quinta-feira, 26 de maio de 2016

O que mais o golpe precisa ser para ser golpe?

Se o golpe é tão explicito a ponto de os envolvidos falarem abertamente sobre ele, como ficou demonstrado nas gravações recém divulgadas, e ainda assim há tantos que insistem não existir golpe nenhum, fico imaginando, em minhas reflexões, o que mais precisaria ser para ser golpe? Essa pergunta ingênua obviamente não tem resposta. Golpistas, diretos e indiretos, articuladores e executores, e apoiadores do golpe em geral, seja em razão de ignorância, má-fé ou de interesses escusos, jamais assumem que um golpe é golpe. Incrível como a história se repete. Dessa vez como tragédia farsesca. Em 1964, os jornalões também não admitiram o golpe militar. Para se ter uma clara ideia, em 2 de abril de 1964 o editorial de O Globo chegou a comemorar o golpe: "Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares que os protegeram de seus inimigos". De acordo com o Palmério Dória e Mylton Severiano, que pesquisaram as manchetes na época do golpe, "a instauração da ditadura militar era recebida assim: 'Democratas dominam toda a nação' (O Estado de S. Paulo); 'Multidões em júbilo na praça da Liberdade' (O Estado de Minas); 'Lacerda anuncia volta do país à democracia' (Correio da Manhã)". A história depois corrige as distorções do calor da hora. Mas o tempo, que tudo destrói, dilui as responsabilidades. Até o ponto de dissolvê-las completamente. Vidas são perdidas, destruídas, aniquiladas. No futuro, chegam as nota de desculpas insinceras. Sempre atrasadas. Mas quem se importa. O tempo é outro. O que passou, passou. Basta um simples ato de hipocrisia protocolar para tudo seguir seu curso normal, como se nada tivesse acontecido. As organizações Globo, por exemplo, levaram 50 anos para admitir que x é igual a x. Ou seja, que o golpe de 1964 foi um golpe. Entre paneleiros, essa gente séria que se leva a sério, há os que viverão até o final de suas vidas convictos de que não houve golpe. Tudo foi culpa do PT, dos "comunistas", dos "bolivarianos", dos "esquerdopatas". E do Lula. O auto-engano é um sistema de vida.