sábado, 17 de dezembro de 2016

A corrupção e os catadores de migalhas

Migalhas de pão reunidas
Imagine um pão francês em uma cesta. Cada vez que você corta um pedaço para servi-lo, algumas migalhas caem nessa cesta. Agora imagine milhões de pães sendo cortados diariamente, durante vários anos. E que a cada corte, todas as migalhas são desperdiçadas. Agora imagine que esses pães representam contratos públicos. E as migalhas, representam o dinheiro que é desviado em corrupção. Agora imagine que quem se apropria desses bilhões de migalhas acumuladas nesses anos corresponda apenas a algumas centenas de pessoas. Para os catadores de migalhas, os corruptos, todas elas juntas e repartidas entre eles será o equivalente a milhares de pães para cada um. Mas o pão que perde algumas migalhas não deixa de cumprir sua função de alimentar as pessoas. Assim funciona a corrupção. Por isso é tão difícil de identificá-la. É um crime quase perfeito. E seus impactos nos cofres públicos são muito menores do que se imagina. Quando falta leito em hospital não é em razão da corrupção. Se não houvesse corrupção, a "migalha" não seria suficiente para comprar o leito, mas é mais do que suficiente para enriquecer seus catadores. Os coletores profissionais de migalhas. A sonegação, por outro lado, é esconder o pão inteiro. E a migalha. Essa sim, junto com um baixo PIB per capita e, consequentemente, uma baixa arrecadação per capita, associada ao maior juros reais do planeta, que drenam recursos públicos para o setor financeiro e impões políticas de austeridade, é que fazem com que faltem leitos em hospitais públicos e todo o resto de que tanto necessitamos. Corrupção é caso de polícia. Mas o seu combate não modifica o quadro social e econômico de um país. Apenas evita o enriquecimento ilícito de uma minoria. O que certamente justifica o seu combate rigoroso, mas não a transforma numa panaceia contra todos os nossos males. A corrupção, portanto, não é causa da miséria humana, nem no Brasil, nem alhures, apenas um dos muitos efeitos das relações iníquas de poder. De resto, somos um país extremamente desigual, com uma concentração de renda e riqueza brutal. Isto sim, embora não seja uma exclusividade de nosso país, é uma particularidade perversa.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

A PEC/55 a serviço do rentismo nacional

A reação "nervosa" do mercado futuro de juros com um possível atraso na votação da PEC/55 sob a presidência interina do senador Jorge Viana do PT, em razão do afastamento preliminar de Renan Calheiros pelo STF, reforça uma questão fundamental: a PEC/55 não é sobre boas práticas de gestão de gastos públicos. Trata-se apenas de um instrumento poderoso de transferência de riqueza do Estado para o setor financeiro da economia, que visa garantir a manutenção da taxa de juros brasileira como a maior do planeta, sem que haja riscos de escassez de fluxo de recursos para remunerar o rentismo nacional, em detrimento de investimentos sociais e de infraestrutura. É para este setor que o governo golpista do PMDB/PSDB e seus aliados trabalham. É para beneficiar essa gente, e a si própria, que a grande mídia manipula o restante da sociedade com discursos ocos de "moralidade" fiscal. É disso que se trata. Todo o resto é retórica vazia.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

A corrupção é um cisco no olho do entendimento

O juiz Sérgio Moro em palestra proferida hoje afirmou que a corrupção aumenta os custos de produção das empresas e prejudica a competitividade do país no mercado global. Correto. Os custos aumentam. Corrupção é algo terrível que nada acrescenta à atividade econômica. Deve ser combatida duramente. Mas esse aumento de custo, em média, é estimado pelos economistas em 1% do faturamento. Menor, portanto, sob um ponto de vista sistêmico, que os impactos da alta taxa de juros, que encarecem o crédito, tornam os investimentos produtivos menos atrativos, inibem o consumo e reduzem as taxas de lucros; e do câmbio sobrevalorizado, que torna nossas exportações mais caras e menos competitivas no cenário internacional. Isso afeta todas as empresas, inclusive às que não participam de atividades de corrupção. Além disso, esse custo é compensado por muitos incentivos fiscais setoriais e uma carga tributária menor, se comparada a outros países competidores. E por um sistema tributário que isenta a distribuição de lucros e tributa pesadamente o consumo. No entanto, o mais importante da fala de Moro passou despercebido à maioria. Moro, sem se dar conta, admitiu que o mais impactado com a corrupção é o setor privado, já que os valores saem dos caixas das empresas para pessoas físicas (políticos e agentes públicos), sem tocar nos cofres públicos. Vale lembrar também que muitos dos recursos utilizados em corrupção são oriundos de caixa 2, portanto sequer são tributados. No limite, quem financia a corrupção é a sonegação. Como os valores da corrupção são repartidos por uma pequena parcela da população, as cifras per capita ficam gigantescas. Causam horror e indignação. Mas o rombo no Tesouro é o acessório, não o principal. O grande vilão dos cofres públicos no Brasil é a sonegação. E os juros da dívida pública. No mundo, o Brasil é o segundo colocado em sonegação fiscal e sexagésimo nono em corrupção. As perdas dos cofres públicos com a sonegação são de R$ 500 bilhões anuais, contra R$ 67 bilhões em razão da corrupção. Em 2015, o governo gastou em amortização de juros da dívida pública interna mais de R$ 1 trilhão. A corrupção, embora seja um crime grave que deve ser amplamente combatida, é apenas um cisco no olho do nosso entendimento. Mas como bem disse o jurista italiano Norberto Bobbio, "o fascista fala o tempo todo em corrupção". No Brasil, a indignação anticorrupção tornou-se uma obsessão nacional, que coincidentemente vem crescendo junto com movimentos fascistas e intervencionistas. Bobbio, afinal, tinha razão.

A eficiência que mata

No fim das contas, tudo indica que o acidente aéreo que causou a morte de 76 pessoas foi provocado por um mero procedimento administrativo de gestão de custos. Uma tentativa de economizar combustível. Evitar uma escala. Ganhar tempo. E dinheiro. A lógica da logística. Do corte. Da eficiência. Da redução. A obsessão de fazer mais com menos levada ao extremo da tragédia. Que fique o alerta. A seguirmos com essa lógica em que tudo se reduz a um calculo de eficiência econômica, nada mais restará de nós.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Colaborar ou resisitir

Brasília, 29 de novembro de 2016
O Brasil está sob ocupação. Não ocupação de estudantes ou de manifestações democráticas. Ocupação neoliberal. Do capital estrangeiro. Do capital financeiro. Da grande mídia. Das milícias fascistas. Do Congresso Nacional. Do poder Judiciário. De um poder Executivo ilegítimo. E de boa parte da intelectualidade acadêmica. Todas as instituições estão ocupadas no macrointeresse do grande capital e no microinteresse de seus agentes. Macro e micropoderes convergem como um grade rolo compressor que tudo destrói, exceto os privilégios dos poderosos. O Brasil está sob ocupação. Para os não ocupantes restam apenas duas alternativas: colaboracionismo ou resistência. A omissão é um tipo de colaboração. O momento é de escolha. Dessa escolha dependerá o futuro do país.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Primeiramente: fora Temer já!

É possível que haja um 'Fora Temer' sem que necessariamente haja um 'Volta Dilma'. No caso de uma eventual queda de Temer, há mais de um cenário possível. Algumas possibilidades. Umas boas, como a volta de Dilma (que depende de uma decisão do STF) ou a convocação de eleições diretas. Outras ruins, como seria o caso de eleições indiretas e uma volta, sem voto popular, do derrotado PSDB à presidência da República. No entanto, nem a hipótese boa ou a ruim serão possíveis sem um 'Fora Temer' prévio. Trata-se de uma condição lógica. Logo, se quisermos ver concretizada a hipótese de um 'Volta Dilma' ou de eleições diretas, é preciso necessariamente que haja um 'Fora Temer', mesmo que isso implique risco de consolidação do golpe tucano. O segredo será a celeridade. Para que haja uma possibilidade de 'Diretas Já', Temer terá de cair antes de 2016 acabar. A queda é pra já. Uma missão quase impossível. Mas vale a tentativa. Viver é perigoso, já dizia Guimarães Rosa. Se quisermos que nossa democracia tenha direito a alguma chance de se restabelecer antes de 2018, será preciso arriscar. Não há mais tempo a perder. Nem outro caminho a seguir. Primeiramente: FORA TEMER JÁ!

terça-feira, 22 de novembro de 2016

O aparelhamento ideológico do Estado

Credito da imagem: Do Ho Suh
É ingênuo pensar que o Estado é aparelhado ideologicamente pelos programas de governo do(a) presidente da República em exercício e de suas equipes técnicas e quadros políticos. Se levarmos Marx a sério, é a economia que controla o Estado e a política. Não o inverso. O Estado é, de fato, aparelhado ideologicamente pelas forças de produção dominantes, que controlam seus principais órgãos de atuação, assim como controlam os veículos privados de comunicação de massa. E, ao ser controlado ideologicamente, o Estado, por meio de suas instituições mais estratégicas, controla segmentos chave da sociedade civil. O sistema é retroalimentado. O círculo se fecha. O Brasil, a despeito de quem o governa, vem sendo controlado material e ideologicamente pelo capital corporativo, sobretudo o financeiro. Há incontáveis décadas. Sobra pouca margem de manobra para os chefes do Executivo. O que um presidente da República pode fazer, quando eleito com a finalidade de enfrentar os poderes dominantes, é oferecer um contraponto político no âmbito de suas competências funcionais, de modo a buscar um reequilíbrio de poder. Dadas as limitações óbvias de um mandato executivo, no fim das contas, a atuação de um presidente da República estará sempre aquém das forças dominantes. Por outro lado, quando um presidente da República logra ser eleito com o intuito de representar as forças dominantes, seu papel é pura e simplesmente reforçá-las política e institucionalmente. É o caso da Argentina de Macri. Do Brasil nos tempos de FHC. E agora de Temer, de modo ilegítimo, sob a forma de um golpe de Estado. Assim, cada vez que um presidente eleito converge politicamente com as forças produtivas hegemônicas, o Estado se torna ainda mais bem aparelhado para perpetuar os interesses das classes dominantes. A questão ainda é mais grave no Legislativo. Como a tendência da população é concentrar todas as expectativas no poder Executivo, a eleição para deputados e senadores é sempre negligenciada. As casas legislativas, portanto, são facilmente controladas pelos setores de maior poder econômico e amplitude ideológica. O que dificulta ainda mais a ação do presidente da República e o impele a acordos improváveis em nome de um mínimo de governabilidade. O Judiciário, por sua vez, como não faz parte das decisões eletivas da sociedade, é um poder elitista por natureza. É um segmento à parte que, acobertado pelo álibi da tecnicidade, funciona como um guardião de privilégios adquiridos. Por isso tantas condenações seletivas. Do juiz "deus" ao juiz "vingador". Tudo isso sempre acobertado pela grande mídia, portadora dos álibis da objetividade e da liberdade de expressão, e cujo papel é unir dominantes e dominados sob o mesmo guarda-chuva ideológico: demonizar o Estado e sacralizar o mercado. Eis alguns desafios fundamentais que a democracia brasileira tem enfrentado e que não podem mais ser ignorados por seus cidadãos. Sobretudo por aqueles que desejam viver em uma sociedade progressista, mais justa e igualitária, cujas políticas de inclusão social e redistribuição de renda não sejam interrompidas ao sabor dos humores e rumores da nossa implacável elite.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Maniqueísmo para os maniqueístas

As organizações Globo são, em seus editoriais, notadamente maniqueístas. Elegem sempre um suposto ''mal'' que se opõe a um suposto ''bem''. No jornalismo. Nas tramas das novelas. Nos programas de auditório. Para a Globo, Trump seria o "mal" e Hillary o "bem". Visão simplista. Binária. Maniqueísta. Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia. Interesses ocultos. E sobretudo muito jogo de cena. Mas o fato de a Globo ter elegido Trump como o representante do "mal" não o torna algo desejável por mera oposição a ela, como um subproduto das críticas que se possa fazer à linha editorial dessa empresa. Isso seria apenas mais um tipo de maniqueísmo, ainda que por uma via reativa. É descer tão raso quanto àqueles que se quer criticar. Se nos comprometermos com essa prática de sempre negar o que nossos adversários apoiam, independentemente dos conteúdos envolvidos, correremos o risco de nos colocar em situações embaraçosas com muita frequência. Imagine-se na década de 1940. E, por hipótese, o jornal ao qual você fosse um opositor ferrenho se pronunciasse contrário ao nazismo em um determinado editorial. Você se transmutaria em nazista só para contestá-lo? O mundo é muito mais complexo do que alinhamentos e desalinhamentos automáticos. Para o bem ou para o mal, a Globo é a Globo. Trump é Trump. Hillary é Hillary. Até porque, os EUA são a maior potência capitalista do planeta. Logo, sempre elegerão algum presidente pró-negócios. Amigável ao capital financeiro e aos senhores da guerra. Se Hillary é o status quo, Trump, por sua vez, não é contrário ao status quo, embora tenha sido isso que ele quisesse vender para fins eleitorais. Nas atuais circunstâncias históricas, o fato é que só podemos pensar nas eleições norte-americanas em termos de resultados que representem um mal menor. Jamais como algo que seja um bem em si mesmo.  Ao menos por hora. Portanto, deixemos o vício maniqueísta para aqueles que fazem do maniqueísmo sua moeda corrente. Podemos ser um pouco mais sofisticados do que isso. Moral e intelectualmente. Deixemos o maniqueísmo para os maniqueístas.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Uma casa-grande chamada Ipanema

Ipanema votou em Crivella
Ipanema é uma província das mais atrasadas do planeta.
Se você pede uma Carta Capital o jornaleiro faz careta. 
O luxo triste das calçadas. A miséria escondida no morro.
A impessoalidade indiscreta de suas esquinas. 
Nas ruas, quanta gente esnobe e boçal. 
Cenário inóspito. Desolador. Desigual.
Na alma uma pobreza sem fim.
Quem dá o tom não é mais Jobim. 
Sua garota, superestimada pela canção tão bela, 
agora é paneleira da CBF. E cabo eleitoral do Crivella.

Uma fadiga inqueta

Terraço do Café à Noite, Vincent van Gogh
Sabe quando o cansaço e a sonolência invadem o corpo e tomamos, de um gole só, aquele único resto de café disponível, frio, fraco, amargo no final, na esperança de seguir em frente com alguma tarefa importante? 

E com amargura, percebemos que o sono continua, mas agora, além de abatidos, estamos agitados pela cafeína. 

Intranquilos demais para dormir, exaustos demais para produzir. Familiar? Pois é. 

A sensação é essa. E não é necessário nada para senti-la. Simplesmente está no ar. Onipresente. 

Uma tristeza cansada.

Um amargo na boca.

Uma fadiga inquieta.

domingo, 30 de outubro de 2016

O amanhã que escurece

Manifestação na Avenida Paulista 
No Rio de Janeiro, somando os ausentes com os votos nulos e brancos, quase 40% dos eleitores abriram caminho para a vitória de Crivella. Sem mencionar o perfil assustador da Câmara de Vereadores. O Rio de Janeiro é uma distopia em movimento. 2016 tem sido um ano dos mais sombrios de que tenho memória. E olha que nasci no primeiro ano da ditadura. Em 1965. Familiares e pessoas muito próximas foram exiladas. Torturadas. Assassinadas. A homofobia levou meu talentoso tio-irmão. Mas hoje sinto o peso da volta de algo que já imaginava pertencer ao passado longínquo. Doce inocência. Quanta ingenuidade. Fascistas proliferam por todos os lados. Os que lutam por um mundo melhor são acusados de arrogantes, até pelos seus pares. Mundo estranho. A intolerância reina soberana. Hoje a democracia e o Estado de direito não passam de formalismo retórico. Mas estamos todos imobilizados discutindo filigranas ideológicas enquanto o Brasil é tomado de assalto pelas elites de ocasião. Com nossa falta de reação, deixamos que se destruísse rapidamente um país. Todas as redes de proteção social estão sendo desmanteladas. Princípios mínimos de dignidade e cidadania já não fazem mais parte do nosso cotidiano. Capitulamos. E nos tornamos meros destroços humanos. Despojos descartáveis para o banquete voraz dos devoradores da vez: Temers, Dórias, Grecas, Marchezans, Moros, Moraes, Serras, Aécios e Crivellas. Até Donald Trump nos assombra. A lista é sem fim. A dor é imensa. Faço uma pausa. O amanhã escurece. A tarde se esquece. A noite é tão longe. Outro mês se aproxima. Não me lembro dos últimos novembros. Quantos sóis delicados, céus azulados? Quantas nuvens aflitas, chuvas amargas? Sinto falta de novos setembros... Ah, se eu pudesse apagar todos os dezembros! Por hora, meus inimigos venceram. Os restos de mim pedem descanso.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

A prisão de Cunha é uma tautologia

A prisão de Eduardo Cunha faz parte do roteiro do golpe. Aliás, roteiro bastante trivial. O próximo passo será varrer o PMDB do mapa. E tirar Lula da disputa eleitoral de 2018. O golpe sempre foi tucano. Sérgio Moro está sendo pressionado por uma parte significativa da sociedade civil. Há graves indícios de parcialidade e seletividade em suas decisões. A acusação de que Moro é "absolutamente parcial e está a serviço das classes dominantes", levantada por Rogério Cerqueira Leite, torna-se cada vez mais indefensável. A prisão de Cunha funciona como um álibi. E um salvo-conduto para a prisão de Lula. Tudo muito previsível. Surpreendente teria sido se o STF determinasse a prisão de Aécio Neves, José Serra ou a de qualquer outro cacique do PSDB. Mas nosso Judiciário, em todas as instâncias, é covarde quando se trata dos interesses das grandes corporações e dos partidos a elas associados. Seria algo extremamente improvável. Factível talvez em outros mundo possíveis. Não neste. Acontece que Cunha é cachorro morto. Serviu bem ao golpe. Deu viabilidade processual ao impeachment. Mas é chegada a hora dos descartes. Dos expurgos. Custou a ser cassado por conveniência política. Agora é preso também por conveniência política. Se os critérios rígidos de prisão preventiva inaugurados por Moro fossem seguidos à risca, e com isonomia, Cunha já estaria atrás das grades desde sua cassação. Sua prisão é um pleonasmo. Uma obviedade. Uma tautologia. Na lógica do encarceramento sumário de Moro, é prender ou prender.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Em busca da atuação perdida

James Dean, Nova Iorque - 1954
Se as pessoas balançassem a cabeça, revirassem os olhos, gesticulassem e gritassem tanto quanto as personagens das novelas da televisão brasileira, as interações humanas reais se tornariam insuportáveis. Viveríamos em estado de vertigem coletiva. Uma pena. Há excelentes atores e atrizes no mercado. No entanto, para satisfazer a um padrão mercadológico imposto ao longo do tempo por direções equivocadas, que confundem energia com afetação, e que não conseguem conciliar intensidade e sutileza, como se ambas fossem mutuamente excludentes, nossos atores e atrizes são obrigados a descaracterizar suas atuações para se manterem no mercado. Assim, abandonam as nuances, interditam os silêncios e temem o imprevisível, que dão vida e beleza à arte do ator. O conservadorismo triunfa. No limite, atuam tensos, desconcentrados e preocupados. A tensão é visível, sobretudo quando assistimos apenas às imagens. Sem o som. A experiência é bizarra. Os rostos se tornam máscaras. E de tão tensos, perdem a capacidade de escuta. Ouvem apenas a si mesmos. Deixam de ocupar o espaço com seus corpos e suas ações, para se preocuparem apenas com os resultados padronizados. A concentração coloca o ator no centro da ação. A tensão, por outro lado, desloca o ator. Da ação para a preocupação. É como se assistissem a si mesmo em tempo real, e se julgassem severamente a partir dos padrões determinados pelo mercado televisivo. No fim das contas, o exagero gestual e os maneirismos acabam funcionando como um mecanismo de defesa. A artificialidade se naturaliza. Diretores aprovam. O público se acostuma. O gosto é nivelado. A previsibilidade domina. Um produto é lançado. Um padrão é forjado. Uma estética é assimilada. E a arte do ator abandonada.

Interpretar ou não interpretar, eis a questão

A questão não é interpretar ou não interpretar um personagem "mau caráter". Não se trata disso. Até porque um ator não deve julgar moralmente os papéis que interpreta. Não deveria haver nenhum conflito ético para um ator interpretar personagens históricos que ficaram conhecidos por suas atrocidades. Grandes atores interpretaram Adolf Hitler. Mas tais filmes não retratavam o Führer como um herói idealizado, e sim como os fatos históricos o revelaram. Tampouco deveria haver conflito em interpretar vilões ficcionais. A questão se torna relevante quando se trata de interpretar um personagem que o ator (quem quer que seja ele) julga ser um canalha na vida real, mas que será retratado na dramaturgia como um modelo de comportamento ético e de ação justa. No caso da série sobre a Lava Jato, a ser produzida pela Netflix com a direção de José Padilha, por ser uma operação controversa, em que analistas políticos e jurídicos do mundo inteiro apontam haver fortes indícios de seletividade, parcialidade e violação de direitos humanos na operação, um ator minimamente consciente da influência que exerce sobre seu público, e de sua responsabilidade social, deveria, a meu ver, se recusar a participar do projeto, não só como protagonista, mas na pele de qualquer outro personagem do roteiro. Sobretudo quando se trata de um evento tão recente, e em pleno curso, cujo julgamento histórico ainda está para ser construído e depurado. Há uma diferença fundamental entre ficções puras e aquelas que pretendem retratar fatos reais. Um ator é livre para interpretar ficções. Mas quando aceita interpretar a mentira, como se verdade fosse, passa a fazer parte dela. Eis um questão ética revelante do nosso tempo.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Quando o neoliberalismo e o (neo)totalitarismo se encontram

Margaret Thatcher com o general Augusto Pinochet
Sem nenhuma legitimidade democrática, o Brasil na era Temer conseguiu reunir a pior combinação possível: a conjunção do neoliberalismo, na sua pior versão rentista, com o velho monopolismo e o (neo)totalitarismo.
Aqui na terra das primeiras damas filantrópicas, defensores do livre mercado flertam com a concentração do capital e com a formação de oligopólios. Nossos industriais se esbaldam com receitas de aplicações financeiras, com revenda de importados e com a especulação imobiliária. E têm horror a qualquer projeto de política industrial.
Aqui na terra do encarceramento sumário, profissionais do Direito, que se dizem filiados à tradição iluminista e ao liberalismo político, evocam Deus em suas argumentações, afrontam a laicidade do Estado, toleram práticas processuais abusivas e apoiam a truculência policial.
Nossos juízes atacam a liberdade de expressão e promovem a censura velada. Juram pela equidade e pela justiça, mas praticam a condenação seletiva e a omissão na defesa da Constituição Federal. Nossos chefes do Executivo subordinam os fins aos meios. Privilegiam o acessório em detrimento do principal. Nossos economistas e jornalistas se autointitulam defensores da "modernidade", mas fundamentam seus argumentos em teorias econômicas obsoletas e ultrapassadas.
E nossa classe média, juntamente com a classe trabalhadora, apoia quem apoia a precarização do trabalho e a extinção dos mais básicos direitos de cidadania. Além de se manifestar democraticamente pela volta da ditadura militar.
O Brasil de hoje é um curioso caso de contradição em seus próprios termos. Exemplo raro na história, talvez só encontrado no Chile de Pinochet. A par das violações aos direitos humanos, prisões arbitrárias, torturas e assassinatos, o Chile se tornou o país com a maior desigualdade social no mundo. É a economia com o pior índice de Gini, que mede o grau de contração de renda. O paraíso do 1% mais rico.
E no Brasil, como será o amanhã? A julgar pelo presente, o futuro promete ser sombrio. A construção da ponte para a degradação social avança a passos largos. Nosso dever mais urgente como cidadãos e democratas é defender a democracia antes que seja tarde demais. Resgatá-la. Aprofundá-la. Protegê-la. E levá-la a sério de uma vez por todas.
A ação democrática radical é o único antídoto eficaz contra o Estado de exceção em que hoje vivemos. É preciso ocupar todos os espaços. Diante da escalada do autoritarismo não há negociação possível.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Velhos políticos fantasiados de modernos gestores

Convenção do PSDB
''Não sou político, sou um administrador, sou empresário, sou gestor”.

Esse tipo de afirmação, muito comum nos tempos de Paulo Maluf, e agora novamente em voga na boca de políticos como João Dória, Geraldo Alckmin e Carlos Osorio, mascara um detalhe importante: administração ou gestão são atividades-meio. Em razão de seu caráter instrumental, jamais poderiam ser consideradas um critério confiável para se escolher chefes do Poder Executivo.

Quando o lema de um político é a gestão, significa que está de mãos vazias. Além de ser uma afirmação interessada e parcial a respeito da própria capacidade de gerir, o que já configura um conflito de interesses, dada a proximidade máxima de alguém consigo mesmo, uma boa gestão, por si só, não garante o devido atendimento ao interesse público.

Campos de concentração eram conhecidos pela sua excelência administrativa, precisão logística, eficácia em exterminar pessoas inocentes e eficiência em cometer atrocidades das mais variadas ao menor custo possível. Auschwitz, para os nazistas, era considerado um caso de sucesso gerencial. Organizações criminosas podem ser bem geridas. Indústrias que se utilizam de mão de obra análoga à escrava ostentam significativas reduções de custos. São produtivas. Fazem mais com menos. O uso de drones em cruéis bombardeios injustificados também pode ser eficiente.

Portanto, o que deve ser levado em conta na hora de escolher um chefe do Executivo, seja nas prefeituras municipais, nos governos dos Estados ou na presidência da República, são os conteúdos programáticos de cada candidato. A pergunta central a ser respondida não é "como fazer" mas sim "o que será feito". Em outras palavras, a questão que se coloca é: quais as políticas públicas que um candidato pretende implantar uma vez eleito, no interesse da população. Antes de se fazer certo a coisa, é preciso fazer a coisa certa.

A boa gestão é sempre bem-vinda. É condição necessária, mas não suficiente para o exercício de um mandato eletivo. Diferentemente de uma empresa privada, no setor público a eficiência econômica deve estar sempre subordinada à eficácia social. Se em qualquer momento algum "trade-off" tiver de ser feito, é muito melhor que se sacrifique uma parcela da eficiência, em benefício de um atendimento à população mais igualitário e universalizado. Cortar programas sociais não é um indicador de gestão eficiente. É sinônimo de covardia do administrador e revela falta de compromisso com seus administrados. Sobretudo em um país com tantas carências materiais e injustiças distributivas como o Brasil.

Assim, precisamos estar vacinados contra argumentos falaciosos dos autointitulados "especialistas" em gestão. Já passamos do prazo de sermos tão ingênuos. Negar a política e concentrar os discursos nas ações acessórias para acobertar a falta de propostas sólidas é um expediente ardiloso. Não passa de um jeito sórdido de fazer má política. A embalagem pode até ser nova. Mas a tática é velha. E, ao que parece, ainda tem iludido milhões de eleitores incautos. Massas seduzidas pelas promessas vazias de uma vida dominada pelo admirável mundo da técnica, onde ambicionar o consumo de roupas de grife seria a expressão máxima do valor da cidadania.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

A aleatoriedade da razão ou o triunfo da irracionalidade

Carlos Villalba Racines (EFE)
O país jaz em silêncio enquanto se vota ruidosamente a PEC 241, que transformará a Constituição Federal em instrumento de degradação social. Incrível como podemos fazer uma revolução por causa de um cisco no olho e nos omitir diante das mais graves calamidades. Em junho de 2013, os rebeldes sem causa entraram para a história das manifestações. Em 2016, a despeito de todas as causas, nenhum rebelde é capaz de se rebelar. O mundo parece não passar de um irrelevante jogo de representações, sem um mínimo de racionalidade. Ou, se David Hume estava certo ao escrever que "não é contrário à razão eu preferir a destruição do mundo a um arranhão em meu dedo", então a razão só encontraria obstáculos diante de impossibilidades lógicas. Assim, na visão de Hume, exceto no caso de se conceber algo como um círculo quadrado, uma evidente contradição lógica, a razão poderia tudo. Até mesmo aceitar a pior das violências pelos motivos mais fúteis. Trata-se, portanto, da constatação da aleatoriedade da razão diante das deliberações mais relevantes. No limite, em qualquer das duas hipóteses aqui levantadas (a da total ausência de racionalidade, ou de sua irrelevância, diante dos fatos mais impactantes da vida), o fato é que vivemos diante do triunfo da irracionalidade. Adeus razão.

domingo, 9 de outubro de 2016

A distopia do adestramento coletivo

A nova direita elitista não se importa com a educação simplesmente porque não acredita no aperfeiçoamento humano. E não precisa dela para ascender social e economicamente. De acordo com essa mentalidade, o mundo é o que é. Não há o que se possa fazer. As posições iniciais devem ser conservadas. Os privilégios transmitidos. A imutabilidade preservada. O conformismo estimulado. Em vez de educação universal, a direita elitista prega um adestramento coletivo, que atenda sob medida aos seus interesses de classe. Essa é a "filosofia" da Escola sem Partido. E a razão de ser da tecnicização do ensino público e privado.



Os escombros neoliberais

Um Estado de bem-estar social leva muito tempo para se construir, mas basta poucos meses de políticas neoliberais para destruí-lo. Instantaneamente. Não fica pedra sobre pedra. E toda reconstrução, após um ataque neoliberal, é ainda mais demorada. A cada onda neoliberal gerações inteiras são perdidas. Crises se tornam a regra. Os efeitos devastadores reverberam no tempo e no espaço. Por muitas décadas.


quinta-feira, 6 de outubro de 2016

O petróleo é deles. A miséria é nossa.

O Brasil está sendo destruído tal como destruíram o Iraque. Só que as bombas vêm dos Poderes Judiciário e Legislativo. A logística de guerra vem do Executivo usurpador. O país está sendo implodido pelas suas próprias instituições. A autoaniquilação emerge de suas entranhas. A narrativa mentirosa vem da grande imprensa. O comando impessoal vem do capital estrangeiro. E do rentismo nacional. Os destroços são econômicos. As ruínas sociais. E os restos humanos.


Cena do documentário “No End in Sight.”
Crédito Magnolia Pictures

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Liberdades incondicionais em todas as instâncias

Foto Divulgação
O julgamento do STF no sentido de permitir prisão após condenação em segunda instância não "é decisivo para conter a impunidade", como quer dar a entender o editorial de O Globo. A decisão impactará apenas, e tão somente, os condenados de sempre: os desfavorecidos e subalternos em geral. Já os criminosos pertencentes à tropa da elite do mundo do crime, oriundos das grandes corporações, dos partidos políticos pró-negócios, dos altos escalões dos Três Poderes da República, da Administração pública, do TCU, do MPF e da PF, assim como os barões da grande mídia e os senhores do capital financeiro, apenas para citar os exemplos mais notórios, todos podem seguir com suas contas na Suíça, praticando confortavelmente uma imensa variedade de tipos penais que não serão minimamente perturbados. O andar de cima da pirâmide socioeconômica poderá seguir praticando seus habituais crimes contra o patrimônio público e privado. Seguir com seus Ilícitos ambientais. Com o tráfico de drogas e armas. As fraudes tributárias, trabalhistas e previdenciárias. Sonegações e evasões fiscais. Corrupções ativas e passivas. Manipulação dos mercados de capitais. Maquiagens das demonstrações contábeis. Especulações cambiais abusivas. Homicídios, agressões físicas e morais. Podem continuar a dirigir embriagados, cometer estupros, incitar a tortura, fazer apologia ao racismo e à homofobia, portar armas ilegais. E assim indefinidamente. Os poderosos de sempre aplaudirão a decisão do STF entusiasticamente. Porque sabem que podem dormir em paz. E todos sabemos que continuarão a desfrutar impunemente de suas irrestritas liberdades incondicionais. Em todas as instâncias. 

Estado policial: o velho aliado das elites

Os indiciamentos de Lula e a prisão continuada de José Dirceu reproduzem, no plano da classe política, o funcionamento do Estado policial como defensor dos interesses das elites. Enquanto uns poucos usam tornozeleira eletrônica, a grande maioria apodrece em prisões sub-humanas. Enquanto os políticos dos partidos representantes das classes dominantes ficam impunes em face de seus crimes, os da classe trabalhadora são sempre implacavelmente perseguidos. E condenados. O paralelismo salta aos olhos.


Luiz Inácio Lula da Silva

domingo, 2 de outubro de 2016

O eterno ciclo de interrupção do Brasil

O Brasil está em escombros. Com a truculência à solta. O fascismo reaparece. Com o neoliberalismo à farta. A miséria cresce. E o país é eternamente interrompido. Violentado. Saqueado. Confinado nesse conflito secular que aqui se trava entre dominantes e dominados. Nessa terra condenada a recomeçar sempre de novo. Sempre de um lugar ainda mais atrás do que aquele de onde havia recomeçado da última vez. Vivemos aprisionados nesse eterno mito de Sísifo. Carregando a mesma pedra. Que se torna cada vez mais pesada. A cada vez. Mais uma vez.


sexta-feira, 30 de setembro de 2016

A rede Globo não é sala de visitas

Reprodução TV Globo
A rede Globo não é uma residência. Não é sala de visitas. É uma concessão de serviço público. A fala de Jandira Feghali não pode ser julgada no plano das "boas maneiras". Da cordialidade. Não se trata de romper com a "etiqueta" em evento social e privado. É assunto público, uma questão de posicionamento político em face de uma organização que contribuiu ativamente com a derrubada de uma presidenta democraticamente eleita. Uma organização que agiu de modo conivente com a agressão à democracia e ao Estado democrático de direito, fato que culminou na transformação do país em Estado de exceção. A Globo apoiou assumidamente o golpe de 1964 e apoia o golpe de 2016 ainda em curso. A Globo não é condomínio fechado. Não é café. Nem casa de chá. Nem varanda gourmet. É espaço público. E na qualidade de concessionária de serviço público deve responder pelos seus atos, e pelas informações parciais e interessadas que dissemina a milhões de brasileiros. Todos os dias. Há mais de meio século.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Estratégias de liberdade processual em tempos kafkianos

Cena do filme O processo, de Orson Welles,
baseado da obra de Franz Kafka
Se algum dia você sofrer uma acusação, justa ou injusta, por parte do MPF e, consequentemente, sua liberdade depender da apreciação técnica do Poder Judiciário, torça (ou se preferir, para estar em sintonia com nossos magistrados de Deus, reze) para que tenham provas abundantes contra você. Em maior número possível. Mesmo que forjadas. O importante é que haja provas torrenciais de sua suposta culpabilidade, pois elas serão a prova cabal de sua inocência. E a maior garantia da sua impunidade. Caso contrário, ou seja, na ausência de provas que o incriminem, você será preso imediatamente. Por convicção. E por inexistência de provas. Em outras palavras, a falta de provas será a prova de sua culpabilidade. E a justificativa de sua prisão. Ainda que você esteja em um centro cirúrgico acompanhando algum familiar. Ou esteja você mesmo em uma mesa de cirurgia pronto para ser operado. Portanto, não seja imprudente. Em tempos de brasilidade kafkiana, cujo crime mais grave que alguém pode cometer é ser inocente, e cuja garantia de liberdade mais confiável é ser comprovadamente culpado, não conte com o MPF ou com o Judiciário. Ande sempre com uma prova qualquer contra você. Se não houver nada contra você, invente. Pelo menos uma prova. Se não possui bens imóveis, forje uma escritura não declarada. E faça mal feito para que o crime de falsificação também fique evidente. A própria prova mal feita será uma prova de crime de falsificação. Pronto. Resolvido. Já conta como elemento de exclusão de culpabilidade. Mas cuidado. Se você possuir um talento nato para falsificação, de modo que o crime seja perfeito, esqueça. Invente outra coisa. Algo mais grosseiro. Mas você deve estar pensando que isso não é muito lógico, e que as últimas dicas são contraditórias. Bizarras. Exatamente. Essa é a ideia. Esqueça a lógica. Abandone a razão. Use a imaginação. Crie uma ficção. Quanto mais farsesca melhor. É convicção de inocência garantida. Agora, se você se enquadrar em pelo menos uma das quatro opções a seguir: pobre, preto, professor ou petista; então, nada o salvará.

sábado, 24 de setembro de 2016

Os efeitos irreparáveis dos julgamentos antecipados

Pintura retratando o funeral de Sacco e Vanzetti
Em um Estado de direito, supõe-se que o termo "bandido" seja reservado àqueles que são presos em flagrante delito, ou àqueles contra os quais há provas incontroversas. Ainda assim, todos devem ter o direito à ampla defesa. E os rótulos condenatórios deveriam aguardar o trânsito em julgado das sentenças. Todo réu é presumivelmente inocente até que se prove o contrário. E o ônus da prova é de quem acusa. É importante ter em mente que o direito é imperfeito. Mesmo quando segue todos os ritos pode ser injusto. Mas quando atropela até os direitos mais básicos, torna-se mais do que imperfeito. Torna-se violento. E contrário à sua essência, que é justamente a de estabelecer regras de convivência para garantir proteção e segurança jurídica à sociedade. Não devemos nos esquecer de que é sempre melhor um culpado à solta do que um inocente atrás das grades. Na dúvida, é preferível absolver a correr o risco de se condenar injustamente. Até porque, altruísmos à parte, pensando exclusivamente no interesse próprio de cada um, quando há violações de direitos, quem garante que o inocente encarcerado ou com a reputação destruída não pode ser, a qualquer momento, arbitrária e aleatoriamente, um de nós? O respeito ao devido processo legal é, portanto, condição primordial para se viver com um mínimo de dignidade em uma sociedade juridicamente organizada.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

O baile de máscaras do golpe

O golpe já foi desmascarado faz tempo. Todos sabemos. O mundo inteiro sabe. O Brasil se tornou um Estado de exceção, onde vivemos em estado de choque permanente. Físico e moral. E no Estado de exceção, a injustiça é a regra. O fundamentalismo jurídico é a norma. E a forma. Juízes e procuradores dispensam provas e agem motivados pela "fé". Em seus próprios interesses. E pela convicção "religiosa". Em seus próprios poderes. Diante de tanta arbitrariedade, as máscaras já não mascaram. Mas os golpistas, impassíveis, continuam vestindo confortavelmente a máscara da hipocrisia. E da astúcia. Enquanto a farsa segue seu curso, os privilegiados vestem a máscara surreal da comédia. Os excluídos, por sua vez, a máscara real da tragédia. E uma parte significativa da sociedade civil, que nada tem a ganhar com o golpe, segue de olhos vendados. Diante da forte luz da verdade, prefere a confortável sombra da ignorância. Ou da má-fé. Aplaude a cada arbitrariedade. Comemora a cada possibilidade de perda de direitos, como se fossem apenas espectadores de vidas alheias, sem se dar conta de que é seu próprio destino que está em jogo. Em ritual autofágico, esses pseudo privilegiados assistem, como autômatos, a própria imolação. Anestesiados pela grande imprensa, só se darão conta do prejuízo irreversível quando a banda do bando dos bandidos do golpe passar. Fato que acontecerá em breve, assim que os escusos escambos dos golpistas transformarem o país, uma vez mais, numa grande montanha de assombrosos escombros.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

As brutais sutilezas da dominação ideológica

Nas palavras de Tim Maia, o Brasil é o único país em que pobre é de direita. A frase é emblemática. Mas não se trata de uma particularidade do brasileiro. Desfavorecidos defenderem o conjunto de valores que beneficiam os mais privilegiados, social e economicamente, não é exceção. E sim a regra. Aqui ou em qualquer lugar do mundo. Assim, o dominado defender a ideologia do dominante não deveria causar espanto pois é exatamente para isso que as ideologias servem: dominar sem se deixar revelar. A dominação, para ser eficaz, pressupõe falsificação. Dissimulação. Prestidigitação. É algo sutil, porém brutal e violento, que emerge sem alarde, nos espaços mais insuspeitos. Supostamente inofensivos e neutros. Naquele programa de TV favorito. No jornal de domingo. No refeitório da firma. Num jogo de futebol. No cinema. A dominação ideológica vive alojada nas entranhas dos espaços públicos e privados. Se os dominados fossem capazes de detectar o estratagema, ganhar voz e, consequentemente, defender de maneira organizada seus próprios interesses, provavelmente não estariam sujeitos à dominação que os aniquila silenciosamente. Ou, no mínimo, mitigariam os efeitos dela, até ganharem forças suficiente para combatê-la sistematicamente e, pouco a pouco, eliminá-la. Logo, a existência mesma do dominado, em sua forma mais brutal e alienada, depende da estrutura de dominação à qual ele está sujeito. O dominado se conformar com a dominação e, no limite, legitimá-la, é a prova viva da eficácia da ideologia dominante. Contribuir para romper com esse círculo vicioso de dominação é o imperativo moral mais relevante de nosso tempo. Ainda que não haja nenhuma garantia de resultado, é uma luta que vale por si.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

A barbárie naturalizada

Lampião e seus cangaceiros degolados (1938)
A apologia ao linchamento e à tortura até pouco tempo estava somente implícita nos discursos. Dizia-se, com frequência, que prisão era pouco para fulano ou beltrano. Sempre em referência aos excluídos de sempre, culpados ou não, e a seus defensores, tidos como protetores de bandidos e inimigos dos cidadãos de bem. Essa turma desvairada dos direitos humanos, uma aberração humanista que destrói a ordem e o progresso daqueles que são, de acordo com a narrativa dos "homens do bem", os únicos seres com direitos a serem humanos. A lógica dos privilegiados de sempre. Desta narrativa, a do "prender é pouco", seguia-se que, se a prisão era insuficiente, restava infligir dor física de forma violenta e, no limite, tirar a vida da pessoa. Mas ultimamente, o implícito se tornou explícito. Afirma-se com tranquilidade que fulano ou beltrano deve ser morto. Assassinado. E com todas as letras. Declarações recentes nas redes sociais clamando pela morte de Lula e de Camila Pitanga, o primeiro simplesmente por ser Lula, a segunda por ser supostamente petista são exemplos que falam por si. Mas a capa da última Veja com a imagem da cabeça de Lula, ensanguentado e morto, parece dar um passo além. Não basta matar. O assassinato já é pouco. A morte deve ser violenta. Cruel. Estúpida. No Brasil, a decapitação, a degola e o esquartejamento estão na ordem do dia. O melhor lugar da barbárie naturalizada é aqui. E agora.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Os procuradores da Lava-jato faltaram à aula de lógica

Adicionar legenda
Sobre a fala de um dos procuradores da Lava-jato: "Precisamos dizer desde já que, em se tratando da lavagem de dinheiro, ou seja, em se tratando de uma tentativa de manter as aparências de licitude, não teremos aqui provas cabais de que Lula é o efetivo proprietário no papel do apartamento, pois justamente o fato de ele não figurar como proprietário do tríplex, da cobertura em Guarujá é uma forma de ocultação, dissimulação da verdadeira propriedade". Ora, o que caracteriza lavagem de dinheiro é a prova de que houve a ocultação da propriedade, e não a simples afirmação de que ela ocorreu porque pura e simplesmente é assim que se faz quando se lava dinheiro (ou seja, oculta-se patrimônio e ponto final). O argumento do procurador é circular. Vicioso. Tendencioso. Falacioso. Não se sustenta por um segundo sequer. Qualquer estudante de lógica elementar saberia identificar a fragilidade argumentativa dos nossos patéticos procuradores. Trata-se de um sofisma clássico: justificar o argumento assumindo como verdadeiro justamente aquilo que se pretende provar. Mais pueril impossível.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

O golpismo como lei universal no Brasil

De acordo com Immanuel Kant, devemos sempre agir de tal modo que a nossa máxima se torne uma lei universal. Assim, não deveríamos enganar o próximo porque caso a enganação se tornasse uma lei universal a vida em sociedade seria insustentável. Ninguém mais poderia confiar em ninguém. As relações se tornariam impossíveis. Se enquadrarmos a ação dos golpistas de acordo com o imperativo categórico de Kant, já que os procedimentos e os ritos foram todos considerados legais e em conformidade com a CF, e justificados por estarem de acordo com os mais elevados preceitos morais pelos seus executores e apoiadores, então o golpismo deverá se tornar uma lei universal no Brasil. Uma regra geral. Extensivo a todos os poderes da República. A todas as unidades da federação. A toda nação. E a todos seus respectivos cidadãos. Portanto, se levarmos a sério o critério moral de Kant, a cultura do golpe e a usurpação de poderes legitimamente constituídos deverão ser a regra daqui por diante. Ora, se o Congresso Nacional e o STF não respeitaram o Estado democrático de direito, mas alegaram que estavam agindo conforme a lei e a moral, e portanto de forma universal, então todo e qualquer tipo de contrato social está definitivamente rompido no país. Inclusive nosso contrato maior: o contrato da democracia. A partir de agora, não há mais nada a ser respeitado aqui nos tristes trópicos. Enquanto não for restabelecida a ordem democrática, vale tudo. Desde 31 de agosto, dia do golpe de Estado parlamentar, o golpismo se tornou uma lei universal no Brasil.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

A história do editorial golpista se repete 52 anos depois

O editorial de O Globo a respeito do depoimento de Dilma Rousseff é a peça final do quebra-cabeça do golpe. A vertente midiática. Mais uma vez, o editorialista demonstrou sua má-fé habitual ao utilizar o dispositivo da inversão das causas e efeitos. Afirma levianamente que Dilma não respondeu às acusações levantadas e que se limitava a utilizar sempre os mesmos argumentos em sua defesa. Ora, trata-se exatamente do inverso. Seus acusadores, não havendo base factual para sustentar suas acusações, repetiam exaustivamente as mesmas questões. Até o limite da tortura moral e psicológica. E ao repetirem as mesmas indagações, todas elas fora do escopo processual, obviamente exigiram respostas com as mesmas linhas argumentativas. O que causou as repetições argumentativas de Dilma Rousseff não foi a sua falta de argumentos, mas a falta de consistência da peça de acusação. As mesmas perguntas repetidas exaustivamente, por amor à coerência e à verdade, implicam as mesmas respostas, igualmente repetidas à exaustão. Uma simples questão de paralelismo.

Sem nenhuma cerimônia, o editorial tenta encobrir com sofismas grosseiros, em flagrante abuso da inteligência coletiva do país, o fato de que a tese de acusação também comete um vício lógico: salta da premissa maior diretamente para a conclusão, sem passar pela premissa menor, qual seja, a comprovação do fato. O instituto do Impeachment, ainda que previsto na Constituição Federal, sem um fato que lhe dê suporte é apenas um dispositivo legal teoricamente sem força para gerar efeitos jurídicos. O que está em curso é um processo de impeachment sem base fática. Sem um fato correspondente, não há enquadramento jurídico possível.

As supostas pedaladas fiscais e os créditos suplementares não são fatos passíveis de enquadramento como crime de responsabilidade. E se fossem, sequer foram comprovados. E ainda que fossem comprovados, o que definitivamente não foi o caso, não se comprovou o dolo, requisito fundamental para o enquadramento de crime de responsabilidade. Todos sabem disso. Os congressistas sabem. Os magistrados do STF sabem. Os barões da mídia e seus lacaios jornalistas também sabem. Os políticos de oposição ao governo democraticamente eleito sabem. Todos os golpistas sabem. O impeachment é apenas uma ficção jurídica utilizada como instrumento "legal" para legitimar um golpe de Estado que é, por definição, ilegítimo. O discurso pelo impeachment é, portanto, apenas artifício retórico para legitimar o ilegítimo. 

O mais triste é ver que a história de um editorial golpista se repete na grande mídia, 52 anos depois. Para se ter uma clara ideia, em 2 de abril de 1964 o editorial de O Globo aplaudiu o golpe militar: "Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares que os protegeram de seus inimigos". De acordo com o Palmério Dória e Mylon Severiano, que pesquisaram as manchetes na época do golpe, "a instauração da ditadura militar era recebida assim: 'Democratas dominam toda a nação' (O Estado de S. Paulo); 'Multidões em júbilo na praça da Liberdade' (O Estado de Minas); 'Lacerda anuncia volta do país à democracia' (Correio da Manhã).
Hoje e ontem uma grande parcela de leitores é influenciada cotidianamente por estes jornais. E seus similares. O Globo, a Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo, O Estado de Minas e as revistas Veja, Isto É, Época e congêneres, todos defendem os mesmos interesses: disseminar as ideologias neoliberais, homogeneizar a cultura, instaurar o medo generalizado e apoiar medidas de segurança pública cada vez mais severas. E de tempos em tempos, apoiar golpes de Estado. Até quando a sociedade aceitará desculpas insinceras e tardias de uma imprensa cada vez mais cínica, mercenária, demagógica e corrupta? Ou será que, na qualidade de público, como previu Joseph Pulitzer, já nós tornamos tão vis quanto a nossa grande imprensa?

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

O Brasil em tempos de brutal abandono

Quilombo São José da Serra
Foto Isabela Kassow
Para aqueles cujos bois estão confortavelmente deitados debaixo da sombra, tanto faz "impeachment", golpe, perda de direitos, retrocessos em políticas públicas, mais concentração de riqueza, mais injustiça social, mais exclusão, menos Estado. É tudo uma bobagem. Conversa de "esquerdopata". Assunto de "comunista". Seja lá o que isso signifique. Mas a questão é que essa manobra jurídico-parlamentar, nomeiem como quiser, afetará milhões de brasileiros somente para beneficiar um punhado de plutocratas desavergonhados e sem moral, que fazem da hipocrisia e do cinismo um meio de vida. Num país com tanta desigualdade social, não há tempo a perder. Um único dia com direitos a menos já causa estrago suficiente. Cada minuto conta. Toda paralisação é catastrófica. O Brasil não tem "reservas sociais" para queimar. Programas sociais não são como operações cambiais que podem flutuar às custas de reservas em moeda estrangeira. Pouco importa se em 2018 haverá eleições e os rumos do país provavelmente caminharão para dias melhores. Além de ser uma aposta sempre imprevisível (quem poderia imaginar um golpe de Estado em pleno 2016?), o país tem pressa. As carências sociais são profundas. Extensas. Intensas. Dois anos e meio nesse ritmo de desmonte irresponsável de políticas sociais será uma eternidade. Paradoxalmente, uma eternidade que correrá a toda velocidade. Quando se trata de destruição, o tempo é mais veloz. O que se leva tempo para construir destrói-se num átimo. E o tempo que voa não volta atrás. As perdas não retroagem. O sofrimento deixa marcas perenes. Para uma parcela significativa da população, a confirmação de Michel Fora Temer na presidência trará impactos mediatos e imediatos. E seus efeitos devastadores se propagarão para muito além de 2018. Muitos serão irreversíveis. Significará mais empobrecimento. Mais desamparo social. Precarização. Desesperança. Esquecimento. Negligência. No limite, serão tempos de brutal abandono aos abandonados de sempre.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

O ouro olímpico e a mão visível da inclusão social

Rafaela Silva - Medalha de ouro no judô
Olimpíadas Rio 2016
Rafaela Silva é uma força da natureza. Mas não foram as forças "naturais" do mercado que a levaram ao ouro olímpico. A vitória de Rafaela é fruto da combinação de seu talento natural (condição necessária mas não suficiente para brilhar em competições de alto rendimento), com a estrutura e o suporte garantidos por programas sociais atrelados ao esporte nacional. Não foram as grandes empresas, nem as ONGs financiadas por bancos e multinacionais que criaram as condições para que Rafaela conquistasse o ouro para o judô brasileiro. Tampouco os clubes esportivos frequentados pelas nossas meritocráticas elites. O talento de Rafaela foi elevado à condição de atleta medalhista em razão da existência de programas de inclusão social, como o Bolsa Pódio, justamente o tipo de política pública que o atual governo interino e ilegítimo que extinguir. Em países como o Brasil, onde há um enorme déficit de oportunidades para camadas mais carentes da população, o esporte pode funcionar como um meio legítimo e eficaz para promover mobilidade socioeconômica. O aprofundamento e a ampliação de programas como o Bolsa Pódio poderiam trazer benefícios significativos no combate à exclusão social. E levar o país ao status de potência esportiva mundial. O ouro de Rafaela é um belo exemplo de como a mão visível de políticas públicas includentes em combinação com o talento natural e o esforço pessoal podem dar resultados extraordinários. Infelizmente, esse não parece mais ser o caso. Com Michel Temer na presidência, caso seja confirmado o golpe de Estado, inverte-se o sinal. Revertem-se as prioridades. A tendência será o desaparecimento de todos os programas sociais, em diversas áreas, para muito além do esporte. Ao que tudo indica, a ponte para a exclusão e o abandono está quase concluída. Sob o silêncio conivente e a indiferença de milhões de cidadãos brasileiros. Simbolicamente, o ouro de Rafaela talvez seja o último sopro de esperança num país eternamente interrompido. País que parece ser sempre o país que poderia ter sido muito mais do que tudo aquilo que jamais chegou a ser.

sábado, 6 de agosto de 2016

O show de Temer: o show da farsa

Cena do filme O show de Truman: o show da vida
As organizações Globo transformaram a vida de Michel Fora Temer em uma espécie de "show de Truman". O mundo é bom. O Brasil é o paraíso. E tudo funciona perfeitamente. As olimpíadas são o maior espetáculo da Terra, sob a voz emocionada de Galvão Bueno. Até as vaias são editadas e transformadas em aplausos. Cartazes em protesto ao ilegítimo Temer desaparecem num passe de mágica. Manifestações em apoio a Dilma Rousseff se transformam em "ato da CUT e da militância do PT". Todo ato "#ForaTemer é tratado como se fosse uma reunião de meia dúzia de lunáticos, cuja quantidade de participantes houvesse sido extraída de alguma contagem elaborada pela Polícia Militar de São Paulo, ou seja, próxima de zero. Ricardo Noblat certa vez chegou ao cúmulo de publicar em sua coluna, num português pernóstico, bem ao estilo de Temer, esse breve elogio: "Uma coisa que eu jamais observara: como Temer é um senhor elegante. Quase diria bonito". Pois é. Quase um exemplar de literatura parnasiana. Mas ainda que Temer seja o protagonista desse show farsesco oferecido diariamente pela Globo (e similares), o personagem de Truman não é representado por Temer. No mundo encantado de Temer, produzido pelas câmaras de TV em alta definição, Truman Burbank somos todos nós.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

O país das ficções escravizantes com força de lei

A causa do impeachment é fragilíssima. Não existe nenhuma base legal que a sustente. Todos sabem disso, até mesmo seus autores. As pedaladas não passaram de uma ficção mal feita. Dramaturgia ruim. Roteiro surreal povoado por personagens impensáveis até nas obras mais farsescas. A vilania de Eduardo Cunha, a hipocrisia de Aécio Neves, a covardia de Michel "Fora" Temer, as interpretações afetadas de Janaína Paschoal, e tantas outras aberrações impensáveis, não caberiam em nenhuma narrativa ficcional, em nenhum mundo possível, exceto em nosso Brasil real de hoje. Ninguém teria a imaginação de criar um rol de personagens tão grotesco e reuni-los todos na mesma trama. Até o público mais tolerante exigiria um mínimo de plausibilidade. Esse impeachment não se sustenta nem juridicamente, nem tecnicamente, nem politicamente. É uma farsa sob qualquer aspecto que se queira analisar. Um golpe tosco. Rudimentar. Grosseiro. E, no entanto, caminha incólume para um desfecho vitorioso. O povo se cala. A imprensa frauda pesquisas, manipula dados econômicos, blinda golpistas e ataca seletivamente aqueles que pretende destruir. O maior crítico e ativista contra o golpe brasileiro é um jornalista norte-americano. Paradoxo. O Brasil vive imerso em uma espécie de torpor. Uma indiferença naturalizada. Em tempos de olimpíadas, um golpe derrubou o país. Com um cruzado da direita, fomos assaltados no logo primeiro assalto. Antes de o gongo tocar. O nocaute já estava consumado. Por pontos. Os juízes foram unânimes. As regras? Ora, as regras... E os fatos? Ora, os fatos... As leis? Ora, as leis... As regras, os fatos, as leis, os juízes, nada disso existe por si. Serão sempre as ficções que os poderosos quiserem que sejam. Vivemos numa espécie de Matrix jurídica e econômica manipulada pelos interesses das classes dominantes. Somos corpos que dissipam energia humana para manter em funcionamento a máquina da plutocracia. Seres ficcionais a serviço de uma distopia real. A história do Brasil é a história das ficções escravizantes. Com a força da lei. E com a lei da força.