domingo, 14 de fevereiro de 2016

Carta aberta a um gringo que fala do brasileiro

Eis que um gringo, sabe-se lá quem é, escreveu sobre o "brasileiro". E a análise do forasteiro está se propagando nas redes sociais. O texto, em resumo, afirma que o Brasil é um país simpático e só não é uma grande nação porque seu povo tem uma mentalidade atrasada e periférica. Em outras palavras, o brasileiro não possui os altos valores da cultura do "centro" civilizado. Visão ingênua, etnocêntrica e comete o erro grave de avaliar "o brasileiro" como se houvesse, de fato, um tipo único que pudesse ser classificado como tal, sem levar em conta a estrutura de classes do país, a desigualdade social, os processos históricos e, portanto, as vicissitudes inerentes a um país tão heterogêneo geográfica e socialmente. Parte de um suposto indivíduo, "o brasileiro", definido por ele a partir de suas experiências pessoais, para inferir sobre as características da sociedade brasileira como um todo. Um atentado a qualquer método de investigação social. Em relação à economia, o autor volta ao ideal de uma ética capitalista, baseada no trabalho duro, no esforço pessoal e na capacidade de poupar, que, se um dia já foi pressuposto das condições iniciais do capitalismo primitivo (ver O capitalismo e a ética protestante, de Max Weber), já não corresponde mais à dinâmica do funcionamento de uma economia de mercado, nem no Brasil, nem no resto do mundo, cuja força motriz é justamente o consumo e o endividamento. Público e privado. E sobre a vaidade, apontada como uma falha tipicamente "nossa", mas que desde a tradição do Antigo Testamento é citada como uma categoria universal da humanidade: "Vaidade das vaidades, tudo é vaidade" (Eclesiastes). A quem ele se refere? A vaidade do catador de lixo? Do ambulante? Do bancário? Do Neymar? Ou do Eike Batista? E quanto aos vaidosos do resto do mundo. O que dizer de Donald Trump, dos astros de Hollywood, dos magnatas do mercado financeiro e da vaidade do próprio autor, que se julga tão moralmente superior a ponto de discorrer sobre a moralidade de um povo que absolutamente desconhece. Depois afirma que o brasileiro vive de emoções fabricadas artificialmente. E desde quando a "selfie" é um fenômeno particular do brasileiro, que substitui a experiência real pela artificial das imagens? É só caminhar pela orla de Ipanema para ver turistas do mundo inteiro deixando o belo pôr do sol no Arpoador passar incólume porque estão absorvidos pelos seus Smartphones. Interessante que em dado momento ele pega emprestado alguns clássicos da sociologia e da antropologia brasileira para transformá-los em receita de auto-ajuda para tornar o brasileiro um povo melhor. Utiliza-se, superficialmente, das teses de Sérgio Buarque, para afirmar que o brasileiro age com o coração em vez da razão, e de Roberto DaMatta, para decretar que aqui é o país do "jeitinho". Teses de fato interessantes, mas que já foram devidamente relativizadas e criticadas por estudos científicos recentes, baseados em pesquisas empíricas, cujas conclusões apontam para uma total falta de evidência que dê suporte às conclusões de nossos cientistas sociais clássicos e rejeitam qualquer tentativa de se generalizar o comportamento do brasileiro em uma única categoria ou tipo (ver Jessé Souza, A tolice da inteligência brasileira). Em um determinado momento, o sujeito se defende de uma possível acusação de parcialidade, alegando que já escreveu também sobre os EUA, como se isso lhe desse, automaticamente, o álibi da objetividade e o absolvesse de todas as aberrações metodológicas que comete em seu texto sobre o "Brasil". O autor continua seu arrazoado com uma previsão sombria, de que a crise política e econômica enfrentada pelo país só tenderia a piorar, já que nós, brasileiros, não fizemos nosso dever de casa e agimos de forma perdulária e irresponsável. De acordo com esse ilustre "brasilianista", somente com uma mudança na Constituição Federal é que o país poderia sair da situação "insustentável" em que se encontra. Embora não explicite no texto, conclui-se que nosso amigo americano está se referindo ao fato de o Brasil ter uma Constituição que trata das políticas sociais como um dever intransferível do Estado e um direito universal de cada cidadão, o que tornaria o país, na opinião ortodoxa do autor, pouco eficiente e com baixos índices de produtividade. Visão obtusa que já vem sendo rejeitada, sistematicamente, até por entidades conservadoras como o FMI e o Banco Mundial. Nas principais universidades do mundo, aí incluídas Harvard, MIT, Columbia, Princeton, London School of Economics, e até mesmo a Universiade de Chicago, já se considera seriamente que a desigualdade é um dos mais graves fatores de ineficiência econômica (ver Joseph Stiglitz, O preço da desigualdade). Enfim, daria para continuar a crítica, parágrafo a parágrafo, mas acredito que o essencial já esteja dito aqui. O melhor indício de que o texto do estrangeiro é intelectualmente frágil é o fato de Rodrigo Constantino, ex-blogueiro da Revista Veja, tê-lo compartilhado em sua página pessoal. Incrível como a superficialidade encontra seu duplo instantaneamente.

P.S.