sábado, 18 de junho de 2016

Não há imprensa livre no Brasil

Glenn Greenwald, Monique Figueira e David Miranda
OcupaMinc RJ/ Foto Isabela Kassow
O destaque do jornal O Globo de hoje é o corte de 11 milhões de reais do governo Temer em publicidade a blogs políticos. A cifra é irrelevante em termos de orçamento da União e contabilidade pública. A decisão não tem nada a ver com corte de gastos, mas se trata apenas de retaliação por serem blogs com um viés ideológico contrário aos interesses corporativos que este governo interino representa. Trata-se do mesmo critério utilizado para fechar a TV Brasil. Medo da pluralidade de opiniões. Estratégia de controle da informação e disseminação do pensamento único, via fortalecimento da imprensa corporativa. Enquanto ninharias administrativas são louvadas nas manchetes dos jornais, Temer continua afogado em escândalos. Assim como Renan, Jucá, Sarney, Cunha, Serra e Aécio. E praticamente todo o ministério de Temer. O ministro da Educação Mendonça Filho, por exemplo, acusado de receber propina, está a um passo de cair. E o destaque do jornal é a atuação "corajosa" de Temer no corte de gastos irrisórios. Corajoso seria cortar verba de publicidade junto às grandes corporações da mídia, que são cartéis institucionalizados. Ousado mesmo seria regulamentar um setor que cresceu de forma concentrada e ilegal, sob o guarda-chuva de conchavos e privilégios firmados à época da ditadura militar. Temer, além de ser um Robin Hood às avessas, que retira dos pobres para distribuir aos ricos, é também um Davi invertido. Em vez de derrubar os gigantescos conglomerados para tornar o mercado mais competitivo e eficiente, utiliza o poderio do Estado para esmagar os pequenos e aumentar a concentração do capital. Austeridade para desfavorecidos e prodigalidade aos plutocratas. Capitalismo selvagem para pequenos negócios. Precarização para a classe trabalhadora. Favorecimentos e subsídios para grandes corporações. Juros máximos e tributação mínima para o capital financeiro. E as organizações Globo, em conluio com o restante da grande mídia, fazem o papel de dar legitimidade a um governo espúrio, mediante uma narrativa embaraçosamente mentirosa. E interessada. As grandes corporações da mídia são parte da infraestrutura (economia) e da superestrutura (ideologia). Talvez seja o setor em que ambas as características, infraestrutura e superestrutura, estejam mais claramente presentes. Portanto, além de ser um negócio como outro qualquer, que depende de vendas e lucro, é também parte interessada no que publica. Mas possuem o álibi da objetividade e da neutralidade jornalística, o que mascara, como em nenhum outro setor, o fato de serem agentes autorizados para falar dos próprios interesses. Imagine se a indústria do tabaco fosse o agente autorizado para formar opinião sobre os efeitos do vício de fumar? É o que acontece de forma ainda mais acentuada no Brasil, cuja mídia corporativa é controlada por apenas cinco famílias. Um exemplo clássico de oligopólio. E de manipulação. Em resumo, não temos imprensa livre no Brasil.