sábado, 12 de dezembro de 2015

A imoralidade distributiva

"O que está em jogo não é a melhoria do combate à corrupção por meio do melhor aparelhamento dos órgãos de controle. O que existe é uma dramatização da oposição mercado (virtuoso) e Estado (corrupto) construída como uma suposta evidência da singularidade histórica e cultural brasileira." (Jessé Souza)

Enquanto os setores médios da população, as elites e a mídia corporativa discutem obsessivamente a corrupção, como se não fossem, em certa medida, eles próprios parte dela, os problemas mais centrais, que realmente importam ao país, são esquecidos ou relegados a um segundo plano. Enquanto se discute a moralidade administrativa como se fosse esta a origem de todos os nossos males, a imoralidade distributiva, traduzida na trágica concentração de renda social nas mãos de um reduzido grupo de privilegiados, permanece intocada. Convertem a exceção em regra. Tomam a parte pelo todo. E tratam da corrupção como se fosse uma particularidade da sociedade brasileira e não um fenômeno endêmico do capitalismo mundial, a ser combatido em escala global mediante o aprimoramento contínuo dos mecanismos de auditoria e controle. Demonizam o Estado, como se o mercado fosse o templo da virtude. 

Além de cometer todo o tipo de irregularidade (sonegação fiscal, ilegalidades trabalhistas e previdenciárias, formação de cartéis, monopólios ilegais, superfaturamentos, preços abusivos, vendas casadas, entrega de produtos com atraso, serviços de péssima qualidade, atendimento precário ao consumidor, salários depreciados, uso de mão de obra análoga a escravo, agressão ao meio ambiente etc.), as grandes corporações possuem estruturas ineficientes, inchadas e supérfluas, em seus níveis gerenciais, e estruturas precárias e sobrecarregadas nos níveis operacionais, de modo a garantir a seus diretores uma estrutura que permita perpetuá-los no poder, com elevadas compensações financeiras. 

Uma lógica que aprofunda as desigualdades de renda e riqueza no país. Sem mencionar outra questão igualmente profunda, também encoberta pelos meios de comunicação, que é o fato de o país praticar a maior taxa de juros reais do planeta. Demonizam a política fiscal, exigem corte de gastos sociais e redução de impostos, enquanto a política monetária corre frouxa, agravando o déficit público e retroalimentando a concentração de renda e riqueza. Fato que retira recursos já escassos da sociedade brasileira, e os transfere para rentistas sob a forma de confortáveis ganhos em renda fixa e produtos financeiros. 

Em outras palavras, enquanto articulistas, cientistas sociais, intelectuais genéricos, economistas, jornalistas e políticos conservadores desviam nossa atenção e nos entorpecem com problemas acessórios, mediante domínio real e simbólico das instituições, as questões realmente relevantes são varridas para debaixo do tapete. E a injustiça institucionalizada é justificada "cientificamente" e "naturalizada". Um ideário que reverbera por toda a sociedade, atingindo os corações e mentes até daqueles que em nada se beneficiam com essa visão de mundo. Fabrica-se, assim, um consenso, em que dominantes e dominados partilham a mesma visão de mundo. Eis a grande violência simbólica de nosso tempo. Tudo em nome do retorno do capital, quase sempre improdutivo. E socialmente ineficaz. Seja sob a forma de bônus, juros, lucros, aluguéis, exploração da terra ou especulação mobiliária e imobiliária. Retornos, diga-se de passagem, não excludentes entre si. Em geral, cumulativos. E, em si, excludentes.