sábado, 30 de abril de 2016

A grande imprensa e o mundo encantado de Temer

De repente, mais do que de repente, o jornalismo catástrofe deu lugar ao mundo encantado de Temer. Não existe mais crise. A Lava-jato acabou. Moro sumiu. Dilma não existe mais. A grande imprensa fabrica o mundo que lhe convém. Enquanto não houver uma democratização da mídia seremos reféns de suas manipulações grosseiras. Quando o capital se concentra em setores que deveriam ser competitivos o poder é deslocado para o fornecedor. O consumidor é um mero tomador de serviços. Na imprensa, esse poder é tão nocivo que pode servir como arma fundamental na derrubada de governos democraticamente eleitos. A imprensa se torna um instrumento a serviço das elites, sendo ela mesma parte do setor ao qual vive de servir. Portanto, serve a si mesma. As grandes corporações da mídia são parte da infraestrutura (economia) e da superestrutura (ideologia). Talvez seja o setor em que ambas as características, infraestrutura e superestrutura, estejam mais claramente presentes. Portanto, além de ser um negócio como outro qualquer, que depende de vendas e lucro, é também parte interessada no que publica. Mas possuem o álibi da objetividade e da neutralidade jornalística, o que mascara, como em nenhum outro setor, o fato de serem agentes autorizados para falar dos próprios interesses. Imagine se a indústria do tabaco fosse o agente autorizado para formar opinião sobre os efeitos do vício de fumar? O que testemunhamos agora é uma grande mídia no lamentável papel de voz legitimadora de um golpe de Estado ilegitimável. Um golpe é sempre ilegítimo. Não há como legitimar o ilegítimo. E não restam dúvidas de que esse golpe de Estado será objeto de estudos por historiadores e cientistas políticos como um dos mais cínicos e escancarados da história das democracias modernas. O que certamente virá acompanhado de uma nota de desculpas por parte da imprensa corporativa. Já conhecemos esse filme. Assistir a tudo isso novamente é angustiante. Não há como descrever tamanha tristeza.