpe, "a instauração da ditadura militar era recebida assim: 'Democratas dominam toda a nação' (O Estado de S. Paulo); 'Multidões em júbilo na praça da Liberdade' (O Estado de Minas); 'Lacerda anuncia volta do país à democracia' (Correio da Manhã).
Hoje e ontem uma grande parcela de leitores é influenciada cotidianamente por estes jornais. E seus similares. O Globo, a Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo, O Estado de Minas e as revistas Veja, Isto É, Época e congêneres, todos defendem os mesmos interesses: disseminar as ideologias neoliberais, homogeneizar a cultura, instaurar o medo generalizado e apoiar medidas de segurança pública cada vez mais severas. E de tempos em tempos, apoiar golpes de Estado. Até quando a sociedade aceitará desculpas insinceras e tardias de uma imprensa cada vez mais cínica, mercenária, demagógica e corrupta? Ou será que, na qualidade de público, como previu Joseph Pulitzer, já nós tornamos tão vis quanto a nossa grande imprensa?