domingo, 14 de fevereiro de 2016

A intolerância discursiva nas redes sociais

Torre de Babel, por Lucas van Valckenborch, 1594
As discussões políticas nas redes sociais tornaram-se inviáveis. Quando se busca argumentar em prol de uma determinada posição, raramente o interlocutor responde com contra-argumentos relacionados ao tema discutido. O que acontece, na maioria das vezes, é a fuga para outro assunto completamente fora de contexto, acompanhada de avaliações pessoais subjetivas, especialmente no tocante a sua capacidade intelectual e seus valores morais, sempre mediante o uso de adjetivos os mais variados. Idiota, burro, analfabeto, comunista, petista, esquerdopata, retrógrado, imbecil etc. Ou palavras soltas, desconexas, sobretudo nomes próprios: Lula, Maduro, Stalin, Fidel, Dilma, União Soviética, Cuba, Venezuela. O endereçamento é sempre no plural. Você não é uma pessoa mas um coletivo. Suas ideias são iguais a de todos os outros "iguais" a você. Exemplo: "Vocês comunistas são uns idiotas que acreditam nesse ladrões, petralhas, que só querem aumentar os impostos que ninguém aguenta mais, e roubam o dinheiro público descaradamente que vem do imposto que eu pago com o suor do meu trabalho... e vocês além de votar numa quadrilha, ainda fazem campanha contra os humanos direitos, os homens de bem. Vocês aí dos direitos humanos! Ficam protegendo menor ladrão, que devia morrer. Gostam de bandido? Levem embora pra casa, seus burros! Acham justo cota pra desqualificado! E esmola pra vagabundo, que só tem filho só pra receber Bolsa Família. Têm pena de pobre, vão morar na favela, seus hipócritas!" Utilizei um português mais ou menos de acordo com a norma culta, não usei caixa alta em todas as letras, economizei pontos de exclamação e evitei palavras de baixo calão, apenas por uma questão de estilo pessoal. Claro que os textos reais não são assim tão cordiais. Muito menos gramaticalmente corretos. Sem mencionar a ortografia, a coesão, o encadeamento de ideias, a lógica. Que tal um pouco de educação, respeito e bons modos? Mas aí já seria exigir demais dessa gente tão importante e atarefada. Gente que passa a vida preocupada com a moralidade pública, com o combate à corrupção do setor público, com os bons costumes, com o endireitamento do país, com a liberdade de expressão, com o valor do dólar, com a próxima viagem a Miami, com a eficiência dos aeroportos, com o engarrafamento no trânsito, com a dificuldade de estacionar no shopping, a mensalidade do clube, o imposto da herança, a lentidão da banda larga, a aplicação na renda fixa, a reaplicação do Botóx, o preenchimento labial, a última versão do iPhone, o "selfie" no Instagram, o FGTS da doméstica, o IPVA do SUV, o IPI do vinho australiano, a reclamação no SAC, a bronca no porteiro, o grito com a balconista, a nova biografia do Steve Jobs... Gente que sequer tem tempo para se educar, minimamente. Afinal, a falta de educação, em todos os sentidos possíveis, é culpa do Estado. Ou melhor, culpa do governo federal. E do PT.