quarta-feira, 22 de junho de 2016

Jair Bolsonaro: a personificação da cultura de estupro no Brasil

"Ela não merece porque ela é muito ruim, porque ela é muito feia. Não faz meu gênero. Jamais a estupraria", afirmou Jair Bolsonaro acerca da deputada federal Maria do Rosário. A frase fala por si. Mas há quem a interprete como uma declaração em repúdio ao estupro. As páginas nas redes sociais de grupos como Revoltados Online, Movimento Brasil Livre e Vem pra Rua Brasil estão publicando libelos a favor de Bolsonaro e invocando a técnica da interpretação de texto da língua portuguesa como forma de argumento em defesa do parlamentar. Ora, basta ler a frase com um mínimo de atenção para concluir que só há uma interpretação possível: se Maria do Rosário fosse "boa" e "bonita", na opinião de Bolsonaro, e fizesse o "gênero" dele, então ela mereceria ser estuprada. O estupro, portanto, estaria justificado caso ele considerasse a mulher em questão atraente. Ao contrário do que afirmou Rachel Sheherazade, em um vídeo em defesa a Jair Bolsonaro, é evidente que o termo "jamais" não foi utilizado porque Bolsonaro não a estupraria jamais, por uma questão de princípios éticos e morais, mas serviu apenas para dar ênfase aos atributos físicos de Maria do Rosário que, de acordo com a frase do parlamentar, jamais estariam à altura de ser estuprada por ele. A frase mostra claramente que a negação do estupro não se refere à figura do estupro em si, mas aos supostos atributos negativos de Maria do Rosário. Da frase de Bolsonaro, conclui-se, portanto que, na opinião do deputado, há dois tipos de mulheres: as "merecedoras" e as "não merecedoras" de estupro. As primeiras, seriam as que ele, Bolsonaro, considerasse bonitas e atraentes. As segundas, as não merecedoras, seriam as "feias", ou seja, aquelas sem os atributos físicos que "justificassem" um estupro. E, finalmente, o tom da frase e o emprego da palavra "merece" dá a entender que Bolsonaro julga que ser estuprada por ele é algo como um mérito para uma mulher, um benefício, algo a ser merecido. Uma questão meritocrática. Como se tratasse de um favor que ele estaria fazendo às mulheres. Não há dúvidas de que a frase de Bolsonaro é uma apologia explícita e criminosa ao estupro. Um exemplo repulsivo da cultura de estupro no Brasil, mas que tantos ainda insistem em negá-la. Uma democracia não pode tolerar parlamentares que fazem apologia à tortura, à ditadura, à homofobia e ao estupro.