domingo, 6 de março de 2016

O autoritarismo da pregação pós-política

Democracia em Atenas, Philipp Foltz  (1805–1877)
"A especificidade da democracia moderna repousa no reconhecimento e na legitimação do conflito e na recusa de suprimi-lo por meio da imposição de uma ordem autoritária." (Chantal Mouffe)

A pregação pós-política é um invenção pós-moderna para minar a democracia. O pós-político, no sentido de que as melhores alternativas estão fora das instituições políticas democráticas, é o cenário ideal para a direita reinar soberana. O mundo do voto anulado, da negação da política, da demonização dos políticos, da polarização moralista, da ecologia desconectada da inclusão social, da recusa da luta de classes, da suposta superação dos conceitos de "direita" e "esquerda" e, finalmente, da crença em uma outra arena, livre de conflitos, cosmopolita, consensual, e superior às instituições democráticas. Infelizmente esse mundo não existe. Ao menos por hora. Sobretudo no Brasil. Enquanto isso, uma parte da esquerda abre mão da "política". E a direita, fortalecida pela ausência de um contraponto politicamente relevante e democrático, se apropria do "político" em prol de seus interesses políticos elitistas e conservadores. É hora de a esquerda manter os olhos bem abertos. É preciso mais do que nunca se apropriar da esfera do político e da política. Antes que algum aventureiro oportunista o faça, como já o fez incontáveis vezes ao longo da história.