quarta-feira, 25 de maio de 2016

Meditações metafísicas em tempos de golpe de Estado

René Descartes (1596-1650)
“Suporei, pois, que há não um verdadeiro Deus, que é a soberana fonte da verdade, mas certo gênio maligno, não menos ardiloso e enganador do que poderoso, que empregou toda a sua indústria em enganar-me." (René Descartes)

Será que algum um gênio maligno está me pregando peças sobre o que está acontecendo com o Brasil nesses últimos dias? Ou será tudo isso um grande pesadelo do qual não consigo acordar? Ou será talvez que estou em meio a algum acesso de loucura, que me levou ao delírio, e estou testemunhando as maiores barbaridades da história do país devido a algum tipo de alucinação? E essas pessoas, Temer, Cunha, Renan, Serra, Gilmar, Meirelles, Jucá, Alexandre Frota, a horda de ministros investigados, e demais entes associados a esse tenebroso governo interino? Essa gente existe mesmo? São seres humanos? Se existem, então formam um único e bizarro objeto composto, uma espécie de entidade golpista coletiva? E as medidas anunciadas nos últimos dias pelo governo Temer são de verdade? As gravações desmascarando um golpe de Estado, sem que nenhuma instância do judiciário tome alguma providência, são reais? Está tudo às claras, o golpe está nu, e tudo continua seguindo seu curso normal, com a conivência das instituições públicas e privadas, e dos setores médios da população? A grande imprensa continua apoiando um golpe de Estado, e colaborando com ele, impunemente? E quase ninguém reage? É isso mesmo, ou estou à beira de um colapso mental? Se alguém mais estiver se sentindo assim, dessa maneira angustiante, oscilando entre o terror, o temor e o tremor, por favor me avise. Estou no limite de acreditar que há algo de muito errado com as minhas impressões, com minhas ideias ou com a minha razão. Ou com todas elas juntas. Sei que caso alguém se solidarize comigo, ainda assim não terei garantias de que não se trata de uma peripécia de algum gênio maligno, ou de um pesadelo sem fim, ou de uma alucinação insuportável. Não tenho a ilusão de desvendar o mistério. Jamais saberei. Mas se souber que alguém, além de mim, também está vivenciando esses tempos com um estado estado de espírito semelhante ao meu, isso já será reconfortante. No mínimo, meus devaneios serão menos solitários.