quinta-feira, 7 de abril de 2016

Quando a presunção de inteligência se converte em vaidade retórica

Pintura de Pieter Isaacsz
Rosenborg Castle (1620)
É muito comum em certos debates acontecer de um dos debatedores, em lugar de apresentar argumentos que sustentem sua posição, simplesmente apontar a falta de inteligência de seu adversário como arma retórica. Em vez de argumentar e contra-argumentar, julga as credenciais intelectuais do oponente, sem contudo apresentar suas próprias capacidades intelectivas. Interessante porque atribuir falta de inteligência a alguém pressupõe a presunção de superioridade intelectual do sujeito desta atribuição em relação ao seu objeto. Se não houvesse tal presunção, como aquele que se julga mais inteligente que o outro teria condições de distinguir a inteligência da sua falta? Fica claro, então, que o julgador presume ser dotado de uma inteligência superior a de seu opositor. No entanto, esquece o julgador que qualquer julgamento, para ser legítimo, requer um mínimo de imparcialidade e distanciamento por parte de quem julga. Caso contrário, haverá sempre uma manipulação traduzida em um julgamento duplo: o do outro, desfavorável; e o de si mesmo, favorável. Em outras palavras, para que qualquer juiz seja legítimo, não pode fazer parte da disputa. O conflito de interesses é evidente. Logo, trata-se de um juízo desprovido de valor. Há, portanto, além de um julgamento duplo, uma nulidade dupla: uma referente ao argumento, que inexiste; e a outra relativa ao julgamento, que é viciado. No final das contas, sequer há debate. Só ruído linguístico. E vaidade retórica.