quarta-feira, 23 de setembro de 2015

O "ganho Brasil" custa muito mais que o "custo Brasil"

"Os juros reais elevados, além de reprimir a taxa de investimento produtivo, implicam transferência de renda para capitalistas rentistas, nacionais e estrangeiros, aumento da despesa pública e desnecessário déficit público." (Luiz Carlos Bresser-Pereira)

O que mais prejudica a economia brasileira não é o chamado "custo Brasil". Mais grave é o "ganho Brasil". Ganho com juros elevados. Um país cujos juros reais estão entre os mais altos do mundo jamais atrairá investimentos produtivos suficientes para estimular sua economia e gerar empregos. O setor industrial do país, juntamente com a Fiesp, a CNI e similares, aprenderam a tolerar as altas taxas de juros reais, porque seus industriais já se tornaram rentistas. Os ganhos financeiros superam os ganhos decorrentes da atividade industrial. Mas os industriais também lucram com isso. Ou por meio dos ganhos em tesouraria de suas empresas, pois aplicam suas sobras de caixa no mercado financeiro, ou por intermédio de subsidiárias que operam no setor de crédito e financiamento, ou ainda mediante ganhos individuais, em aplicações financeiras de renda fixa. Não importa o meio utilizado, nossa burguesia industrial, outrora nacionalista e combativa acerca de seus interesses, quando lutava por uma política nacional desenvolvimentista, já se deixou seduzir pela mágica dos juros altos. A indústria brasileira se tornou, ela própria, um grande banco. Em 2011, em atitude corajosa, o governo federal e o Banco Central, sob a presidência de Alexandre Tombini, tentaram baixar os juros reais para 2% ao ano. Obtiveram sucesso. Temporário. Foi quando as cadernetas de poupança bateram em rentabilidade os títulos e fundos de renda fixa. Para se ganhar dinheiro, então, era preciso investir em capital fixo. Produzir. Correr riscos. Enfim, muito trabalho para quem já havia se acostumado aos ganhos fáceis e livres de risco da renda fixa. Os representantes da ortodoxia liberal se rebelaram. O terrorismo financeiro atacou pesado. Em todas as suas frentes possíveis. Sem apoio popular, diante da indiferença da sociedade civil e do Congresso Nacional, cujos representantes em sua maioria também são beneficiários do rentismo, o governo federal não resistiu à pressão. Em 2013, os defensores do mercado financeiro, apoiados pela grande mídia e pelas universidades, prevaleceram. O "ganho Brasil" foi recuperado. Os financistas venceram. E o Brasil perdeu mais uma vez.