terça-feira, 10 de maio de 2016

A pedagogia da anulação da anulação do impeachment

Marlon Brando em O poderoso chefão
"Eu vou lhe fazer uma oferta que você não pode recusar." (Don Corleone, em O poderoso chefão)
A anulação relâmpago do impeachment pelo deputado Maranhão serviu para evidenciar, ainda mais, três fatos pedagógicos: de imediato, a reação hiperbólica da grande mídia, impressa e televisiva, que tomou a anulação como ofensa pessoal, e saiu a disparar editoriais com argumentos tão frágeis quanto desesperados. A revolta indisfarçável dos jornalistas extrapolou todos os limites da razoabilidade e confirmou a escandalosa parcialidade do jornalismo corporativo brasileiro. A grande mídia está diretamente implicada no golpe. Seus porta-vozes são golpistas até o osso. Uma obviedade, certamente. Mas que sempre causa desconforto ao assistir. Na sequência, testemunhamos a gigantesca pequenez de Renan Calheiros. Sua (in)ação foi uma desoladora amostra do que virá pela frente durante a votação do impeachment no Senado. Nada menor que um homem público rebaixado a mero lacaio das grandes corporações, sem nenhum compromisso com a democracia, e a serviço de um partido igualmente corporativo, o PSDB, ao qual sequer pertence. E finalmente, o caráter mafioso dos políticos envolvidos com o impeachment, que rapidamente agiram para que Maranhão voltasse atrás e anulasse a anulação do impeachment no mesmo dia em que havia acolhido o pedido do AGU. Ninguém saberá ao certo o que se passou nos bastidores, mas nenhum político, em sã consciência, agiria de tal maneira que, em menos de 24 horas, conseguisse ser execrado, ridicularizado, hostilizado e massacrado por ambas as partes: defensores e opositores do impeachment. Não é difícil especular que Maranhão provavelmente recebeu uma oferta, no melhor estilo Don Corleone, a qual não poderia recusar.