quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Desigualdade: a nossa particularidade mais perversa

Montagem da peça Ham-let
Teatro Oficina - 1993
"Nas correntes corruptas deste mundo
As mãos douradas do delito podem afastar a justiça –
Como tanto se vê – o próprio lucro do malfeito
Comprando a lei."
(William Shakespeare, em Hamlet, peça escrita entre 1599-1602)


Corrupção se combate com auditoria, controle interno, sistemas de informação, investigação, ação policial e judicial coordenadas. Mas é preciso desfazer alguns mitos: corrupção não é um fenômeno exclusivamente do setor público. Dele participam atores os mais variados. Empresas privadas, empresas públicas, sociedades de economia mista, autarquias, templos religiosos, governos federal, estaduais e municipais e os poderes legislativo, executivo e judiciário. Há sempre um corrupto e um corruptor. Corrupção também, que fique claro, não é uma prática que se limita a partidos específicos. Transcende, portanto, partidos políticos. Tampouco trata-se de fenômeno novo, específico das sociedades capitalistas modernas, ainda que em economias de mercado, dada a multiplicidade de transações, a escala da corrupção seja muito maior. Historicamente, a corrupção vem acompanhando a humanidade desde o instante em que relações de poder se estabeleceram. Desde Homero, Platão, Aristóteles, O Antigo Testamento, Padre Antônio Vieira, Maquiavel, Shakespeare, Machado de Assis até os seriados da Netflix, todos testemunharam em suas obras relatos de corrupção. E o mais importante, a corrupção não é um fenômeno típico da sociedade brasileira. Nem na sua origem, nem agora. Os maiores casos de corrupção corporativa, com ou sem participação estatal, são originários dos países do Hemisfério Norte, o chamado primeiro mundo, tão idealizado por nossos intelectuais, moralistas, jornalistas, economistas, endinheirados, cosmopolitas e letrados em geral. Basta pesquisar os maiores casos de corrupção mundial no mercado financeiro ou no setor do petróleo (somente para ficar em dois segmentos) e verificar os resultados. A documentação é farta. Não somos, afinal, o país do jeitinho, do patrimonialismo, do personalismo, do nepotismo, da mutreta ou seja lá o que for. E se o somos em algum grau, somos tanto quanto qualquer país desenvolvido ou em desenvolvimento, ou seja, o somos não enquanto povo ou nação, mas somente naquela parcela da população que detém os meios materiais e sociais para sê-lo. A corrupção, portanto, não é causa da miséria humana, nem no Brasil, nem alhures, apenas um dos muitos efeitos das relações iníquas de poder. De resto, somos um país extremamente desigual, com uma concentração de renda e riqueza brutal. Isto sim, embora não seja uma exclusividade de nosso país, é uma particularidade perversa.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

O que é choque de capitalismo?

Uma grande parte da "inteligência" brasileira adora falar que o Brasil precisa de um choque de capitalismo. De Fabio Giambiagi a Marcelo Madureira, passando por Arnaldo Jabor, Míriam Leitão, Gustavo Franco, Denis Rosenfield, Bolívar Lamounier, Nelson Motta, Roberto DaMatta e tantos outros que inundam as páginas da mídia corporativa com textos supostamente liberais. E o que entendem por choque de capitalismo? O de sempre: redução de gastos públicos nas áreas sociais, corte de impostos, Banco Central independente, fim do BNDES, privatizações, terceirizações etc. Mas esse tipo de choque nada tem de capitalista, em sentido clássico. Apenas reforça os privilégios de quem já é privilegiado. Retira recursos de quem menos tem e os transfere para quem muito já tem. É um choque de desigualdade. Se quisermos realmente falar em choque de capitalismo, teríamos que começar pelo corte abrupto das taxas de juros. Eliminar os subsídios aos bancos e rentistas, que hoje se beneficiam da maior taxa de juros reais do planeta. Bancos teriam que competir entre si oferecendo as melhores taxas e os melhores serviços. E rentistas teriam que colocar seus recursos no setor produtivo para obter ganhos reais. O custo do capital ficaria mais barato, portanto as taxas de retorno não necessitariam ser tão elevadas, com impactos positivos na formação de preços de produtos e serviços, oferecendo negócios mais atraentes aos consumidores. Os especuladores financeiros externos, que aplicam seus recursos no Brasil em razão das taxas de juros elevadas, migrariam para outras bandas. O câmbio, em um primeiro momento, seria mais pressionado, os produtos importados ficariam ainda mais caros, o que estimularia a indústria nacional a fornecer produtos competitivos no mercado interno. As exportações aumentariam, diminuindo a necessidade de capital estrangeiro para compor as reservas em dólar. Depois de alguma turbulência, os preços se estabilizariam e estaríamos livres da maldição do juros estratosféricos e do câmbio eternamente sobrevalorizado. Os gastos com a dívida pública se reduziriam e recursos ficariam livres para investimentos em infraestrutura. As famílias, que hoje gastam cerca de 45% de suas rendas em juros, teriam seu poder aquisitivo aumentado, com impactos positivos no setor produtivo. O emprego e a renda seriam beneficiados. Outro choque necessário seria o fim dos monopólios e oligopólios artificiais, como rezam os manuais ortodoxos de economia, sobretudo nas áreas de telecomunicações. Os serviços de telefonia seriam forçados a oferecer mais por menos, como no resto do mundo, em que o setor é altamente competitivo. O mesmo vale para o setor da mídia, que é controlado por algumas poucas famílias que detêm um poder praticamente ilimitado. Controla conteúdos, manipula preços, fabrica consensos, deseduca as massas, homogeneíza a cultura, nivela a arte e determina o pensamento de grande parte da população, sempre de acordo com seus interesses de ocasião. Tudo isso sem nenhuma regulamentação. Esse tipo de choque capitalista nossos formadores de opinião, verdadeira tropa de choque das elites, representantes da mídia corporativa e do capital financeiro, não ousam reivindicar. É muito chocante para quem não quer correr riscos de perder suas confortáveis posições no pior dos capitalismos. O capitalismo mais selvagem. Na sua versão mais perversa. Neoliberal. Excludente, concentrador de riqueza e voltado exclusivamente para os interesses de uma classe dominante, que domina o país por inércia.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

O que vem das entranhas não se fabrica

Manifestações em Copacabana
Rio de Janeiro, 13 de dezembro de 2015
A Veja bem que tentou. Logo de manhã, em seu portal, estava convocando "as vozes roucas das ruas", na expressão de seu articulista especializado em clichês, a comparecerem nas manifestações em favor do impeachment. No final da tarde, ao verificar o fracasso retumbante do chamado às ruas, alegou falta de tempo para a organização do movimento e mudou a manchete: "Em 'esquenta', manifestantes já marcam data de novo grande protesto". Patético. O que houve foi mais um "esfria". E a marcação da nova data é uma tentativa para requentar um movimento que já soa velho, decadente, e encolhe a olhos vistos. A lição que fica: a mídia corporativa pode manipular quase tudo, mas jamais conseguirá manipular um clamor verdadeiramente popular. O que vem das entranhas não se fabrica. É, ou não é.

Crises econômicas não justificam processos de impeachment

Leilão judicial de casa na Califórnia
Foto: Ariel Zambelich/AP
Quando Dilma Rousseff se reelegeu em 2014, a oposição, auxiliada pela narrativa catastrofista da grande imprensa, imediatamente decretou o discurso da crise. Discursos abalam a confiança. E no capitalismo avançado, crises de confiança causam crises econômicas. Há um efeito performativo na narrativa da crise. Ao narrá-la, a despeito das realidades factuais, um clima adverso se instaura. Os resultados são impactados pelas expectativas, que se confirmam em razão das ações provocadas por elas mesmas, as expectativas. Um efeito de retroalimentação é disparado. Acrescente a instabilidade política fabricada pelos narradores do discurso da crise e seus propagadores midiáticos, e pronto: fez-se a crise. Mas se crise econômica fosse motivo para impeachment, todos os presidentes dos países democráticos mundo afora teriam sido depostos em algum momento da história. A democracia simplesmente não se sustentaria no sistema capitalista avançado, permeado por instabilidades crônicas, por crises sistêmicas, cíclicas e periódicas. O exemplo dos EUA, em 2007/2008, seria o mais emblemático: depressão econômica, corrupção generalizada no sistema financeiro, fraude à economia popular, manipulação de balanços e resultados por parte de grandes corporações sob conivência das auditorias públicas, ajuda a bancos com dinheiro do contribuinte, contaminação dos mercados globais por falta de regulamentação adequada e queda abrupta nos índices de popularidade do presidente. Em 2009, o desemprego nos EUA havia atingido 10,2%. Neste período, em razão da crise mundial, cujos efeitos ainda persistem, alguns países tiveram quedas no PIB superiores a 30% e taxas de desemprego que ultrapassaram 25%, chegando a mais de 50% entre jovens de 18 a 30 anos. Em resumo, se coubesse impeachment a cada crise do capital, acompanhada de ambiente institucional corrupto e/ou queda de popularidade do presidente eleito, seria a morte de todas as democracias modernas. O impeachment seria a regra e não uma exceção.

domingo, 13 de dezembro de 2015

Quando a sede de poder esvazia o discurso

“Diríamos que o Direito é como o rei Midas. Se na lenda grega esse monarca convertia em ouro tudo aquilo que tocava, aniquilando-se na sua própria riqueza, o Direito, não por castigo, mas por destinação ética, converte em jurídico tudo aquilo em que toca, para dar-lhe condições de realizabilidade garantida, em harmonia com os demais valores sociais.” (Miguel Reale, Lições preliminares de Direito)

“Democracia é um conceito político, não é jurídico”, afirmou recentemente Michel Temer. Trata-se, mais um vez, de declaração sofística, sem nenhum efeito prático, a não ser o de obscurecer o debate público. Democracia é um conceito político. Fato. Mas afirmar que não se trata de conceito jurídico é algo irrelevante, totalmente inócuo, pois ainda que a democracia não seja um conceito jurídico em sua origem, ao se concretizar sob a forma de um Estado democrático de direito, passa a integrar o mundo jurídico. A partir do instante em que uma categoria política é recepcionada pelo direito vigente, ela torna-se parte integrante do ordenamento jurídico. Logo, se a democracia, em abstrato, é um conceito político, em sua concretude não escapa de ser também jurídico. Como a afirmação se refere a uma democracia existente, qual seja a brasileira, o vice-presidente usa palavras como balas de festim. Somente para fazer algum barulho. Por nada. Exceto por exibicionismo e vaidade. E sede de poder. Mas nesse caso o tiro saiu pela culatra. Se pretendeu ser erudito, vendeu-se por inarticulado. Será que o ilustre professor de Direito Constitucional faltou às aulas de lógica jurídica e lógica formal nos tempos de estudante? Ou usa propositadamente argumentos falaciosos apenas para confundir seus interlocutores? 

sábado, 12 de dezembro de 2015

A imoralidade distributiva

"O que está em jogo não é a melhoria do combate à corrupção por meio do melhor aparelhamento dos órgãos de controle. O que existe é uma dramatização da oposição mercado (virtuoso) e Estado (corrupto) construída como uma suposta evidência da singularidade histórica e cultural brasileira." (Jessé Souza)

Enquanto os setores médios da população, as elites e a mídia corporativa discutem obsessivamente a corrupção, como se não fossem, em certa medida, eles próprios parte dela, os problemas mais centrais, que realmente importam ao país, são esquecidos ou relegados a um segundo plano. Enquanto se discute a moralidade administrativa como se fosse esta a origem de todos os nossos males, a imoralidade distributiva, traduzida na trágica concentração de renda social nas mãos de um reduzido grupo de privilegiados, permanece intocada. Convertem a exceção em regra. Tomam a parte pelo todo. E tratam da corrupção como se fosse uma particularidade da sociedade brasileira e não um fenômeno endêmico do capitalismo mundial, a ser combatido em escala global mediante o aprimoramento contínuo dos mecanismos de auditoria e controle. Demonizam o Estado, como se o mercado fosse o templo da virtude. 

Além de cometer todo o tipo de irregularidade (sonegação fiscal, ilegalidades trabalhistas e previdenciárias, formação de cartéis, monopólios ilegais, superfaturamentos, preços abusivos, vendas casadas, entrega de produtos com atraso, serviços de péssima qualidade, atendimento precário ao consumidor, salários depreciados, uso de mão de obra análoga a escravo, agressão ao meio ambiente etc.), as grandes corporações possuem estruturas ineficientes, inchadas e supérfluas, em seus níveis gerenciais, e estruturas precárias e sobrecarregadas nos níveis operacionais, de modo a garantir a seus diretores uma estrutura que permita perpetuá-los no poder, com elevadas compensações financeiras. 

Uma lógica que aprofunda as desigualdades de renda e riqueza no país. Sem mencionar outra questão igualmente profunda, também encoberta pelos meios de comunicação, que é o fato de o país praticar a maior taxa de juros reais do planeta. Demonizam a política fiscal, exigem corte de gastos sociais e redução de impostos, enquanto a política monetária corre frouxa, agravando o déficit público e retroalimentando a concentração de renda e riqueza. Fato que retira recursos já escassos da sociedade brasileira, e os transfere para rentistas sob a forma de confortáveis ganhos em renda fixa e produtos financeiros. 

Em outras palavras, enquanto articulistas, cientistas sociais, intelectuais genéricos, economistas, jornalistas e políticos conservadores desviam nossa atenção e nos entorpecem com problemas acessórios, mediante domínio real e simbólico das instituições, as questões realmente relevantes são varridas para debaixo do tapete. E a injustiça institucionalizada é justificada "cientificamente" e "naturalizada". Um ideário que reverbera por toda a sociedade, atingindo os corações e mentes até daqueles que em nada se beneficiam com essa visão de mundo. Fabrica-se, assim, um consenso, em que dominantes e dominados partilham a mesma visão de mundo. Eis a grande violência simbólica de nosso tempo. Tudo em nome do retorno do capital, quase sempre improdutivo. E socialmente ineficaz. Seja sob a forma de bônus, juros, lucros, aluguéis, exploração da terra ou especulação mobiliária e imobiliária. Retornos, diga-se de passagem, não excludentes entre si. Em geral, cumulativos. E, em si, excludentes.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

O crime desorganizado nos tempos de FHC

"Se houve, não foi organizada como agora", declarou recentemente Fernando Henrique Cardoso sobre a corrupção em seu governo. Conclusão: crimes desorganizados não merecem punição. Só os organizados. Quem se importa com a corrupção desorganizada dos tempos de FHC? A bagunça da compra de votos para reeleição, o caos das propinas nas privatizações, o escândalo estapafúrdio do Sivam, a confusão do Proer, o caixa dois de campanha gerido pelo desordenado Sérgio Motta, a obscuridade do grampo no BNDES, a desordem na construção do TRT paulista, o labiríntico caso Marka/FonteCindam, a promiscuidade do caso da Base de Alcântara, as negociatas nas compras de computadores com os recursos do Fust, as travessuras de Eduardo Jorge, as peripécias do engavetador Geraldo Brindeiro, os rombos e desvios assimétricos na Sudam/Sudene, o quebra-cabeça do Fundef, o desmatamento descontrolado na Amazônia, os desvios mirabolantes do esquema no FAT, os acidentes desestruturados na Petrobras, intervenção improvisada na Previ, a surpresa do racionamento de energia... E tantas outras desorganizações que rapidamente caíram no esquecimento. Tudo sem nenhum planejamento. Nenhuma organização. Crimes desorganizados. Organizadamente blindados pelas instituições, públicas e privadas. Logo impunes. Portanto, inexistentes juridicamente. O príncipe dos sociólogos, tão erudito, deveria recapitular as lições de Platão, em Górgias: "O culpado e o injusto serão sempre infelizes, e mais infelizes serão se não prestarem contas à justiça". Mas a lógica e a ética de FHC parecem obedecer a critérios mais práticos e menos filosóficos.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Brasil: a construção sempre interrompida

"O ponto de partida de qualquer novo projeto alternativo de nação terá que ser, inevitavelmente, o aumento da participação e do poder do povo nos centros de decisão do país." (Celso Furtado)

O Brasil ainda é um país escandalosamente desigual. Nessas condições, um governo só é legítimo quando suas políticas públicas são voltadas para redistribuição da renda e da riqueza. Embora sejamos um país de renda média, nosso PIB per capita é distorcido em razão da renda concentrada. Ainda não somos exatamente um país de classe média. Posto que tenha potencial de riqueza, o Brasil não é, como muitos afirmam, um país rico. A despeito dos notáveis avanços econômicos e sociais da última década, a maioria da população ainda vive em relativa pobreza. Portanto, a construção de uma sociedade mais justa e igualitária não pode ser interrompida. O Brasil já foi por demais interrompido ao longo de sua história. O golpe de Estado ora em curso, capitaneado pelas elites econômicas e financeiras do país, é um golpe pela interrupção do Brasil. Um golpe pela repetição da interrupção do processo democrático. Interrupção arquitetada para desmontar as políticas de redistribuição de renda e riqueza; eliminar gradativamente as redes de proteção social; transferir mais renda e riqueza para setores já privilegiados; terceirizar atividade-fim e precarizar ainda mais as classes trabalhadoras; abrir mercados estratégicos para capitais estrangeiros; reduzir impostos para aqueles cuja carga tributária já é proporcionalmente menor; privilegiar mercados financeiros em detrimento dos setores produtivos; privatizar progressivamente as áreas de saúde e educação; reestruturar instituições públicas de modo a esvaziá-las; favorecer a especulação imobiliária; proteger o latifúndio improdutivo; dificultar o enquadramento de trabalho análogo a escravo; endurecer as políticas de segurança pública; robustecer o rentismo mediante juros cada vez mais elevados; blindar as irregularidades públicas e privadas via Poder Judiciário, Procuradoria Geral da República, Tribunal de Contas, Ministério Público, Polícia Federal, Receita Federal e imprensa corporativa; e, sobretudo, desmoralizar e aniquilar, uma vez mais, os objetos mais emblemáticos do eterno ódio da elite nacional: a democracia e o povo brasileiro.

domingo, 6 de dezembro de 2015

Quando a luta de classes se converte em golpe de Estado

Imagem: Jean Baptiste Debret
Em 2014, pelo quarto pleito consecutivo, o PSDB perdeu as eleições presidenciais. Resultado que reflete não o voto das esquerdas, cuja massa eleitoral é pouco representativa em termos quantitativos, e sim da parcela do eleitorado que definitivamente não vota por questões ideológicas mas por razões pragmáticas, fundamentadas na inteligência prática. Pessoas que simplesmente verificaram a melhoria de suas condições de vida e levaram este fato em consideração na hora de votar. Em regiões do país que transcendem os grandes centros urbanos da área geoeconômica denominada Centro-Sul. Mas para os derrotados, quatro mandatos seguidos é tempo demais para deixar o processo democrático seguir o seu curso natural. Assim, diante dos reveses sucessivos, a oposição, amparada pelos meios de comunicação de massa e por instituições acadêmicas, cujos interesses econômicos e políticos com ela se coadunam, logrou cooptar as camadas médias da população, facilmente manipuláveis pelo discurso da moralidade administrativa, com o intuito de aplicar um ardiloso golpe de Estado. Golpe sem quartelada, arquitetado por comerciantes de pareceres jurídicos, sofisticados sofistas, pomposamente chamados de juristas. Golpe com marmelada, que anula os votos vencedores de uma camada da população que historicamente sempre foi alijada dos processos decisórios do país. O que está na raiz do processo de impeachment não são pedaladas fiscais ou irregularidades no âmbito do TSE, mas a ascensão social de uma classe que sempre foi alvo da mais profunda indiferença por parte de nossos dirigentes políticos. Algo que para as elites é inadmissível. Diante de tanto inconformismo, vale tudo para interromper esse curso indesejado. Até paralisar o país. Desde que tudo mude, e volte a ser como sempre foi.

As lições nada lúdicas da Primavera Paulista

Estudiantes - Eneko
Quando um representante da grande mídia corporativa afirma que os estudantes de São Paulo estavam brincando de Primavera Árabe, fica clara a prepotência e a arrogância de uma classe que, do alto de suas salas refrigeradas e assépticas, só trabalha em prol de seus interesses políticos e econômicos, e ainda se julga no poder de sentenciar o que seria um movimento popular relevante, sem jamais haver tido contato com os problemas reais de uma imensa parcela da população, jogada na mais absoluta indiferença, por ser considerada irrelevante por seus controladores, por seu público-alvo consumidor, seus patrocinadores e anunciantes.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Unidade de impressão e uniformidade de expressão

Diante de um governo popular, a grande mídia é oposicionista. Golpista. Face a um governo elitista, a grande mídia é governista. Legalista. Em ambos os casos, a grande mídia serve às grandes corporações, setor do qual é parte integrante. E se utiliza das classes médias como insumo para seus lucros. Seja como público consumidor de seus produtos, seja como público consumidor dos produtos de seus anunciantes, as classes médias garantem altos retornos para as grandes corporações midiáticas. E ainda reproduzem obedientemente suas ideologias, crenças e valores: diversidade de consenso, pluralidade hegemônica, liberdade de padronização, unidade de impressão, uniformidade de expressão, Estado mínimo, segurança máxima, fundamentalismo de mercado, privatizações, criminalização das minorias, condominização das cidades, segregação social, racismo velado, dominação meritocrática, manutenção de privilégios, urbanização especulativa, liberalização dos mercados financeiros, agências de risco, isenção para grandes fortunas, redução de impostos, aumento de juros, rentismo, moralidade administrativa partidária, imoralidade corporativa, estética conservadora, apoio à CBF, repúdio à CPMF, voto censitário, deslegitimação da cota para universitário, democracia plutocrática, ética seletiva, SUVs, concentração de renda, indignação por segmentação, blindagem para políticos aliados, carceragem para os inimigos, cirurgia plástica no nariz, entretenimento ligeiro, culpabilização das classes trabalhadoras, amores líquidos, solidões sólidas, culto ao individualismo, turismo predatório, demonização de sindicatos, celebridade da vez, premiações circulares, descobertas científicas inócuas, despolitização da política, cientificismo econômico, neoliberalismo para os pobres, protecionismo para os ricos, eficiência destruidora, guerras "justas", lucros injustos, eficácia desumanizadora, pensamento único, coro de articulistas, intelectuais empresários, celebração do supérfluo, egocentrismo, vaidade, obituário, arquitetura sectária, cubículo de empregada, engenharia rodoviária, viadutos, economistas banqueiros, doméstica sem FGTS, aposentado sem INSS, empresário sem ICMS, redução da maioridade penal, arte submissa, universidade omissa, sustentabilidade insustentável, tolerância à sonegação, maniqueísmos esquemáticos, marketing, merchandising, monetarismo, loft em New York, futebol de resultado, desmoralização de movimentos populares, desapropriações na forma da lei, desocupação com a força das armas, milionários inúteis, bom gosto, Botox, detox, carreirismo, manifestações ordeiras pela volta do regime militar, repressão violenta a baderneiros que lutam pelo direito de estudar, flexibilização do trabalho análogo ao escravo, terceirização de atividade-fim, fim do regime de partilha no pré-sal, ajuste fiscal, austeridade, dieta da moda, cosmopolitismo provinciano, civilização contra barbárie, nós contra eles, o inferno é o outro. Destruição de partidos políticos contrários aos seus interesses e canonização de partidos políticos que representam seus interesses. Basta ler os editoriais dos grandes jornais, ouvir os comentaristas das rádios e assistir as pautas dos telejornais dos grandes grupos de comunicação. Está tudo lá. Todos os valores internalizados. Naturalizados. Tudo levado muito a sério. Repleto de sinceridade. Embrulhado e empacotado. Envolto em ceticismo cínico. Atrativamente didático. Inteligentemente envernizado. Facilitado. Estruturado. Quase intuitivo. Leve e palatável. Disponível para consumo imediato e propagação automática.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

A paz é mau negócio

Foto Isabela Kassow
Por que tanta violência no mundo de hoje? Uma das respostas possíveis é econômica. A indústria bélica não pode parar. E o artefato cria o fato. Que conduz ao ato. A lógica capitalista é crescer ou morrer. A pequena padaria da esquina que não se transformou em uma rede de fast food é a exceção que confirma a regra. Logo, para quem produz armas, a paz é um mau negócio. Interrompe o crescimento. Dá prejuízo. E as metas comerciais devem ser batidas. O show não pode parar. Seja guerra, guerrilha, terrorismo, tráfico ou violência urbana, tudo isso é muito lucrativo. E deve ter fluxo positivo para garantir a expansão dos negócios. Lucro direto para os fabricantes de armamentos. Indireto para toda a cadeia de valor: desde os bancos e acionistas que financiam os projetos de novas tecnologias bélicas (que lucram muito ao fazê-lo), até a rede de suprimentos que abastece o setor. Transporte, matérias-primas, vestuário, alimentação, energia, engenharia de sistemas, gestão de projetos e, em última instância, a industria da reconstrução. A destruição também é um excelente negócio. Um mundo de oportunidades para empresas de infraestrutura, construção civil e grandes empreiteiras. Sem mencionar os setores correlatos de segurança privada, exércitos particulares, mercenários legalizados, blindagem, alarmes, monitoramentos, drones. O marketing é feito subliminarmente pela mídia, por políticos, pelos "cidadãos de bem", pela indústria do entretenimento e pela lógica do encarceramento. A legitimidade moral, incrustada nas universidades. A representatividade política, infiltrada nos parlamentos. Não é a toa que grande parte dos recursos provém de impostos. E como não existe almoço grátis, os recursos que poderiam ir para educação, saúde, redistribuição de renda, urbanização de áreas carentes, pesquisas ambientais, ajuda humanitária etc. são drenados pela indústria bélica. Assim como cérebros que poderiam estar contribuindo para um mundo mais pacífico e justo, são atraídos por esta mesma indústria. Engenheiros, cientistas, administradores, economistas. As melhores cabeças, quando não são cooptadas pelo mercado financeiro, muitas vezes são arrastadas pela indústria da violência. Paga-se muito bem. Definitivamente, a paz interessa a poucos. Num mundo hobbesiano, quem vai dar o primeiro passo e se desarmar? Aparentemente ninguém. E a indústria bélica é irresistível. A cada nova onda de violência, um próspero ciclo de negócios é ativado. Uma bomba ou uma bala só são utilizadas uma única vez. Munições não são recicláveis. Exigem reposição imediata. Mas as vidas perdidas nunca mais serão repostas. Resultado? Indiferença. Banalização. Medo. Um preço que muitos parecem estar dispostos a pagar. Desde que os lucros continuem. E os suspeitos de sempre sejam punidos.