terça-feira, 15 de dezembro de 2015

O que é choque de capitalismo?

Uma grande parte da "inteligência" brasileira adora falar que o Brasil precisa de um choque de capitalismo. De Fabio Giambiagi a Marcelo Madureira, passando por Arnaldo Jabor, Míriam Leitão, Gustavo Franco, Denis Rosenfield, Bolívar Lamounier, Nelson Motta, Roberto DaMatta e tantos outros que inundam as páginas da mídia corporativa com textos supostamente liberais. E o que entendem por choque de capitalismo? O de sempre: redução de gastos públicos nas áreas sociais, corte de impostos, Banco Central independente, fim do BNDES, privatizações, terceirizações etc. Mas esse tipo de choque nada tem de capitalista, em sentido clássico. Apenas reforça os privilégios de quem já é privilegiado. Retira recursos de quem menos tem e os transfere para quem muito já tem. É um choque de desigualdade. Se quisermos realmente falar em choque de capitalismo, teríamos que começar pelo corte abrupto das taxas de juros. Eliminar os subsídios aos bancos e rentistas, que hoje se beneficiam da maior taxa de juros reais do planeta. Bancos teriam que competir entre si oferecendo as melhores taxas e os melhores serviços. E rentistas teriam que colocar seus recursos no setor produtivo para obter ganhos reais. O custo do capital ficaria mais barato, portanto as taxas de retorno não necessitariam ser tão elevadas, com impactos positivos na formação de preços de produtos e serviços, oferecendo negócios mais atraentes aos consumidores. Os especuladores financeiros externos, que aplicam seus recursos no Brasil em razão das taxas de juros elevadas, migrariam para outras bandas. O câmbio, em um primeiro momento, seria mais pressionado, os produtos importados ficariam ainda mais caros, o que estimularia a indústria nacional a fornecer produtos competitivos no mercado interno. As exportações aumentariam, diminuindo a necessidade de capital estrangeiro para compor as reservas em dólar. Depois de alguma turbulência, os preços se estabilizariam e estaríamos livres da maldição do juros estratosféricos e do câmbio eternamente sobrevalorizado. Os gastos com a dívida pública se reduziriam e recursos ficariam livres para investimentos em infraestrutura. As famílias, que hoje gastam cerca de 45% de suas rendas em juros, teriam seu poder aquisitivo aumentado, com impactos positivos no setor produtivo. O emprego e a renda seriam beneficiados. Outro choque necessário seria o fim dos monopólios e oligopólios artificiais, como rezam os manuais ortodoxos de economia, sobretudo nas áreas de telecomunicações. Os serviços de telefonia seriam forçados a oferecer mais por menos, como no resto do mundo, em que o setor é altamente competitivo. O mesmo vale para o setor da mídia, que é controlado por algumas poucas famílias que detêm um poder praticamente ilimitado. Controla conteúdos, manipula preços, fabrica consensos, deseduca as massas, homogeneíza a cultura, nivela a arte e determina o pensamento de grande parte da população, sempre de acordo com seus interesses de ocasião. Tudo isso sem nenhuma regulamentação. Esse tipo de choque capitalista nossos formadores de opinião, verdadeira tropa de choque das elites, representantes da mídia corporativa e do capital financeiro, não ousam reivindicar. É muito chocante para quem não quer correr riscos de perder suas confortáveis posições no pior dos capitalismos. O capitalismo mais selvagem. Na sua versão mais perversa. Neoliberal. Excludente, concentrador de riqueza e voltado exclusivamente para os interesses de uma classe dominante, que domina o país por inércia.