quarta-feira, 29 de junho de 2016

Uma ponte para a escola sem futuro

Se o projeto Escola Sem Partido for aprovado, na próxima redação do Enem a proposta será algo do tipo: "Citando exemplos do senso comum, destaque a eficácia da tortura como instrumento de defesa e garantia da Segurança Nacional. Desmistifique a problemática dos direitos humanos elaborando argumentos favoráveis à pena de morte e a redução da maioridade penal. Indique os benefícios da tortura e da violência policial na consolidação dos valores cristãos e no combate a comportamentos sexuais heterodoxos, visando a preservação da pureza da família tradicional brasileira e da formação de homens de bem e de mulheres honestas. Recatadas. E do lar. Finalmente, utilize seu repertório de vida para indicar exemplos em que uma suposta violência sexual foi provocada pela pessoa que afirma ser a vítima do alegado abuso. Não se preocupe com a coesão, a coerência, nem com articulação das ideias. Caso haja dificuldades na composição do texto, os temas acima não precisam ser encadeados sob forma de redação. Utilize frases soltas. Se preferir, elime as regras de pontuação. Erros gramaticais ou semânticos não serão considerados na avaliação. Ignore a lógica e qualquer outra ferramenta subversiva. Se tiver que citar algum tipo de ciência da natureza, evite a física quântica, dado seu teor de desagregação dos valores morais, civis, familiares e religiosos. Referências a Darwin e a teorias contrárias ao criacionismo serão passíveis de retratação pública e implicará anulação da prova. Atenção: referências históricas ou extraídas de qualquer área das ciências sociais e humanas ou, pior ainda, filosóficas serão desconsideradas sumariamente. Provas com citações da dupla Marx e Hegel [sic] serão incineradas em nome da tradição, da família e da propriedade. A redação será anulada e a prova confiscada. Dica: na página ao lado, há um conjunto de citações de Alexandre Frota, Lobão, Jair Bolsonaro, Olavo de Carvalho, Reinaldo de Azevedo, Rodrigo Constantino, Marco Feliciano, Emílio Garrastazu Médici, Jarbas Passarinho e Michel Temer para serem utilizadas como referência. A única mulher que poderá ser utilizada como citação é Janaína Paschoal. Cuidado. Desvios da temática e violações das instruções contidas nesta atividade poderão acarretar sanções criminais, com penas duras aos infratores na forma de decretos 'ad hoc'. Boa prova! Fé em Deus e pé na tabuada. Sim, sim, sim. Se Deus quiser, sua nota será 10. Brasil, um país só para nós. Ordem e Progresso". Oremos.