quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Grau de investimento ou nota de especulação?

E o vento levou (1939)
"Diferentemente dos países asiáticos, também inseridos na economia global, o padrão de inserção internacional do Brasil prioriza a acumulação financeira em detrimento do investimento produtivo e do potencial exportador do país." (Miguel Bruno, Doutor em Economia das Instituições pela École des Hautes Études en Sciences Sociales) 

Em economia, investimento é um conceito relativo à produção e não à especulação. O grau de investimento, portanto, é uma nomenclatura incorreta do ponto de vista conceitual, uma vez que não se refere a investimentos produtivos e sim a aplicações financeiras especulativas. São notas ou avaliações referentes à rentabilidade e ao risco de aplicações atreladas ao câmbio (moeda soberana e fundos cambiais), às bolsas de valores (em especial para aplicações de curto prazo em títulos e fundos de renda variável) e às taxas de juros (títulos e fundos de renda fixa). Todas especulativas. Por essa razão a preocupação obsessiva com a inflação, que diminui as taxas de juros reais; com o câmbio, que afeta a rentabilidade das aplicações, além de a moeda ser um ativo financeiro em si mesma; e com a redução dos gastos públicos, pois superávits são essenciais para o pagamento das despesas com juros. Os jornais e demais meios de comunicação elaboram suas pautas com base unicamente no lado financeiro da economia. Os holofotes estão todos voltados para o capital financeiro. Ele seguirá impávido. Amoral. Impiedoso. Implacável. Impessoal. As especulações continuarão a se reproduzir indefinidamente, de maneira praticamente ilimitada e com o mínimo de regulamentação, nesse universo paralelo da globalização financeira. Com ou sem você. Apesar de você, de mim e de todos nós. Ainda bem. Mas a economia de um país não se reduz aos interesses de aplicadores especulativos. Sejam eles nacionais ou internacionais, aplicadores são todos voláteis. O vento leva. Traz. E leva de volta. E um país é muito maior do que alguns indicadores financeiros especulativos. Muito mais preocupante do que a redução do grau de investimento (ou da nota de especulação) têm sido as votações no Congresso Nacional. O financiamento privado de campanha ainda corre risco e o Estatuto do Desarmamento ficou enfraquecido. Próximos passos: redução da maioridade penal, terceirização de atividade fim, afrouxamento da caracterização de trabalho análogo a escravo, fim do regime de partilha do pré-sal e tantas outras pautas conservadoras que estão a caminho em 2016. Então, se você não é um grande especulador do mundo das finanças, esqueça os cadernos de economia dos jornais e siga em frente com a sua vida. Fique atento às votações de nossos congressistas. Seja combativo. Defenda diariamente a democracia. Lute para aprofundá-la cada vez mais. Olhe ao redor. Leia um bom livro. Viva um grande amor. Assista a um grande filme. Reflita sobre as grandes questões da humanidade, sem deixar de lavar a louça. Trabalhe com vigor e paixão em todas as suas produções pessoais e coletivas. Enfim, crie suas pequenas e grandes utopias. Não necessariamente nessa ordem ou com esses conteúdos . Mas viva uma vida que valha a pena por ela mesma. E deixe os cadernos de economia para os vampiros profissionais e seus respectivos porta-vozes igualmente vampirescos.