sexta-feira, 10 de junho de 2016

A história não blinda ninguém

Michel Temer e Eduardo Cunha
Não se trata aqui de defender Delcídio do Amaral. Mas o que chama atenção é o fato de Delcídio ter sido preso sumária e imediatamente por fatos muito menos contundentes do que os que implicaram Renan, Sarney, Jucá e, sobretudo, Cunha. Sem mencionar Aécio Neves, cujo esquema todo mundo conhece. Membros do PT são sempre mais culpados, ainda que seus crimes sejam menos graves. Ou mesmo quando não há crime que os incrimine, são tratados como criminosos, a priori. Basta a suposição de culpa para que haja encarceramento iminente. Por outro lado, o restante do universo político é inocente até que se prove, mil vezes, o contrário. E ainda assim, não há garantias de punição, mesmo quando todos os indícios se confirmam a posteriori. Tal diferença de tratamento se verifica tanto nas instituições públicas, como o STF e o MPF, quanto nas instituições privadas, como o cartel das empresas que compõem a imprensa corporativa. Os exemplos são incontáveis. Gilmar se indignou com os vazamentos. Interessante que os vazamentos anteriores nunca o incomodaram. Agora se tornaram ofensa pessoal. Os jornais e revistas, por sua vez, fulminaram Delcídio em suas capas por várias semanas consecutivas. E agora, a despeito de todas as revelações que implicam a quadrilha de Cunha e Temer, as capas da grande imprensa são sempre dedicadas aos supostos "escândalos" envolvendo a presidente Dilma Rousseff. Até as despesas com o cabeleiro contratado no período em que Dilma estava sofrendo os efeitos colaterais do tratamento de um câncer se tornaram a mais nova obsessão do 'rato de redação' Merval Pereira. A narrativa é tão surreal que, mesmo depois de as gravações indicarem claramente que 'Temer é Cunha', ou seja, que ambos estão implicados no mesmo projeto criminoso e golpista, os jornais chegaram ao cúmulo de louvar a "imparcialidade" de Temer diante das acusações do ex-presidente da Câmara. Segundo os jornalões  e revistinhas, Temer agiu "corajosamente" ao afirmar que não intervirá no processo de cassação de Cunha. Ora, não seria a 'não intervenção' uma obrigação de qualquer presidente, interino ou não? Qual seria o valor da afirmação de Temer? Nenhum. Até porque sabemos que é apenas uma declaração vazia e protocolar, sem nenhum conteúdo valorativo, em um momento em que todos os golpistas estão nus. Trata-se de mais um insulto a nossa inteligência coletiva. Nesse triste momento em que vive o país, em que a democracia e o povo brasileiro estão sob ataque letal, a seletividade e a blindagem institucionais têm sido a regra. De Moro a Merval. De Janot a Noblat. De Gilmar a Bonner. Há um conjunto de ações difusas, mas convergentes, lideradas por criminosos e oportunistas que se amparam mutuamente por dispositivos de blindagem e proteção recíprocas, cujo único objetivo é destruir todas as bases de um governo eleito democraticamente e dar passagem aos interesses do capital financeiro e das grandes corporações. Mas como já se afirmou por aí, a história não blinda ninguém. Os golpistas da República serão cuidadosamente selecionados, lembrados e expostos pela história. Narrados em prosa e verso. O golpe de Estado de 2016, com seus protagonistas e coadjuvantes, jamais será esquecido.