sexta-feira, 8 de abril de 2016

A eterna luta do presente contra o retorno ao passado sem futuro

A persistência da memória
Salvador Dalí (1931)
A democracia brasileira e a soberania popular estão sendo ambas devoradas pelo vampiresco exército do capital financeiro. Com o parecer de Janot desfavorável a Lula e a maioria obtida pela comissão do impeachment na Câmara os mercados se assanham. A bolsa dispara. E o dólar despenca. Alguém ainda duvida da existência de interesses escusos, nada ocultos, envolvidos no golpe? Uma pergunta evidentemente retórica que dispensa resposta. Enquanto rentistas industriais e industriais rentistas consultam seus relógios e fazem cálculos diários de risco e retorno, os jornalões insistem em abusar da nossa inteligência coletiva. Continuam a sofismar diariamente. E mediante sucessivos surtos de crônico auto-engano, ainda aplaudem a si próprios, na alegada condição de imprensa "livre", "objetiva", "neutra" e "imparcial". Os políticos de oposição, por sua vez, já nem conseguem mais disfarçar seus cinismos. Seus olhos transbordam ilegitimidade. Desfaçatez. Seus discursos ecoam pressa. Embriaguez. Aceleram o tempo para que o tempo não derreta suas máscaras. Antes que suas faces se tornem aterrorizantes até para o mais impávido de todos os espelhos. Operadores do "direito" ajustam seus arsenais tecnocráticos. Lógica e precisão na obediência cega à inexorável lei. Dos mercados. Economistas ortodoxos, a vertente mais arrogante do golpe, diante do fracasso preditivo, explicativo, descritivo e prescritivo da "ciência" econômica dominante, que ainda assim lhes confere autoridade, vivem de confirmar a famosa frase de John Kenneth Galbraith: "A economia é extremamente útil como forma de emprego para os economistas". A crônica do dia se esvai na voracidade da noite. Que é atropelada por um novo dia. Novas tensões. Todos os fatos se desmancham no ar. Os fragmentos se espalham nas mentes confusas. Difusas. Nada parece fazer mais sentido. A história, com sua memória persistente, será talvez a única capaz de um dia relatar com alguma lógica esse sombrio 2016. Um ano em que vivíamos dias intermináveis de luta, quase exauridos, coletivamente, individualmente. Arregimentando forças, demasiadamente humanas, para superar de uma vez por todas aquele passado de condições desumanas, sempre à espreita. Um passado ao qual as "pontes para o futuro" daquele tempo obscuro insistiam eternamente em retornar.