sábado, 26 de março de 2016

Quando a comunidade empresarial entra em greve


Foto John Paul Kleiner

"Para evitar a greve do capital, em que empresas reduzem seus investimentos e operações, os governos têm que manter a confiança do setor privado, o que implica muitas vezes dar atenção especial à comunidade empresarial." (Michael Howlett, Política pública)

Em um mundo fortemente influenciado pelas grandes corporações, governos devem sinalizar frequentemente que suas políticas públicas são compatíveis e convergentes com os interesses do capital. Governos, independentemente de suas orientações políticas, necessitam que as empresas mantenham suas atividades de modo lucrativo para que novos investimentos sejam criados. Assim, garantem que empregos sejam gerados e impostos sejam recolhidos. Em uma economia de mercado, há uma clara interdependência entre o Estado e a chamada iniciativa privada. Como afirma Michael Howlett, "governos necessitam de uma economia próspera que lhes assegurem uma base adequada de receitas tributárias, para gastar em programas que possibilitem a execução de suas políticas públicas".

Dada essa interdependência entre governo e empresas, uma crise pode facilmente ser causada pela atitude grevista do grande capital, que diante da menor desconfiança ou de algum tipo de insatisfação com os governos, recusam-se a investir e desaceleram suas atividades empreendedoras. Grosso modo, utilizam seus poderes de barganha como se fossem autênticos grevistas. Ao agirem assim, empresas pressionam governos a tomarem medidas que as favoreçam, em detrimento de outras classes e setores da sociedade. Governos não alinhados ao receituário neoliberal costumam sofrer ataques do setor privado e, não raro, são forçados a sacrificar algumas de suas metas sociais, em benefício de um mínimo de governabilidade.

Quando as condições exógenas estão mais favoráveis, os setores produtivos da economia toleram mais facilmente as políticas públicas de caráter inclusivo e redistributivo. No entanto, quando os fatores externos tornam-se desfavoráveis, esses mesmos setores, antes tolerantes, passam a ser inimigos do Estado. Mediante grupos politicamente organizados, aí incluídos setores da sociedade civil, grande parte da classe política e dos meios de comunicação, a comunidade empresarial atua de forma agressiva para que sejam adotadas políticas de seu interesse, tais como redução de impostos, desregulamentações financeiras, privatizações, concessões, flexibilizações de leis trabalhistas e sociais etc. Incia-se assim uma batalha política e midiática.

Trata-se de uma "queda de braço". Um luta cíclica. Hoje, no Brasil, vivemos uma dessas lutas. O setor privado da economia, com reforço dos grupos de oposição e da grande mídia, vem jogando pesado desde que o resultado das últimas eleições lhes foram desfavoráveis. A comunidade empresarial e seus representantes não toleram por muito tempo governos cujas políticas públicas são voltadas para redução de desigualdades sociais e para uma melhor distribuição da renda e da riqueza. Especialmente quando o cenário externo não é favorável. O papel do governo federal, nessas condições, é resistir com o mínimo de perdas sociais até que a comunidade empresarial retorne aos padrões normais de investimento. Em algum momento isso tem de acontecer porque no longo prazo o capital também perde com suas próprias greves. Afinal, como dizia Brecht, "a confiança pode exaurir-se caso seja muito exigida".