quarta-feira, 13 de abril de 2016

Adeus à razão

O valor de pi pertence aos números irracionais
O argumento de que Dilma Rousseff, ainda que não seja culpada de crime de responsabilidade, deveria ser impedida porque perdeu as condições de governar, além de ser uma justificativa viciosamente circular, encerra uma inversão causal. Confunde causas com efeitos. Ignora, deliberadamente, que a suposta perda de governabilidade decorre justamente do fato de que há um processo de impeachment ilegítimo em curso, provocado por ninguém menos do que aqueles cujos interesses serão diretamente beneficiados pela destituição da presidente. Há, portanto, um evidente conflito de interesses. Quem está por trás do impeachment é exatamente o grupo que se beneficia politicamente de seu desfecho favorável. A instabilidade política, embora seja a consequência direta da ação de tais grupos, é apontada, por esses mesmos grupos, como justificativa de um processo de impeachment que, ao fim e ao cabo, é, ele mesmo, causa da instabilidade. Então, se não há justificativas jurídicas para levar o processo de impeachment a termo, invocam a instabilidade como condição suficiente para torná-lo politicamente viável. Mesmo que seja uma aberração jurídica. Em outras palavras, a oposição e os setores a ela ligados desestabilizam um governo democraticamente eleito, para em seguida invocar o direito de destituí-lo, sob a justificativa de instabilidade institucional. Causada por eles mesmos. E para acrescentar elementos de tragédia shakespeariana a essa trama kafkiana, os acusadores são praticamente todos réus. Ou estão sendo investigados. Ora, até o desprezo à coerência, à lógica, ao direito, à justiça e à moral tem seus limites. Torna-se insustentável à luz de um mínimo de racionalidade. Mas ao que parece, quando se trata de golpe de Estado, não há limites. Nem racionalidade. No Brasil de hoje, todos os limites foram ultrapassados. E a razão já disse adeus.