terça-feira, 10 de novembro de 2015

Ciência sem paciência

Pedrô sur une palissade, boulevard Raspail, 2009
"Lá não há esperança
E não há futuro.
Ciência e paciência,
Suplício seguro."
(Arthur Rimbaud)


Em teoria, os céticos dos clima perderam: 99% dos cientistas são unânimes em afirmar que o aquecimento global é causado pela ação humana. Mas na prática, venceram: pouco ou quase nada se faz para reverter a situação climática emergencial em que vivemos. Por sua vez, na teoria, os neoliberais também perderam: economistas vencedores do Prêmio Nobel, acadêmicos conservadores e até diretores do FMI e do Banco Mundial já condenaram as práticas do Consenso de Washington. Nenhum economista sério acredita mais no fundamentalismo de mercado. E os resultados econômicos dos últimos 30 anos no mundo falam por si. No entanto, o que vemos na prática? Governos, imprensa e uma parte da academia, em especial no Brasil, defendendo práticas ortodoxas que deixariam constrangidos até os editorialistas do The Wall Street Journal. E no campo da criminologia, enquanto a maioria dos estudos sociológicos e antropológicos apontam para a ineficácia do endurecimento das penas privativas de liberdade, políticos e cidadãos clamam pela pena de morte e pela redução da maioridade penal, principalmente aqui nos tristes trópicos. Os exemplos são intermináveis. Para que servem então as ciências da natureza e as ciências sociais se, a despeito de tantas pesquisas científicas, a sociedade parece agir em sentido contrário às respostas que elas oferecem? Parece que perdemos a paciência com a ciência. Só nos interessamos por ciência quando ela se presta ao desenvolvimento de novas tecnologias para fins de consumo. O que não for aplicável imediatamente a um produto ou serviço já não nos interessa mais.