sexta-feira, 11 de março de 2016

Quando o Ministério Público brasileiro encontra a filosofia alemã

Mesmo com o todavia / Com todo dia / Com todo ia / Todo não ia / A gente vai levando (Chico Buarque e Caetano Veloso)

A peça de denúncia contra o ex-presidente Lula, além de ser uma aberração jurídica e uma violência contra a democracia, é um atentado à língua portuguesa, à lógica da argumentação e à história da Filosofia. Um vexame para o Ministério Público brasileiro e para a classe jurídica do país. A ignorância em relação a alguma coisa comporta sempre duas ignorâncias: a própria ignorância e a ignorância da ignorância. Talvez a pior ignorância seja ostentar um conhecimento que não se possui. Depois dizem que ignorante é o torneiro mecânico. E eu que pensava que o livro "Princípios da filosofia do Direito", de Hegel (ou seria Engels?), era leitura trivial para a formação dos operadores do direito. Verdade que Marx escreveu em 1843 a "Crítica da filosofia do Direito de Hegel". Sem o Engels. Seria essa a causa da confusão? Pobres promotores! Muita leitura difícil, muito nome complicado, muita filosofia alemã. Afinal, ninguém está livre de errar. Mas a citação aleatória e fora de contexto de Nietzsche, grafado sem o "s", não tem desculpa. Como assim? Imperdoável. Agora já sabemos quando Nietzsche chorou. No dia em que o seu "Super-homem" foi virado do avesso e citado como argumento "racionalista" acerca da igualdade entre os homens, que por sua vez seria o fundamento moral (e a premissa maior) do pedido de prisão preventiva de Lula, traduzido no princípio constitucional da isonomia. Mesmo com todo Google, com toda a Wikipédia, com toda o apoio da classe média e da grande "media" (ou mídia para os menos cosmopolitas), essa gente vai errando. E vai levando o país para o buraco. Tem razão quem disse que o tipo de texto contido na peça de denúncia do MP contra Lula mais parece um artigo de Rodrigo Constantino. Será que, depois de ter sido demitido pela Veja, Constantino anda fazendo bico de "ghost-writer" para o MP? Ou a praga do estilo tosco está se propagando em múltiplas frentes?