terça-feira, 29 de março de 2016

Pessimismo na análise e otimismo na ação

"É necessário criar homens sóbrios, pacientes, que não se desesperem diante dos piores horrores e não se exaltem em face de qualquer tolice. Pessimismo da inteligência, otimismo da vontade." (Antonio Gramsci, em citação a Romain Rolland)

Só é possível enfrentar seriamente um problema conhecendo minimamente sua magnitude e escala. A possibilidade de golpe é real. Não se trata exatamente de pessimismo ou derrotismo. A base aliada do governo está cada vez mais escassa. Os ratos estão deixando o navio. O STF lavou as mãos e, ao que tudo indica, se apequenará. Recursos financeiros vultosos fluem em apoio aos golpistas. 'Think tanks' proliferam. Lobistas internacionais se articulam. O capital faz greve de investimentos. A economia sangra. Por deliberação do capital. Por decisões (des)humanas. Pela voracidade rentista. Sindicatos patronais patrocinam o golpe com propagandas diárias com mais de 10 páginas nos grandes jornais. Faturamento garantido para os jornalões. A grande imprensa enterrou a Lava-Jato. Dominou os discursos. Destroçou os fatos. A parte da opinião pública que não é invisível (classe média e alta) está imersa em transe. Intransigente. Irracional. A hipocrisia se converte em ódio. É inacreditável que depois de 21 anos de ditadura militar corremos agora o risco de ver Michel Temer presidente da República, Eduardo Cunha presidente da Câmara e Renan Calheiros presidente do Senado. Um triunvirato de canalhas peemedebistas, apoiado por tucanos mais canalhas ainda, que conspiram abertamente nos bastidores da República. Nem Shakespeare seria capaz de escrever tamanho drama histórico ou tragédia política. Parece um terrível pesadelo. Mas tudo isso é real. A única chance de reverter esse quadro está nas ruas. O ato do 31 de março talvez seja condição necessária mas não suficiente para defender a democracia. Temos que nos mobilizar todos os dias até o momento da votação do impeachment. E depois, caso o impeachment seja aprovado. Precisamos ocupar o espaço público em todas as frentes. Em todos os canais, todas as mídias, todos os segmentos. Sem descanso. Sem trégua. A maior manifestação de todos os tempos não será suficiente para espantar o golpe. Todas as mobilizações em defesa da democracia serão ocultadas pelos meios de comunicação de massa. Serão invisibilizadas. É preciso ir além e entrar na fase da mobilização permanente. O golpe já está em curso. A nossa responsabilidade coletiva é detê-lo. É hora de sermos pessimistas (ou realistas se preferirem) na análise e otimistas na ação. A hora é agora.