segunda-feira, 9 de maio de 2016

O golpe está nu

Foto Isabela Kassow
Quais os limites morais da hipocrisia coletiva de uma nação? Há momentos em que as obviedades parecem tão obscurecidas que precisam ser explicitadas. Ainda que permaneçam óbvias. Vamos a elas. O instituto do Impeachment, ainda que previsto na Constituição Federal, sem um fato que lhe dê suporte é apenas um dispositivo legal teoricamente sem força para gerar efeitos jurídicos. Isso todos sabemos. O que está em curso é um processo de impeachment sem base fática. As supostas pedaladas fiscais e os créditos suplementares não são fatos passíveis de enquadramento como crime de responsabilidade. Sem um fato correspondente, não há enquadramento jurídico possível. Isso todos sabemos. Os congressistas sabem. Os magistrados do STF sabem. Os barões da mídia e seus lacaios jornalistas também sabem. Os políticos de oposição sabem. Todos os golpistas sabem. O impeachment é apenas uma ficção jurídica utilizada como instrumento "legal" para legitimar um golpe de Estado que é, por definição, ilegítimo. O discurso pelo impeachment é, portanto, apenas artifício retórico para legitimar o ilegítimo. Sabemos também que nenhum golpe de Estado é denominado "golpe" pelos golpistas. Golpistas não se apresentam como golpistas. Faz parte da lógica de todo golpe a artimanha de se passar por processo revolucionário, quando se utiliza a força; ou por procedimento legal, quando se utiliza justificativas jurídicas. Isso também todo mundo sabe. Que os mentores e executores do golpe não possuem idoneidade moral para propor o impedimento de quem quer que seja também não é novidade. Que os golpistas são, em sua maioria, réus ou estão implicados em processos e investigações penais também é público e notório. E que vários interesses difusos dotados de poder econômico convergiram para que a presidente eleita seja deposta, Lula seja preso e o PT destruído, também ficou evidente desde a derrota de Aécio Neves em 2014. Tudo está às claras. Não há conspirações subterrâneas. Não há nada mais a ser desvelado. Não há mais o que revelar. Está tudo aí. Pisado e repisado. Todos sabemos. O mundo inteiro sabe. Mas no Brasil de hoje ocorre um fenômeno curioso. Os fatos perderam valor. O que vale não são os fatos, mas o poder dos grupos que detêm o poder de fato. E o que surte efeito advém não dos fatos, mas das narrativas dos poderosos de plantão. E de seus capatazes intelectuais. O óbvio se torna obscuro. No Brasil de hoje, um golpe de Estado é legal. Constitucional. Moral. Ético. É qualquer coisa que os golpistas engravatados afirmarem que é. Simples assim. Diante de tamanho obscurantismo dotado de poder, nada mais resta a debater no campo da esfera pública. Nem a desvelar. Ou esclarecer. O golpe está nu. A verdade que todos sabemos não tem valor prático nenhum. Não serve para nada exceto para angustiar. Entristecer. Amargurar. Revoltar. Tornou-se inútil analisar os fatos. Argumentar. Raciocinar. Criticar. Ficamos reduzidos a exercícios escolásticos inócuos. Passamos o tempo a decifrar obviedades. Exercitamos a lógica em vão. Quando a hipocrisia se transforma em valor social dominante, a cegueira e o auto-engano coletivo se convertem em modo de vida. O ceticismo cínico entra em nossos ossos. Seca nossos cérebros. Endurece nossos corações. Esgota nossas forças. Tudo o que sobra é a disposição de lutar para honrar as conquistas democráticas consolidadas com o sacrifício de tantas gerações. Se a razão nada mais vale em um Estado já dominado pela exceção, o que resta é a fé. Fé na ação. Na luta. E com as forças que restam, ocupar o Brasil. Uma luta que, independentemente dos resultados alcançados, vale por si.