quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Desigualdade: a nossa particularidade mais perversa

Montagem da peça Ham-let
Teatro Oficina - 1993
"Nas correntes corruptas deste mundo
As mãos douradas do delito podem afastar a justiça –
Como tanto se vê – o próprio lucro do malfeito
Comprando a lei."
(William Shakespeare, em Hamlet, peça escrita entre 1599-1602)


Corrupção se combate com auditoria, controle interno, sistemas de informação, investigação, ação policial e judicial coordenadas. Mas é preciso desfazer alguns mitos: corrupção não é um fenômeno exclusivamente do setor público. Dele participam atores os mais variados. Empresas privadas, empresas públicas, sociedades de economia mista, autarquias, templos religiosos, governos federal, estaduais e municipais e os poderes legislativo, executivo e judiciário. Há sempre um corrupto e um corruptor. Corrupção também, que fique claro, não é uma prática que se limita a partidos específicos. Transcende, portanto, partidos políticos. Tampouco trata-se de fenômeno novo, específico das sociedades capitalistas modernas, ainda que em economias de mercado, dada a multiplicidade de transações, a escala da corrupção seja muito maior. Historicamente, a corrupção vem acompanhando a humanidade desde o instante em que relações de poder se estabeleceram. Desde Homero, Platão, Aristóteles, O Antigo Testamento, Padre Antônio Vieira, Maquiavel, Shakespeare, Machado de Assis até os seriados da Netflix, todos testemunharam em suas obras relatos de corrupção. E o mais importante, a corrupção não é um fenômeno típico da sociedade brasileira. Nem na sua origem, nem agora. Os maiores casos de corrupção corporativa, com ou sem participação estatal, são originários dos países do Hemisfério Norte, o chamado primeiro mundo, tão idealizado por nossos intelectuais, moralistas, jornalistas, economistas, endinheirados, cosmopolitas e letrados em geral. Basta pesquisar os maiores casos de corrupção mundial no mercado financeiro ou no setor do petróleo (somente para ficar em dois segmentos) e verificar os resultados. A documentação é farta. Não somos, afinal, o país do jeitinho, do patrimonialismo, do personalismo, do nepotismo, da mutreta ou seja lá o que for. E se o somos em algum grau, somos tanto quanto qualquer país desenvolvido ou em desenvolvimento, ou seja, o somos não enquanto povo ou nação, mas somente naquela parcela da população que detém os meios materiais e sociais para sê-lo. A corrupção, portanto, não é causa da miséria humana, nem no Brasil, nem alhures, apenas um dos muitos efeitos das relações iníquas de poder. De resto, somos um país extremamente desigual, com uma concentração de renda e riqueza brutal. Isto sim, embora não seja uma exclusividade de nosso país, é uma particularidade perversa.