sexta-feira, 1 de julho de 2016

O círculo mortal do neoliberalismo

"Todas as nossas ideias sobre a vida têm de ser revistas numa época em que nada mais adere à vida." (Antonin Artaud)

As políticas neoliberais provocam crises sistêmicas. Para combatê-las, de acordo com a retórica igualmente neoliberal, tais crises exigem políticas neoliberais ainda mais radicais, cujos efeitos agravam as crises existentes, além de criar novas crises e reciclar as velhas crises, que são todas utilizadas como pretexto para um neoliberalismo cada vez mais ortodoxo e implacável, numa espiral negativa sem fim. Uma cadeia causal autorreferente, acionada numa espécie de piloto automático, sem nenhuma legitimidade democrática. Os remédios econômicos pseudocientíficos, prescritos em doses cada vez mais fortes, são acionados por tecnocratas, a serviço de plutocratas, como se fossem uma inevitabilidade, uma lei da física, sem possibilidade de nenhum outro tipo de escolha exceto a aplicação de um receituário desumano, cujo único efeito é tornar os ricos mais ricos, os pobres mais pobres e a humanidade brutalizada, decadente, cada vez distante de si mesma. A doença que aniquila é ao mesmo tempo o remédio que mata. O neoliberalismo nos faz morrer várias vezes: da doença e do remédio. E depois de mortos, nos mata mais uma vez. E outra vez. Até o triunfo final da técnica e da eficiência, quando não haverá mais pobres para empobrecer, nem ricos para enriquecer, nem mortos para morrer. Um mundo pitagórico de números puros, em que o dinheiro se tornará o mestre do universo e se reproduzirá indefinidamente, exponencialmente, inexoravelmente, sem custos, sem regulações, sem barreiras, sem trabalho, sem lei, circulando inteiramente livre, pulsando pelas veias de sistemas eletrônicos alimentados por energia solar, perfeitamente integrados e autorregulados. O apocalipse será apenas mais um ajuste neoliberal.