segunda-feira, 11 de julho de 2016

A verdadeira doutrinação dominante no Brasil é a neoliberal

"Não há alternativa." (Margaret Thatcher)
O Judiciário pode ter partido. O Ministério Público pode ter partido. A Polícia Federal pode ter partido. A Polícia Militar pode ter partido. A grande imprensa pode ter partido. As indústrias podem ter partido. As instituições financeiras podem ter partido. As grandes corporações podem ter partido. As entidades patronais podem ter partido. As entidades de classe podem ter partido. As ONGs podem ter partido. Até a 'Escola sem partido' pode ter partido! E são sempre os mesmos partidos. Só as escolas não podem ter partido. No entanto, a atribuição de viés partidário às escolas é injusta. Se analisarmos as disciplinas que compõem o conteúdo do ensino médio (Português, Literatura, Matemática, Física, Química, Biologia, História e Geografia), não se pode afirmar que deem muito espaço para incutir visões de mundo a quem quer que seja. O ensino da História tende a ser meramente descritivo. A Geografia, na sua vertente humana, aborda questões gerais sobre meio ambiente, migrações, urbanização, atividades econômicas etc, de um ponto de vista mais instrumental do que efetivamente crítico. As escolas que ensinam Filosofia e Sociologia no ensino médio o fazem sob um ponto de vista mais histórico do que analítico. Em Filosofia é passada uma visão geral do pensamento ocidental, de Platão até mais ou menos Sartre, sem contudo aprofundá-lo. Trata-se de uma abordagem panorâmica, em que as questões filosóficas mais relevantes não são sequer abordadas em sala de aula. Em Sociologia, ainda que haja uma abordagem mais crítica, os conteúdos acabam por convergir com uma visão elitista da sociedade brasileira. Como bem ensina Jessé Souza, em seu livro 'A tolice da inteligência brasileira', nossos pensadores sociais, como Roberto da Matta, Raymundo Faoro e Sérgio Buarque de Holanda, acabam por reforçar uma visão conservadora e economicista da sociedade, em que o Estado é demonizado e a corrupção é a grande vilã, enquanto a eficiência dos mercados é vista como panaceia para a cura de nossos males sociais. Ainda que haja alguma exposição a um certo pensamento crítico associado às esquerdas aos alunos do ensino médio, isso se dá de maneira diluída, caleidoscópica e superficial. Um mero cisco no olho da visão de mundo hoje dominante nas instituições públicas e privadas, incluídas as nossas universidades. Assim, o pensamento hegemônico presente na chamada sociedade civil, extensivo a dominantes e dominados, não é o defendido pelo partido que alegam ser o partido da escola. O PT e demais partidos à esquerda. A ideologia dominante é a neoliberal. Conservadora. Elitista. E direitista. Independentemente de quem governe o país, a hegemonia do Estado, entranhada nas instituições públicas e privadas, é igualmente neoliberal, conservadora e elitista. Uma ideologia sorrateiramente naturalizada e vendida como uma inevitabilidade econômica. Ponto final. Se as escolas fossem de fato partidárias, com viés de esquerda, e influenciassem os alunos e alunas delas egressos, os partidos da preferência da sociedade civil escolarizada, representada sobretudo pela classe média, não seriam aqueles que de fato são: o PSDB e seus similares à direita. Os partidos das elites. Dos aspirantes a elite. E dos dominados pelas elites, mas que defendem as ideologias elitistas como se por elas fossem beneficiados, num claro exemplo de dominação simbólica. O que se pretende com o projeto 'Escola sem partido' é apenas oficializar, via projeto educacional explícito, uma doutrinação já dominante na sociedade civil há várias décadas: a ideologia neoliberal. O neoliberalismo, e todo o seu conjunto de prescrições meritocráticas, individualistas e excludentes, é a verdadeira doutrinação dominante no Brasil. O resto é conversa de Alexandre Frota com Mendonça Filho.