segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Crises econômicas não justificam processos de impeachment

Leilão judicial de casa na Califórnia
Foto: Ariel Zambelich/AP
Quando Dilma Rousseff se reelegeu em 2014, a oposição, auxiliada pela narrativa catastrofista da grande imprensa, imediatamente decretou o discurso da crise. Discursos abalam a confiança. E no capitalismo avançado, crises de confiança causam crises econômicas. Há um efeito performativo na narrativa da crise. Ao narrá-la, a despeito das realidades factuais, um clima adverso se instaura. Os resultados são impactados pelas expectativas, que se confirmam em razão das ações provocadas por elas mesmas, as expectativas. Um efeito de retroalimentação é disparado. Acrescente a instabilidade política fabricada pelos narradores do discurso da crise e seus propagadores midiáticos, e pronto: fez-se a crise. Mas se crise econômica fosse motivo para impeachment, todos os presidentes dos países democráticos mundo afora teriam sido depostos em algum momento da história. A democracia simplesmente não se sustentaria no sistema capitalista avançado, permeado por instabilidades crônicas, por crises sistêmicas, cíclicas e periódicas. O exemplo dos EUA, em 2007/2008, seria o mais emblemático: depressão econômica, corrupção generalizada no sistema financeiro, fraude à economia popular, manipulação de balanços e resultados por parte de grandes corporações sob conivência das auditorias públicas, ajuda a bancos com dinheiro do contribuinte, contaminação dos mercados globais por falta de regulamentação adequada e queda abrupta nos índices de popularidade do presidente. Em 2009, o desemprego nos EUA havia atingido 10,2%. Neste período, em razão da crise mundial, cujos efeitos ainda persistem, alguns países tiveram quedas no PIB superiores a 30% e taxas de desemprego que ultrapassaram 25%, chegando a mais de 50% entre jovens de 18 a 30 anos. Em resumo, se coubesse impeachment a cada crise do capital, acompanhada de ambiente institucional corrupto e/ou queda de popularidade do presidente eleito, seria a morte de todas as democracias modernas. O impeachment seria a regra e não uma exceção.