quarta-feira, 18 de maio de 2016

Macartismo versão brasileira

Joseph McCarthy, 1954
Reinaldo Azevedo escreveu recentemente em seu blog: "assim que 'Aquarius' estrear no Brasil, o dever das pessoas de bem é boicotá-lo. Que os esquerdistas garantam a bilheteria". Quando alguém formula uma frase com a expressão "pessoas de bem", supondo a si mesmo, e a algum suposto grupo de benfeitores, superioridade moral, trata-se de uma postura, no mínimo, duvidosa. Qual a legitimidade de alguém que atribui a si mesmo, e a seus similares, uma espécie de superioridade moral em relação às demais pessoas, que seriam supostamente as pessoas do mal? E sob quais critérios? Além do maniqueísmo reducionista, Reinaldo Azevedo prega a intolerância cultural. Num país em que o cinema nacional é historicamente tão desvalorizado, em detrimento de produções estrangeiras, uma afirmação desse teor é desoladora. Em qualquer país do mundo, o incitamento ao boicote de um filme que representa o país em um importante festival internacional de cinema teria causado reação vigorosa por parte da classe artística. Ligadas ou não ao setor audiovisual. Mas a repercussão foi morna. Quase nenhum artista se sentiu atingido. Interessante ver que poucos artistas de peso, com visibilidade e capital cultural relevante no país, têm tido a coragem de enfrentar, direta e duramente, essa gente que vive para destruir, odiar e sabotar todas as manifestações culturais que não se conformam à visão de mundo representada pela ortodoxia dos mercados. Uma visão predadora da cultura, agora encampada oficialmente pelo governo interino de Michel Temer. Claro que há notáveis exceções entre os artistas. Mas as exceções confirmam a regra. Talvez o medo de comprometer suas carreiras e reputações perante o mercado já esteja calando a voz de muitos. O silêncio nessas horas é um porto seguro. Tudo indica que um tipo de macartismo, em sua versão brasileira, omissivo, silencioso e autoinfligido, veio para ficar. Ao menos por algum tempo.