terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Brasil: a construção sempre interrompida

"O ponto de partida de qualquer novo projeto alternativo de nação terá que ser, inevitavelmente, o aumento da participação e do poder do povo nos centros de decisão do país." (Celso Furtado)

O Brasil ainda é um país escandalosamente desigual. Nessas condições, um governo só é legítimo quando suas políticas públicas são voltadas para redistribuição da renda e da riqueza. Embora sejamos um país de renda média, nosso PIB per capita é distorcido em razão da renda concentrada. Ainda não somos exatamente um país de classe média. Posto que tenha potencial de riqueza, o Brasil não é, como muitos afirmam, um país rico. A despeito dos notáveis avanços econômicos e sociais da última década, a maioria da população ainda vive em relativa pobreza. Portanto, a construção de uma sociedade mais justa e igualitária não pode ser interrompida. O Brasil já foi por demais interrompido ao longo de sua história. O golpe de Estado ora em curso, capitaneado pelas elites econômicas e financeiras do país, é um golpe pela interrupção do Brasil. Um golpe pela repetição da interrupção do processo democrático. Interrupção arquitetada para desmontar as políticas de redistribuição de renda e riqueza; eliminar gradativamente as redes de proteção social; transferir mais renda e riqueza para setores já privilegiados; terceirizar atividade-fim e precarizar ainda mais as classes trabalhadoras; abrir mercados estratégicos para capitais estrangeiros; reduzir impostos para aqueles cuja carga tributária já é proporcionalmente menor; privilegiar mercados financeiros em detrimento dos setores produtivos; privatizar progressivamente as áreas de saúde e educação; reestruturar instituições públicas de modo a esvaziá-las; favorecer a especulação imobiliária; proteger o latifúndio improdutivo; dificultar o enquadramento de trabalho análogo a escravo; endurecer as políticas de segurança pública; robustecer o rentismo mediante juros cada vez mais elevados; blindar as irregularidades públicas e privadas via Poder Judiciário, Procuradoria Geral da República, Tribunal de Contas, Ministério Público, Polícia Federal, Receita Federal e imprensa corporativa; e, sobretudo, desmoralizar e aniquilar, uma vez mais, os objetos mais emblemáticos do eterno ódio da elite nacional: a democracia e o povo brasileiro.