domingo, 12 de junho de 2016

Seremos todos colaboracionistas?

Vichy - Encontro de Petain com Hitler em 1940
Não é possível que o governo ilegítimo e golpista de Michel Temer já tenha completado um mês. E passado incólume. Há muita mobilização nas ruas, mas todas dispersas e esparsas. Muitas delas mais se assemelham a uma festividade, uma confraternização inofensiva, do que um movimento avassalador de resistência e (re)existência diante de um golpe de Estado. Não é possível que isso é o máximo que podemos fazer para defender o país de um golpe que deixou o mundo inteiro perplexo, exceto nós brasileiros. Por muito menos, lutamos muito mais. Um jogo de futebol, uma desavença no trânsito, um troco errado, um serviço mal feito, um produto defeituoso. Esbravejamos diante das ninharias do cotidiano, mas somos inertes para defender a democracia do nosso país. O governo Temer, que no limite é o governo de Eduardo Cunha, juntamente com seu ministério entreguista e sociocida de ladrões; a quadrilha de políticos que lidera o golpe no Congresso Nacional; os respeitáveis seguidores de Pilatos do STF; essa imprensa cínica e hipócrita que eleva Temer à qualidade de "guerreiro" e "unificador" do país; os empresários rentistas mais preocupados com suas aplicações financeiras e com o câmbio favorável para suas viagens de turismo predatório; a classe média alienada e estúpida que se deixa usar e abusar apenas para se sentir parte de uma classe "distinta" de seres supostamente superiores e merecedores dos privilégios históricos que, de tão arraigados, já estão naturalizados; todos os elementos desse conjunto intraduzível em uma única expressão permanecerão esbofeteando diariamente a nossa cara, pisando e cuspindo nela, gritando aos quatro ventos toda a ilegitimidade que transborda de suas entranhas, mediante uso de violência material e simbólica, com escárnio e tranquilidade cotidianas, inumanas, que só a total ausência do direito, da ética, da empatia e da solidariedade humana pode assegurar, enquanto assistimos a tudo isso quase que passivamente? O fato é que o golpe, além de já ter sido dado, está passando. E, se continuarmos letárgicos e festivos, passará. Escrevo diariamente e sinto-me impotente. Inofensivo. Triste. Deprimido. Envergonhado. Um dia a mais deste governo Temer e vou começar a achar que somos todos coniventes com esse ataque explícito à nossa democracia. Um dia a mais e já estaremos todos anestesiados e ocupados com nossa épica vida pessoal. Um dia a mais e estarei convencido de que somos colaboracionistas do golpe.