sábado, 25 de junho de 2016

Tristes trópicos

"O mundo começou sem o homem e terminará sem ele." (Claude Lévi-Strauss)

Em tempos de golpe de Estado, em que o país anda infestado de golpistas por todos os lados, cujo presidente interino e ilegítimo é um conspirador sem escrúpulos que ignora direitos humanos fundamentais e interrompe conquistas históricas das minorias antes esquecidas e excluídas; tempos em que o Estado é assaltado diariamente por uma quadrilha de políticos, magistrados, agentes públicos, empresários e jornalistas venais, famintos por mais dinheiro e poder; tempos em que índios são massacrados, mulheres humilhadas, estudantes agredidos, trabalhadores precarizados, enquanto especuladores presidem o Banco Central, entreguistas cuidam das relações exteriores e torturadores são homenageados em rede nacional; tempos em que a homofobia, a misoginia, o racismo e o machismo são exaltados em praça pública; tempos em que o orçamento público está sob o poder de tecnocratas sisudos e engravatados, representantes implacáveis do capital financeiro e das grandes corporações que, mesmo sem nenhum voto popular, ditam descaradamente os rumos das políticas públicas, sob a égide de uma ponte para um passado neoliberal, e destroem impunemente a educação, a cultura, a ciência, a saúde e todas as redes de proteção social, diante dos aplausos de uma classe média hipócrita, entorpecida e lobotomizada, e da conivência de uma imprensa cínica, entorpecente e lobotomizante; em tempos como agora, em que a nossa democracia tão jovem parece uma utopia envelhecida, nesses tempos de ódio, brutalidade e intolerância, o Brasil perdeu o sol, o som, o céu, a bossa, a ginga, a graça, a onça, a dança, a esperança. E a alegria. Hoje, nessa noite noite fria de inverno sem fim, somos um país triste.