quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Unidade de impressão e uniformidade de expressão

Diante de um governo popular, a grande mídia é oposicionista. Golpista. Face a um governo elitista, a grande mídia é governista. Legalista. Em ambos os casos, a grande mídia serve às grandes corporações, setor do qual é parte integrante. E se utiliza das classes médias como insumo para seus lucros. Seja como público consumidor de seus produtos, seja como público consumidor dos produtos de seus anunciantes, as classes médias garantem altos retornos para as grandes corporações midiáticas. E ainda reproduzem obedientemente suas ideologias, crenças e valores: diversidade de consenso, pluralidade hegemônica, liberdade de padronização, unidade de impressão, uniformidade de expressão, Estado mínimo, segurança máxima, fundamentalismo de mercado, privatizações, criminalização das minorias, condominização das cidades, segregação social, racismo velado, dominação meritocrática, manutenção de privilégios, urbanização especulativa, liberalização dos mercados financeiros, agências de risco, isenção para grandes fortunas, redução de impostos, aumento de juros, rentismo, moralidade administrativa partidária, imoralidade corporativa, estética conservadora, apoio à CBF, repúdio à CPMF, voto censitário, deslegitimação da cota para universitário, democracia plutocrática, ética seletiva, SUVs, concentração de renda, indignação por segmentação, blindagem para políticos aliados, carceragem para os inimigos, cirurgia plástica no nariz, entretenimento ligeiro, culpabilização das classes trabalhadoras, amores líquidos, solidões sólidas, culto ao individualismo, turismo predatório, demonização de sindicatos, celebridade da vez, premiações circulares, descobertas científicas inócuas, despolitização da política, cientificismo econômico, neoliberalismo para os pobres, protecionismo para os ricos, eficiência destruidora, guerras "justas", lucros injustos, eficácia desumanizadora, pensamento único, coro de articulistas, intelectuais empresários, celebração do supérfluo, egocentrismo, vaidade, obituário, arquitetura sectária, cubículo de empregada, engenharia rodoviária, viadutos, economistas banqueiros, doméstica sem FGTS, aposentado sem INSS, empresário sem ICMS, redução da maioridade penal, arte submissa, universidade omissa, sustentabilidade insustentável, tolerância à sonegação, maniqueísmos esquemáticos, marketing, merchandising, monetarismo, loft em New York, futebol de resultado, desmoralização de movimentos populares, desapropriações na forma da lei, desocupação com a força das armas, milionários inúteis, bom gosto, Botox, detox, carreirismo, manifestações ordeiras pela volta do regime militar, repressão violenta a baderneiros que lutam pelo direito de estudar, flexibilização do trabalho análogo ao escravo, terceirização de atividade-fim, fim do regime de partilha no pré-sal, ajuste fiscal, austeridade, dieta da moda, cosmopolitismo provinciano, civilização contra barbárie, nós contra eles, o inferno é o outro. Destruição de partidos políticos contrários aos seus interesses e canonização de partidos políticos que representam seus interesses. Basta ler os editoriais dos grandes jornais, ouvir os comentaristas das rádios e assistir as pautas dos telejornais dos grandes grupos de comunicação. Está tudo lá. Todos os valores internalizados. Naturalizados. Tudo levado muito a sério. Repleto de sinceridade. Embrulhado e empacotado. Envolto em ceticismo cínico. Atrativamente didático. Inteligentemente envernizado. Facilitado. Estruturado. Quase intuitivo. Leve e palatável. Disponível para consumo imediato e propagação automática.