terça-feira, 3 de novembro de 2015

Muito barulho por nada

Por que tantas luzes acessas
se já apagamos todas as revoluções?

Por que tanta busca de acumulação
se tudo se concentra em tão pouca mão?

Por que toda essa informação
se só nos concentramos por uns poucos segundos?

Por que tantos estímulos
se já estamos todos anestesiados?

Por que a busca pela beleza
se no entorno só há horror?

Por que tanta reivindicação por educação
se o que nos tira o sono é a prestação do carro?

Por que aspirar saúde
se já nos habituamos à doença?

Por que queremos rostos simétricos
se nossos espelhos são assimétricos?

Por que tantas métricas
se nada é mensurável?

Por que o desejo de juventude
se já estamos envelhecidos pelas convicções?

Por que tanta vaidade
se já ninguém enxerga mais ninguém?

Por que trilhar a perfeição
a não ser pela possibilidade de protelação?

Por que queremos tanta longevidade
se o tempo nos escapa?

Por que tanta solidariedade
se não nos choca a miséria?

Por que tanta compaixão
se já nos acostumamos aos genocídios?

Por que tanta moralidade
se o valor está num Porsche?

Por que tanta liberdade
sempre às custas de mais desigualdade?

Por que esquecemos da fraternidade?

Por que tanta construção
se tudo caminha para a especulação?

Por que tantos celulares
se nossas células estão desligadas?

Por que o Maracanã
se não existe mais a Geral?

Por que tanta literatura se os livros
são mais comprados e citados do que lidos?

Por que tanta arte
se já não nos encantamos mais?

Por que tanto ambientalismo
se nossa preocupação é o preço da gasolina?

Por que tanto ativismo se o que importa
é a cotação da moeda?

Por que tanto erotismo se já não sentimos
mais os nossos corpos?

Por que tanta ciência
se já não temos mais paciência?

Por que tanta indignação se somos
todos mais do mesmo?

Por que tantas perguntas
se já sabemos todas as respostas?

Por que tanto barulho
se já estamos tão próximos do nada?