segunda-feira, 12 de outubro de 2015

A máscara da astúcia e da hipocrisia

Claude Gillot (1673-1722), Quatro Figuras da Commedia dell'Arte
"O mundo é uma espécie de circo enorme onde os homens combatem, em nome do ventre. Cada qual porfia a ver quem vai mais gordo para o túmulo." (Raul Pompeia) 

As denúncias contra o deputado Eduardo Cunha não causam comoção nacional simplesmente porque o deputado federal do PMDB faz parte da mesma elite que lidera os movimentos contra a corrupção no Brasil. Os indignados contra o governo do PT, orquestrados pela grande imprensa e por partidos políticos associados ao capital financeiro, que batem panela e vão às ruas protestar "apaixonadamente", possuem o mesmo sistema de crenças e valores representados por Eduardo Cunha. Em conclusão, a onda de indignação que tomou conta do Brasil jamais foi um movimento de origem popular. Afinal, no brilhante dizer de Raul Pompeia, "o instinto histórico da massa ensina-lhe que não tem que exultar com as lutas e glórias que não lhe dizem respeito". As últimas manifestações indignadas, com efeito, vieram de cima para baixo. Das elites que não abrem mão de um milímetro de seus interesses particulares. Gente que é capaz de tudo para defender as estruturas institucionais desenhadas politicamente para conservar a concentração de riqueza, renda e poder
. No fundo, as panelas nunca foram batidas por indignação contra a corrupção, esta "velha senhora" que sempre ocupou lugar de destaque nos setores público e privado ao longo da nossa história. Nossas elites mais afluentes, juntamente com as classes médias, sempre conviveram muito bem com as práticas de corrupção. Por conivência e conveniência. Com a total falta de reação por parte desses movimentos indignados em relação ao deputado Eduardo Cunha, aí incluída a grande mídia, fica claro que a recente onda de indignação representa apenas mais um ato, comum e recorrente, da chamada "sociedade civil", historicamente privilegiada, contra todo e qualquer governo de base popular, que ouse, ainda que timidamente, implantar políticas de redistribuição de renda e inclusão social no país. Aqui nos tristes trópicos, qualquer tentativa de equilíbrio de forças sociais é digna de ser combatida com todas as armas, de golpes militares no passado recente, a golpes jurídicos e midiáticos no presente imediato. Como escreveu certa vez Raul Pompeia, "os gladiadores batiam-se nus, os nossos combatentes digladiam-se mascarados". Não restam dúvidas de que nossos combatentes atuais, e suas verdadeiras tropas da elite, estão todos muito bem ornamentados, com a máscara da astúcia e da hipocrisia, nesse conflito secular que aqui se trava entre dominantes e dominadosparafraseando um Cunha que não era Eduardo mas Euclides.